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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Em evento para mulheres, Governo se lambuza na lama do machismo Milly Lacombe Colunista do UOL 13/03/2026 17h21 Deixe seu comentário O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a abertura da II Conferência Nacional do Trabalho, no Anhembi, na zona norte de São Paulo Imagem: Roberto Sungi - 03.mar.26/Estadão Conteúdo Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× O governo do presidente Lula conseguiu enfiar os pés pelas mãos dentro de um evento organizado para promover campanha contra o feminicídio e contra as demais violências de gênero. Eu não me surpreendo, mas me alarmo. Vamos aos detalhes dessa história pavorosa. O governo achou que seria uma boa ideia levar feministas para Brasília para discursarem sobre problemas centrais envolvendo questões de gênero e de comunicação a respeito desses temas. Chamou de "Brasil Pela Vida das Meninas e Mulheres" e avisou que Lula participaria. Maravilhoso até aqui. Com esse gancho, o governo reuniu em Brasília muitas mulheres fenomenais e corajosas, colocou todo mundo dentro de uma sala e deu a elas um microfone. A princípio, tudo certo, bonito e necessário. Mas eis que, pouco antes de Lula chegar, por volta das 15h30 (o evento começou às 10h da manhã), o salão foi separado: homens para outra sala, mulheres ficam aqui mesmo. Daniela Lima Cresce a chance de delação de Vorcaro Letícia Casado Com unanimidade ou não, Vorcaro joga sozinho Mauro Cezar É incrível como toleram o futebol pobre do Palmeiras Milly Lacombe Os dilemas de ser mulher num mundo em guerra As mulheres presentes estranharam. O que estava acontecendo? Bem, o que estava acontecendo é que os homens foram levados para os braços do presidente Lula lá do outro lado do prédio e as mulheres ficaram ali umas com as outras. Na companhia de Lula e dos chefes dos outros dois poderes todos os homens ficaram ali se ouvindo sobre questões de gênero. Pelo menos é o que achamos que aconteceu por lá já que as mulheres não puderam entrar. O Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, que organizou o evento, informou que os homens foram participar de uma oficina voltada para questões de masculinidade. Provavelmente, dada por homens. Eu fiquei sabendo desse deslizamento moral no dia seguinte ao evento porque havia muitas amigas lá dentro, mas como me falaram em sigilo não pude tornar público. Mas agora que a braba Cris Fibe contou sobre o episódio em suas redes sociais e no Substack, me sinto livre para falar também. Que tipo de estupidez é capaz de organizar um evento anti-machista nesses termos? Existem nos escalões debaixo do governo muitas feministas boas de bola que certamente não estão sendo escutadas. Um evento assim estruturado só pode ter sido organizado por homens. Era um homem, aliás, o chefe do seminário. O que está acontecendo aqui, Brasil? O que está acontecendo é que o governo Lula acha que as questões de gênero não são assim tão importantes. Lula talvez não considere que a eleição do final do ano será decidida pelas mulheres, as mesmas que decidiram 2022. O machismo e a misoginia são tão profundos que até enxergar o óbvio passa a ser um desafio para quem está mergulhado em lama patriarcal. Continua após a publicidade Não importa sequer que os números berrem a realidade: as mulheres dão 36% de ótimo e de bom para Lula, e os homens 29%. Esses números não são em vão. Existe no atual governo uma movimentação real, ainda que mínima, em nome de tentar melhorar nossas vidas. O "Pacto Nacional - Brasil contra o Feminicídio" foi a iniciativa inédita firmada em 4 de fevereiro de 2026 pelos três Poderes da República (Executivo, Legislativo e Judiciário). Instituído pelo Decreto nº 12.839, reconheceu a violência contra mulheres como uma crise estrutural que exige atuação coordenada e permanente. Um passo e tanto se a gente lembrar que veio de um presidente que dizia que estupro era questão de merecimento e também um elogio já que algumas de nós nem isso merecíamos. Com o pacto, um Comitê Interinstitucional de Gestão, de natureza deliberativa foi criado para definir diretrizes estratégicas, coordenar a articulação entre os Poderes e monitorar o cumprimento dos compromissos assumidos e a assinatura contou com a presença do presidente Lula, do presidente do STF Edson Fachin, do presidente do Senado Davi Alcolumbre, do presidente da Câmara Hugo Motta e da ministra das Mulheres, Marcia Lopes. Ou seja. Todos os poderes estavam ali presentes. Se concretamente nada aconteceu ainda, simbolicamente houve um evento de importância extrema. Mas aí tudo parece ir pelo ralo porque os organizadores do "Brasil Pela Vida das Meninas e Mulheres" resolveram praticar a segregação na cara dura mostrando que homens querem ouvir e ser ouvidos por outros homens sobre temas femininos. Com deslizes como esses, tendemos a diminuir a importância de decisões já tomadas pelo governo como a operação nacional para cumprimento de aproximadamente mil mandados de prisão de agressores, a implementação de um sistema de monitoramento eletrônico para agressores cujas vítimas estejam com medida protetiva, o envio à OMS de pedido para criação de código específico no Código Internacional de Doenças (CID) com classificação de feminicídio, a distribuição de dispositivo portátil (relógio) com botão do pânico para mulheres com medida protetiva e a formação sobre a Lei Maria da Penha nas escolas, voltado a crianças e adolescentes, com o objetivo de promover a prevenção da violência contra mulheres desde a educação básica. Todas essas medidas ficam ofuscadas quando o governo organiza um evento sobre como mudar a realidade das mulheres no Brasil e esquece de colocar homens na posição de ouvintes e aprendizes. Continua após a publicidade José Roberto de Toledo e Thais Bilenky, no podcast "As Horas", fizeram no programa dessa sexta feira, 13 de março, uma avaliação sobre a importância das eleitoras para que Lula vença - e, portanto, para que a extrema-direita perca. "Lula precisa que essas mulheres saiam de casa e ganhem votos", disse Toledo analisando recortes e cruzando dados da pesquisa. Em resumo: sem nossa boa vontade, o fascismo volta. Vocês estão animadas para defender um governo que não leva nossas vozes a sério? Será que temos que nos contentar entre escolher entre um mal e um mal maior? É o que nos resta? Calar para que o fascismo não vença? Em dois mil e vinte e dois fomos às ruas nos esgoelando por votos. Teremos tesão para fazer tudo outra vez nos mesmos termos? Há quatro anos estamos vendo Lula ignorar pautas feministas fundamentais. Há quatro anos estamos aturando indicações de homens para cargos centrais nas decisões sobre nossas vidas e dignidades. Há quatro anos estamos engolindo a seco essa repugnante negligência - para ficar em palavras leves, mesmo que nem tão precisas, para contar essa história de horror. Vamos aguentar mais quanto tempo sendo ignoradas, tratadas como crianças e vendo nossa inteligência ser menosprezada? Presidente, sua curva de aprendizado é alta, sua capacidade de articular ideias é estupenda. Eu recomendaria que fôssemos levadas para o centro dessa campanha e que nos escutassem com ouvidos muito atentos. E que a pessoa que organizou o evento segregacionista fosse afastada de futuras decisões sobre questões de gênero. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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