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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte O futebol está berrando o óbvio: existe um problema com a masculinidade Milly Lacombe Colunista do UOL 13/04/2026 09h35 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Confusão no túnel de acesso aos vestiários depois de Corinthians x Palmeiras Imagem: Canal GOAT André, jovem e promissor jogador corintiano, achou que seria uma boa ideia agarrar os bagos para confrontar o adversário. É um "toma aqui" bastante comum entre homens. André fez. Alan, outro corintiano fez. Abel Ferreira fez. Torcedores fazem. Homens por todos os cantos fazem. Agarrar o saco com uma das mãos, movimentar o quadril a frente e dizer alguma coisa do tipo: pega aqui. Um gesto vazio de sentido, mas repleto de um tipo de masculinidade hegemônica e adoentada. Os mesmos que defendem a família tradicional brasileira e não se cansam de falar em nome de Deus correm para dizer que o gesto não é nada demais, deixem de puritanismo, aqui é futebol, porra. Digam o que quiserem, as imagens são claras: Homens estão descontrolados. Estapeiam-se, partem para cima um do outro como crianças birrentas, agarram os bagos publicamente, saem dando voadoras, socam-se pelos campos e pelos cantos do campo. Treinadores à beira de uma síncope gesticulam como se estivessem lutando para salvar a espécie humana de uma invasão alienígena. Não estão. Estão reclamando de uma falta mal marcada, de um lateral invertido. Todos homens. Todos exibindo um sintoma da doença da masculinidade. Homens estão perdidos. Alexandre Borges Trump x papa Leão 14: existe guerra justa? Sakamoto Relator de CPI poupa colegas em ano eleitoral Carlos Nobre A guinada verde da China e a pressão sobre o Brasil Milly Lacombe Atitude da diretoria do Flu pode pôr o ano a perder "Ah, mas Milly, isso é futebol não é chazinho da tarde". Os que argumentam nesses termos estão tentando dizer que só há essas opções: ou chazinho da tarde ou futebol macho com pancadarias eventuais. E o que estamos argumentado daqui do lado de fora, que é onde as mulheres ainda existem no futebol, é que não existem apenas essas opções. A masculinidade está doente. Não precisamos de muita coisa para conformar essa premissa. Noventa e cinco por cento das violências praticadas no mundo são praticadas por homens. Homens matam quatro mulheres por dia no Brasil: mulheres com as quais são ou eram casados, mulheres com quem estavam namorando, mulheres com as quais estavam flertando, mulheres com quem tiveram um caso extraconjugal. O feminicídio é o assassinato de mulheres cometidos por homens por elas conhecidos e, muitas vezes, alguém em quem elas confiavam. Um pai, um filho, um tio, um amante. Quem compreende esses dados e acha que não existe um problema com a masculinidade faz parte dele de forma direta. Mas o machismo não mata apenas mulheres; o machismo mata homens todos os dias de formas concretas e simbólicas. O machismo tira dos homens o direito à sensibilidade. O machismo obriga homens a serem violentos para se provarem homens. O machismo impede que homens peçam ajuda, digam que não estão aguentando mais, coloquem a cabeça no colo de um amigo e falem: estou triste, não estou dando conta. Continua após a publicidade O machismo arranca dos homens ainda meninos o direito à vulnerabilidade. Esse mesmo machismo ensina que a parte mais importante do corpo de um homem é o pênis. É o pau que indica o tamanho da sua potência de vida. Sempre ereto. Sempre pronto. Sempre arma de penetração. Deve ser insuportável ser homem nesses termos. E é aí que chegamos ao ridículo gesto de agarrar os bagos como demonstração de força, de masculinidade, de macheza. O pau não é a parte mais importante de coisa alguma para nenhuma mulher. A parte mais sedutora, erótica e importante de qualquer corpo é o cérebro. E a masculinidade adoentada está arrancando a cognição dos homens. Homens são ensinados a acreditar que a parte mais importante do corpo deles é o pau, mas se a ereção do pau dos heterossexuais é controlada por mulheres, esses seres que eles também foram ensinados a achar que são desprezíveis, temos um problema na base. Percebem a contradição? Não existem apenas as opções: puritanismo e jogo de macho. Existe um universo entre uma e outra. É possível jogar de forma intensa e competitiva sem se comportar como um cretino. É possível ser um treinador comprometido e apaixonado sem ofender outros profissionais. É possível ser homem sem estar infectado por esse tipo de masculinidade. É possível um outro tipo de masculinidade. É possível um outro tipo de homem que seja, inclusive, menos perverso com si mesmo. Nessa parte alguns deve estar pensando "nem todo homem". Lá vamos nós. Continua após a publicidade Vejam: exceções não podem ser usadas para explicar estruturas. Alguns de vocês gostariam que falássemos desse tema dizendo: a masculinidade está doente, menos a do Marquinhos, com quem estudei no ensino médio, a do João Pedro, meu amigo da faculdade, a do Paulo Enrique, que namorei antes de casar, a do Douglas, meu colega de trabalho, a do Bruninho, meu filho lindo. Homens que só suportam ler a respeito do tema da masculinidade adoentada se deixarmos espaço para falar das exceções são homens que fazem parte da estrutura adoentada e narcísica da masculinidade. Você não acha que sua masculinidade está doente? Você não acha que o machismo arrancou de você partes essenciais de sua humanidade? Você consegue ser vulnerável e pedir ajuda? Maravilhoso então. Junte-se à luta sem ficar querendo falar de você o tempo inteiro. O futebol está nos mostrando o estado putrefato da masculinidade. Vamos agir ou seguir lutando para que "homens sejam homens"? Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Milly Lacombe por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Gilmar e Toffoli dizem que relatório da CPI pode configurar abuso de poder PL e Novo decidem votar contra indicação de Messias ao Supremo Com petróleo a US$ 100, governo quer reviver a estatal BR Distribuidora Lula sanciona Plano Nacional de Educação e critica escolas cívico-militares Eduardo Bolsonaro falta a interrogatório no STF