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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte O que os aliados precisam fazer para interromper o extermínio de mulheres Milly Lacombe Colunista do UOL 03/12/2025 12h33 Deixe seu comentário Carregando player de áudio Ler resumo da notícia REP - O presidente Lula (PT) em fala em Pernambuco Imagem: Reprodução/YouTube/CanalGov Depois de uma semana tenebrosa para mulheres no Brasil, Lula resolveu falar contra a violência que homens praticam sobre corpos femininos. E, como de costume, falou bobagem. O entendimento de Lula a respeito de gênero é rudimentar e constrangedor. Não interessa que ele seja um homem de quase 80 anos. Está vivo e lúcido, é líder de uma nação, precisa buscar instrução e parar de dizer atrocidades. "Seja grande. Não bata nela"; o presidente disse essas palavras, em tom de indignação, no palco de um evento no dia 2 de dezembro. Como quem fala sobre fazer uma dieta: Seja grande. Não coma doces. Vamos apelar para a força de vontade, que tal? Simplesmente silencie seus impulsos e tudo ficará bem. Depois Lula ainda disse: "O que está acontecendo na cabeça desse animal que é tido como a espécie mais inteligente do planeta para tanta violência?". Que o presidente da república se permita elaborar nesses termos uma pergunta tão estúpida, sem nenhum tipo de reflexão causal, como quem acredita estar, com ela, ajudando de alguma forma é ao mesmo tempo surpreendente, revoltante e absurdo. Sakamoto Gilmar extrapola ao blindar STF e põe fogo no Senado José Paulo Kupfer Euforia com recordes na Bolsa distorce preços Amanda Klein Acordo libera Orçamento, mas traz ônus ao governo Alexandre Borges Michelle é a única rival de Tarcísio na direita Lula, o mesmo que teve três oportunidades de indicar uma mulher ao STF num período de dois anos e se recusou. Lula, o que dá os ombros para a linguagem não-binária. Lula, o que confraterniza com políticos acusados de estupro. Lula, o que parece incapaz de ligar os pontos entre suas ações cotidianas e o assassinato de mulheres. Qualquer um é capaz de enxergar o horror do que está acontecendo com mulheres no Brasil; e qualquer um, diante do que está posto, é capaz de se manifestar publicamente sobre o tema. O que exige cognição e coragem é a implicação: o que eu posso fazer para mudar isso? Lula, por exemplo, pode fazer muita coisa, mas, sempre que a chance aparece, ele diz "agora não". Agora não para mulheres no STF. Agora não para pautar seriamente aborto. Agora não para compor um ministério pareado. Agora não para linguagem não binária. Agora não para um conselho de feministas me instruindo. Agora não para me educar sobre questões de gênero. Ah, mas antes era pior com Bolsonaro. Era pior, mas, vejam, seguimos sendo vítimas do descontrole de homens com Lula no poder. O que mudou para a gente tendo no poder um presidente bem humorado, inteligente e simpático? Continua após a publicidade O que mudou é que o Brasil das mulheres está se levantando e gritando "chega". Chega de nos matar. Chega de tanta violência. Chega de xingamentos, chega de socos, de gritos, de tapas, de chutes, de tiros. Num espaço de dez dias, fomos assassinadas por homens em trilhas indo para a natação, dentro de nossos trabalhos, dentro de nossas casas. Fomos agredidas nas marginais, nos parques, nas ruas. Quase sempre por um conhecido. Um conhecido que se achava proprietário de nossos corpos e desejos. Ou por desconhecidos que usam o corpo e a vida de uma para se vingar de muitas. Vejo alguns homens honestamente revoltados. Mas são poucos. E, entre eles, há os que exigem um lugar de destaque na luta. Não estão me vendo falar contra o machismo? Citem-me! Vejo outros, eles mesmos autores de violências e de microviolências contra mulheres, se pronunciando como se nada tivessem feito jamais. São homens que podem ter mudado, certamente. E seria justo e digno se assim fosse. Acho que um homem transformado é um aliado como nenhum outro. Mas, ao não se implicarem e apenas apontarem o dedo chamando outros de monstros, tendo a desconfiar da boa intenção e da real transformação. Peço licença para ser extremamente honesta outra vez: qualquer bobão é capaz de enxergar o horror na cotidiana prática de violência de homens contra mulheres. Qualquer bobão é capaz de levantar a mão e dizer: não pode isso, gente. Apenas parem. Esse tipo de posicionamento não é o que vai mudar nada. Seria preciso se implicar no contexto e parar de praticar microviolências cotidianas que, no fim do dia, legitimam tabefes, estupros e assassinatos. Continua após a publicidade E há, claro, aqueles que não mudaram suas práticas. Seguem interrompendo, seguem reclamando de mulheres nos bastidores e à boca pequena, seguem fazendo piadas misóginas e homofóbicas, seguem puxando o tapete de mulheres, seguem nos tratando com paternalismo, seguem criticando nossos corpos, seguem nos reduzindo a coisas para os amigos, seguem deixando de equiparar os salários para homens e mulheres numa mesma função, seguem fingindo não ver o amigo ser machista, seguem rindo com o colega misógino, seguem sem dizer nada no Zap quando passa no grupo dos caras a foto de uma mulher nua, seguem até agredindo mulheres, mas no espaço público andam parecendo grandes aliados indignados com tanta violência. Aquele que não iguala salários de mulheres e homens segue submetendo mulheres a homens, e essa submissão leva ao domínio e ao controle, que leva ao abuso, ao estupro e à morte. Peguem seus lotes no latifúndio desse extermínio, meus caros supostos aliados. Uma revelação: Nós sabemos quem vocês são. Aqui na nossa grande teia que funciona como um conjunto de raízes de árvores que se entrelaça no subsolo as informações são trocadas e se vocês acham que estão nos enganando, saibam que não é assim. Nossa base de dados é imensa e cresce a cada dia. E essa organização orgânica e necessária para nossa segurança é o que nos enche de força e de vitalidade. Seria urgente ligar os pontos da violência. Aquele que interrompe hoje é o que dá o tapa amanhã. Aquele que dá o tapa amanhã é o que abusa depois de amanhã. O que abusa vira o que assedia, que vira o que estupra, que vira o que mata. Nem todo homem que interrompe vai matar, mas todo assassino de mulher começou essa jornada desprezando a voz e a opinião de uma mulher. Homens, impliquem-se. Sem ligarmos os pontos entre suas práticas diárias e o abuso, o estupro e o assassinato de mulheres seguiremos chamando os abusadores, assediadores, estupradores e assassinos de monstros, de delinquentes, de párias sociais. Pois eles não são. Eles são o corriqueiro, o comum, o cotidiano. A colaboração mais revelante que cada um de vocês pode fazer para interromper o extermínio é se implicar mudando suas ações no dia a dia em vez de apenas tentar se separar a todo custo dos crimes e apontar o dedo dizendo: sejam grandes, meu amigos. Não batam em suas mulheres. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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