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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Por que os recentes discursos de Lula contra o machismo são fracos e vazios Milly Lacombe Colunista do UOL 06/12/2025 13h17 Deixe seu comentário REP - O presidente Lula (PT) fala em evento com professores no Ceará Imagem: Reprodução/YouTube/CanalGov Carregando player de áudio Ler resumo da notícia Lula decidiu falar fartamente contra o machismo. Faz uma semana que, por onde passa, dedica uns minutos à crítica da violência que homens praticam contra mulheres. Alguns argumentarão: finalmente! Outros lembrarão que em Lula 3 há um número histórico de mulheres em situação de poder e que, por isso, deixemos de ser chatas e paremos de reclamar de Lula. E uns repetirão o mantra: preferia Bolsonaro? Para começar, insisto: não estamos premiando a normalidade, nem celebrando a decência. É muito comum que homens que se julgam legais queiram o mimo do paparico. Tenho visto uma quantidade grande de homens que se definem como "aliados" explicando as falhas do feminismo por aí e elaborando teorias acadêmicas para dizer em cinquenta mil palavras o que muitos dizem em três: "nem todo homem". O medo de ser incluído no grupo dos misóginos faz os mais inteligentes emburrecerem em seus argumentos. Os discursos de Lula o separam dos supostos machistas. "Eles cometem crimes", Lula diz. Eles, os monstros, os safados, os pedófilos. Precisamos punir esses que estupram crianças, berrou Lula em discurso dado essa semana. Marco Antonio Sabino Flávio Bolsonaro não será o candidato único da direita Thais Bilenky Como sucessor de Cláudio Castro foi do céu ao inferno Paulo Camargo Eu era CEO e não sabia liderar 60 mil pessoas Julián Fuks O hábito de sublinhar livros: uma acalorada polêmica Quem seriam eles? Para quem está do lado de cá, um desses "eles" seria o homem que poderia praticamente equiparar o STF em gênero e escolheu não o fazer. Seria o homem que indica ao STF um fanático religioso como Jorge Messias. Messias é um cara bacana e capaz de tomar posições mais à esquerda? Parece ser. Mas se declara ardentemente contrário ao aborto, o que nos diz que Messias é um desses "eles". Não adianta Lula pegar o microfone e bradar contra a violência que homens praticam sobre corpos femininos e, na primeira oportunidade indicar à corte mais alta da justiça um fanático religioso. As palavras, que já eram ruins de saída, perdem força e verdade. Só existem homens na ponta final da ação criminosa - estuprar, assassinar, assediar, abusar - porque existem homens como Lula, Messias e tantos outros que legitimam esse horror ao usarem seus postos de poder para perpetuar a misoginia. O debate sobre gênero é central na política hoje. O candidato que ignorá-lo pode se dar muito mal, e Lula já sacou. Mas não adianta Lula subir o tom e apontar o dedo para supostos monstros se ele deixar de se implicar. Primeiro porque não existem monstros; existe uma sociedade que finge não saber que forçar sexo com sua parceira é estupro. Que deixar de igualar o salário dela ao dele é seguir submetendo-a ao controle dele. Que falar de aborto é falar de creches públicas e gratuitas em favelas e periferias, em centros esportivos em favelas e periferias, em centros culturais em favelas e periferias, em transporte de qualidade para que tutores voltem logo para casa, no fim da escala 6x1, na falta de compreensão de que mulheres trabalham numa escala 7x0, em enxergar trabalho como aquele feito por mulheres dentro dos lares etc. Continua após a publicidade Segundo porque nenhum homem se enxerga como criminoso. O que eles fazem é normal. Ter amantes, engravidar e mandar abortar, silenciar, interromper, não escutar, não contratar, não igualar salários, forçar o sexo com a mulher dormindo ou sonolenta, elogiar o corpo da funcionária, piadas machistas com os amigos, compartilhar nudes de mulheres, não criticar o amigo machista, tratar filhos e filhas de maneira diferente, encorajar o filhão a ser garanhão e a filinha a ser santa etc. Eu poderia seguir eternamente nessa lista. Mas quero dizer que isso tudo é entendido como normal na vida de muitos dos que agora se revoltam contra o número absurdo de feminicídios. Mas essa lista não é normal; ela é a monstruosidade em carne e osso. Eis a realidade contra a qual esperneiam: os que agem assim são aliados e cúmplices da violência entendida como violência (estupro e feminicídio) praticada por homens contra mulheres. Não existe a separação: trata-se de um mesmo fio de violência com começo, meio e fim. Estar no começo e deixar de se enxergar no meio não é motivo para medalhas. Lula está jogando para a torcida feminina. É muito pouco ter que escolher entre um fascista-machista ou um homem de centro-esquerda machista. Para nós, mulheres, a noção de que o melhor presidente que o Brasil já teve, que o político mais inteligente que essa nação já produziu é absolutamente inapto para questões de gênero é um tapa na cara. O que pode conferir confiança é a ideia de que Lula, quando quer, aprende rapidamente. A teoria feminista está aí para ele se letrar. Temos mais de um ano para a eleição. Quem sabe ele chegue ao final de 2026 como um machista reformado e com a compreensão de que ninguém pode fazer mais coisas do que ele em nome da nossa segurança e liberdade. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. 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