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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Cursos para homens fracos Milly Lacombe Colunista do UOL 25/04/2026 11h57 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Jorginho (Juliano Cazarré) vai morrer em Três Graças Imagem: Reprodução/Globo A masculinidade anda com problemas e muita gente já percebeu. Assim, existe uma abundância de cursos que prometem ensinar homens a serem homens. Muitos deles são oferecidos por empresários e profissionais considerados bem sucedidos dentro desse sistema sócio-econômico; ou seja: ricos. Venha aprender a ser homem, dizem os pedagogos da masculinidade. Nesses cursos a ideia de ser homem está associada ao vínculo com Deus, com a propriedade e com a família. Não por acaso, um lema fascista: Deus, pátria e família. Respeitar hierarquias, empreender, prover, proteger e perpetuar a espécie. Os cursos são uma solução bastante ruim para um problema bastante real. De fato, temos uma questão com a masculinidade. Homens estão matando meninas e mulheres em números assombrosos. Estupros, assédios, abusos, pedofilia. Noventa e cinco porcento das violências no mundo são cometidas por homens. Existimos dentro de uma guerra de papeis bem definidos. Um grupo invasor e um território invadido. Esses cursos detectam o problema e oferecem a solução: venham aprender a agir decentemente. Sakamoto O elo entre o fim da 6x1 e 840 mil mortes no trabalho PVC Atlético-MG x Flamengo é o destaque da rodada Christian Dunker O papel da psicoterapia em tempos de guerras Helio de La Peña No bota-fora do Bota, quem vai substituir Textor? Mas o problema central é justamente a falta da capacidade masculina de acessar a própria vulnerabilidade. Homens são ensinados a escapar de suas fragilidades e de toda e qualquer emoção que esteja associado a valores sociais atribuídos ao feminino. Infelizmente, os cursos oferecidos não existem para resolver essa questão - ao contrário. Eles aprofundam a disfunção ao ligarem homens à ideia de um Deus onipotente e punitivista. Aprofundam ao reforçar a hierarquia dentro do núcleo familiar: homem entra com o dinheiro, mulher com serviços domésticos, incluindo o sexo. Aprofundam ao exigir que a heterossexualidade seja produzida em série como se pudéssemos produzir nossas sexualidades. Aprofundam ao afastar homens de lugares emocionais associados à delicadeza, à docilidade, à sensibilidade: Subam suas montanhas sem reclamar e, uma vez lá em cima, emitam um ruído primata. Ajoelhem. Orem. Trabalhem até a exaustão. Voltem para suas casas porque haverá uma mulher devidamente doutrinada para a função de cuidar de vocês. É um esquema que fere todos os envolvidos. Mulheres sujeitadas ao papel de servir; homens ao papel da infalibilidade. Mas sob disfarces: mulheres não estão servindo, estão cuidando e sendo cuidadas. Homens não estão sendo exigidos além de suas capacidades: estão demonstrando virilidade. Se eventualmente dentro desse arranjo papai perder a cabeça, bem, acontece. À mulher cabe silenciar e gerenciar emocionalmente o lar. Dali a pouco tudo volta à rotina. Até, claro, papai perder a cabeça outra vez. Solidão, agressividade, violência, mortes, aniquilamento, vícios. Uma série de tragédias resulta desse arranjo perverso. Papeis fixos de gênero destroem todos os dias tanto homens quanto mulheres. Para piorar, a maior parte desses cursos são dados por homens que têm Jair Bolsonaro como ídolo. Jair Bolsonaro é um homem que fez apologia ao estupro dizendo que o estupro é um elogio: só não te estupro porque você não merece. Jair Bolsonaro chama mulher de fraquejada, diz que prefere um filho morto a um filho gay, tem convicção da inferioridade das mulheres. Mas os homens querem que alguém diga a eles o que está acontecendo com a masculinidade nos dias de hoje porque as coisas de fato não andam boas. E esses "professores" chegam com uma resposta que engaja e é dada em nome de Deus. Não é uma resposta boa, mas é uma resposta. Continua após a publicidade Devemos culpar quem exatamente por essa catástrofe humanitária? Eu tenderia a dizer: o sistema que produz mulheres para serem de um jeito e homens para serem de outro. Enquanto focarmos no sintoma não trataremos da doença. E os homens promovendo cursos para ensinar outros homens a serem machos são apenas um sintoma. Um sintoma que está circulando livremente e, como um vírus, e aprofundando nossas enfermidades. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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