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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte O presente que Erika Hilton está oferecendo a todas as mulheres Milly Lacombe Colunista do UOL 12/03/2026 15h49 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× 24/04/2025 - A deputada federal, Érika Hilton Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil O apresentador Ratinho resolveu tirar de vez o freio de mão de sua régua moral para tecer comentários sobre o que ele acha que é ser mulher nesse mundo. Numa declaração de alguns minutos o comunicador revelou como é capaz de associar rapidamente ideias de baixa cognição. Ratinho achou que seria adequado, a fim de criticar a eleição da deputada Erika Hilton para chefiar a comissão da mulher na Câmara, sair elaborando pensamentos sobre o que é ser mulher nesse mundo. Num espetáculo de rara miséria juvenil, Ratinho declarou que ser mulher é ter útero, menstruar e ficar chata três dias do mês. Pronto. Está definido o que é ser mulher. Ter útero, menstruar e ficar chata por uns três dias mais ou menos. Como Erika Hilton é uma mulher trans, Ratinho decidiu que seria de bom tom vomitar uma série de tolices ao vivo e pronto. Josias de Souza Vorcaro namora ideia de liquidar a República Mônica Bergamo Toffoli reabre caminho para Vorcaro ser solto Gustavo Miller Não era amor, era cilada: IA vai acabar com estágios? Alicia Klein Homenagem corintiana a Lingard foi constrangedora Vamos analisar o que disse o apresentador. A parte da menstruação faz sentido dentro de uma sociedade que sexualiza crianças que acabaram de menstruar e joga no lixo mulheres que entraram na menopausa. O definir o que é ser mulher, Ratinho deixou escapar uma explicação macabra sobre por que meninas de dez, onze anos são vítimas de tantos crimes sexuais. Essa sociedade que opera nos termos de Ratinho acha que basta uma criança menstruar para ser declarada mulher. Percebem os problemas que a ideia gera? Como qualquer pessoa cujas sinapses estão ativas sabe, não é preciso ter útero para ser mulher. Muitas das mulheres declaradas mulher ao nascer não possuem um útero. Ou porque vieram sem, ou porque tiveram que retirar. Concentrar em um órgão a imensidão de coisas que fazem de uma pessoa uma mulher é não ter nenhuma vergonha de parecer pouco inteligente. Se chatice fosse medidor de feminilidade, Ratinho e tantos outros que se declaram homens passariam imediatamente à categoria mulher. Usar um discurso pretensamente simpático a mulheres cisgênero para atacar mulheres transgênero enquanto ao mesmo tempo ofende todas as mulheres é de uma estupidez ancestral. Mas, nem tudo está perdido. Caso Ratinho esteja disposto a melhorar, ele pode tentar entender o que é ser mulher escutando de mulheres o que é ser mulher. Continua após a publicidade Não é útero, vagina, cromossomos ou hormônios que me definem como mulher. Assim como não é o pênis que define um homem. Se ter um pinto fosse critério essencial para definir quem é homem, os mais de mil casos anuais dos alecrins que, por não lavarem seus pintos precisam passar por uma amputação, seriam encarados como casos de homens que deixam de ser homens. Mas Ratinho não faz essas declarações transfóbicas e misóginas por acaso. Para ele, a mulher é o ser humano que se reduz a um útero. Para ele, mulheres só podem exercer suas criatividades a partir de um útero. Não tem útero, não interessa. Notem a delinquência no uso das palavras: Reduzir mulheres a seus úteros é o princípio ativo do machismo, da misoginia e da transfobia. Nosso destino está em colocar nossos úteros para funcionar; uma ideia que oprime, silencia, diminui, apequena e mata muitas de nós, cis e tras, todos os dias. Quando uma mulher trans sobe ao palco como presidente de uma comissão de mulheres ela está libertando mulheres cis da violência de serem reduzidas a um útero. Existe na indicação de Erika Hilton um marco e um simbolismo muito fortes. A ideia de que nossos órgãos não nos definem, não traçam nossos destinos, não são sentenças de morte é um presente que todas as pessoas trans oferecem às pessoas cis. Ratinho escolheu derreter cognitivamente em público. Bastaria ter ido procurar saber como a OMS, uma organização que está longe de ser composta por feministas enfurecidas, define gênero: "uma construção social que varia segundo as culturas e as épocas". Pronto. Teria sido poupado do vexame e do processo que a deputada está movendo contra ele por transfobia. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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