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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Fux marca audiência sobre bets e deixa mulheres de fora Alicia Klein Colunista do UOL 31/10/2026 15h50 Deixe seu comentário Resumo Ouvir na voz do colunista 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× O ministro do STF Luiz Fux Imagem: Pedro Ladeira - 8.abr.26/Folhapress Texto de Beatriz Della Costa, fundadora e codiretora da CLARICE, coautora do livro Feminismo em Disputa . Na terça-feira, 3 de novembro, o Supremo Tribunal Federal faz uma audiência pública para discutir os impactos da medida provisória que proibiu as apostas online no Brasil. Serão ouvidas 28 entidades: dez clubes de futebol, duas entidades esportivas, cinco associações ligadas ao próprio setor de apostas e quatro associações empresariais e de radiodifusão que veiculavam a publicidade das bets. Nenhuma entidade de saúde pública, de defesa do consumidor ou de proteção da infância. Fora os órgãos do governo, só quem ganhou dinheiro com as bets. Quem vai falar por quem perdeu? Quando começamos a pesquisa Mulheres & Bets, quase tudo que se dizia sobre as bets vinha em número de mercado: arrecadação, patrocínio, receita dos clubes, quanto o setor movimentava. O apostador aparecia como um número médio, e a família dele não aparecia. Foi com essa inquietação que a CLARICE, estúdio de inteligência e imaginação sobre mulheres e poder, decidiu ouvir as mulheres. Em julho deste ano, depois de um ano e meio de mercado regulado, em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto IDEIA, fizemos mais de 2 mil entrevistas em todo o país e 60 conversas em profundidade com mulheres das classes C, D e E. Luiz Henrique Matos Influenciadores políticos e a bancada do like Sakamoto Imagina se o bolsonarismo tivesse vencido André Santana O golpismo faz vítimas até na própria direita Milly Lacombe Libertadores celebra a teimosia das mulheres O que elas contaram era outra coisa. A aposta não ficava no celular de quem jogava; entrava na casa. Quatro em cada dez brasileiras já apostaram, e a maioria não jogava para enriquecer, mas para completar a renda: a conta de luz, o material escolar, o bolo de aniversário do filho. Quando perdiam, o dinheiro faltava no mesmo lugar, dentro de casa. "Às vezes não tem um grão de comida dentro de casa porque a pessoa jogou", contou uma mulher de 24 anos, na Bahia. E quem não apostava também pagava: entre as mulheres que convivem com alguém que joga, 14% deixaram de pagar contas, uma em cada quatro relata brigas e perda de confiança, e 23% dos brasileiros conhecem ou presenciaram uma situação em que a aposta contribuiu para violência na família. Entre as que quiseram pedir ajuda para parar e não pediram, 65% dizem que foi por vergonha. A pesquisa não mudou a opinião pública. Mas deu nome ao que muita gente já vivia em casa, e isso apareceu nos números seguintes. Em julho, 62% das mulheres apoiavam a proibição das casas de apostas, contra 50% dos homens. Em outubro, já com a medida provisória em vigor, o Datafolha mediu 78% de apoio à proibição em todo o país, 13 pontos acima de novembro de 2024. A pauta deixou os cadernos de economia e passou a ser discutida como o que é: uma questão de família, de saúde mental e de proteção de crianças e adolescentes. O argumento econômico deve ser ouvido. Inteiro. Os clubes da Série A receberam cerca de R$ 1 bilhão em patrocínio das bets em 2025, o equivalente a 7% das suas receitas. No mesmo ano, os apostadores perderam R$ 37 bilhões nas plataformas. O que o futebol recebeu corresponde a menos de 3% do que as famílias deixaram lá. A arrecadação de impostos também costuma figurar entre os benefícios das bets. Mas quanto desse dinheiro volta para enfrentar o problema que as próprias apostas criam? Segundo o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), o setor arrecadou R$ 6,8 bilhões em tributos e destinações federais entre fevereiro e setembro de 2025. A lei reserva ao Ministério da Saúde 1% da parcela destinada às políticas públicas. Até agosto, haviam chegado à Saúde cerca de R$ 33 milhões. O mesmo instituto estima em pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano os custos de saúde associados aos jogos e às apostas. Essa conta é paga pelo SUS e pelas famílias. É esse o outro lado da conta que não está na lista de expositores. A própria Advocacia-Geral da União reconheceu, ao pedir a ampliação da audiência, que a composição atual é predominantemente composta por entidades esportivas e operadoras, e solicitou a inclusão de organizações como o Idec, o Dieese e a CNBB. Trinta e nove entidades da sociedade civil, entre elas a CLARICE, escreveram ao ministro Luiz Fux pedindo representação equânime de todas as perspectivas afetadas pela MP. Até agora, a lista foi ampliada uma vez, para incluir o Comitê Olímpico do Brasil e o Ministério do Esporte. Uma audiência pública serve para instruir uma decisão. Quando ela escuta só quem perde receita com a proibição, a pergunta é simples: a serviço de que ela está? Uma escuta parcial interessa a quem prefere que essa conta permaneça invisível. Quem paga por ela já pagou antes: a mãe que paga a dívida do filho e a adolescente que, nas nossas entrevistas, apostava com o CPF de um adulto sem que nenhuma plataforma a impedisse. As histórias dessas famílias precisam ter o mesmo peso que os balanços dos clubes e as projeções das empresas. Continua após a publicidade Uma audiência responsável começa pela escuta de quem vive o problema, e começa agora, não depois da decisão. A medida provisória segue para o Congresso Nacional, onde esse debate deve ser feito por inteiro, com tempo e dados. Até lá, ela precisa ser mantida. Suspender a proibição antes de ouvir as famílias seria decidir primeiro e escutar depois. As mulheres brasileiras já estão agindo. Nas entrevistas, elas contaram que confrontam, negociam dívida, tomam o celular de quem joga, procuram a igreja, dormem na porta do quarto dos filhos. Quando perguntadas, dizem com clareza o que querem. A terça-feira vai mostrar se as instituições estão dispostas a ouvi-las. O Brasil ganha muito quando escuta todos os lados. Perde muito quando escuta só um. Siga Alicia Klein no Instagram Se inscreva no canal de Alicia Klein e Milly Lacombe no YouTube Assine a newsletter da Alicia Klein Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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