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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Juliano Cazarré e o machismo de voz mansa Milly Lacombe Colunista do UOL 14/05/2026 10h58 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Juliano Cazarré divulgou fake news em programa da GloboNews Imagem: Reprodução/X e GloboNews Juliano Cazarré achou um caminho. O ator usa técnicas das artes cênicas, que ele domina, para comunicar violências disfarçadas de trivialidades. Convidado a debater masculinidades em um programa da Globonews, dentro do qual aproveitou para promover um curso que quer ensinar virilidade a homens, Cazarré testou as águas. E deve ter saído de lá bastante feliz. Pôde propagar mentiras, pôde explicar com muita calma e tranquilidade por que o mundo precisa de homens como ele, pôde se separar de todas as coisas ruins praticadas por homens maus e que causam tanta dor a mulheres. O espaço foi dado e ele surfou. Vera Iaconelli, sempre brilhante e eloquente, fez o que estava a seu alcance para desarticular as violências simbólicas por Cazarré repercutidas. Mas a voz final, para efeitos de divulgação de cortes, é a dele. E, em tempos de fragmentação, isso é quase tudo. Cazarré distribuiu dados falsos entre sorrisos. Tentou interromper, foi advertido e encenou o menino comportado. "Sim, claro, me desculpem". Letícia Casado Reação de Flávio a áudio irrita aliados Sakamoto Flávio-Vorcaro põe Michelle no céu e Tarcísio no inferno Josias de Souza Defesa de Flávio Bolsonaro sobre Master vira pó Gustavo Miller O emprego do futuro é offline? Comportadamente, disse que quer ensinar homens a serem viris sem se preocupar com a agressividade de uma colocação desse nível. É, pois, a virilidade masculina que todos os dias silencia, abusa, assedia, estupra e mata mulheres. Mas Cazarré explicou, em seu terno bem cortado e pose de executivo dos anos 50, que as mulheres precisam entender que existem homens bons e homens maus e que ele e muitos outros são (autodeclaradamente) homens bons. É bastante confortável poder se nomear um bom homem ignorando a completa falta de associação que uma colocação como essa tem com estruturas de poder. Se fôssemos depender dos autodeclarados bons homens para nos salvar, bem, estaríamos onde estamos. O goleiro Bruno, condenado por matar e esquartejar Elisa Samudio, acredita ser um bom homem. Robinho, preso por estupro, acredita ser um bom homem. Maridos de amigas que iniciam sexo matinal com elas ainda dormindo, têm certeza que são bons pais, bons homens, bons maridos. Há agora mesmo, por todo o Brasil, homens muito bons mandando suas mulheres pararem de falar, trocarem de roupa, comerem menos, irem malhar para perder a barriga. O mundo é feito de bons homens praticando atrocidades contra mulheres. Donald Trump, condenado por estupro, repete sem parar que é um cara do bem. Essa divisão entre bons e maus é teológica e moralizante e serve apenas para limpar a barra das piores pessoas. É importante poder se olhar no espelho e acreditar que até mesmo as piores coisas podem ser feitas para o bem. Dar cursos para homens serem mais viris é uma violência. Se separar do machismo a todo custo é outra violência. Colocar homens na chave do "bom"e do "mau" é outra violência. Essas abordagens apagam a dimensão estrutural do machismo e, ao fazer isso, permitem sua livre circulação. Vera Iaconelli terminou o encontro macabro dizendo que esse tipo de discurso é mais perigoso do que o de um Red Pill na medida em que o Red Pill está ali na nossa cara para sabermos pelo menos quem ele é. Enquanto Iaconelli falava, Cazarré fazia cara de nojo, deixando escapar a personagem fofa diante da eloquência de Vera. Foi uma forma certeira de encerrar o "debate". O machismo manso e esteticamente aceitável é de fato muito mais perigoso do que o de um Red Pill. Que Deus nos proteja dos bons homens. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Milly Lacombe por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Garro tira o Barra da Copa do Brasil Neymar pode dar recorde de público da Neo Química Arena em 2026 ao Santos Botafogo pede recuperação judicial para tentar fugir de punições da Fifa Transmissão ao vivo de Vitória x Flamengo pela Copa do Brasil: veja onde assistir Mulher é espancada por noivos após pedir ajuda em festa de casamento em SP