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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Do que estamos falando quando falamos de Cuca? Milly Lacombe Colunista do UOL 21/03/2026 14h36 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Cuca, novo técnico do Santos, chegou ao Peixe nesta sexta-feira (20) e já comandou seu 1º treino Imagem: RAUL BARETTA/SANTOS FC "Entendemos como superada a questão", disse o presidente Marcelo Teixeira por ocasião da contratação de Cuca referindo-se ao caso do estupro coletivo que envolveu o treinador nos anos 80 na Suíça. Cuca chegou a ser condenado, mas a condenação foi anulada, o que o torna quites com a justiça. Portanto, não se trata mais de falar sobre processos, condenações ou anulações. Tem outra coisas implicadas aqui e vamos tentar desvendá-las. O que pega para qualquer mulher na declaração de Teixeira é escutar a palavra superação. Acho que nem Cuca concordaria com Teixeira diante dessa colocação. Há alguns anos, quando chegou ao Athletico PR, Cuca deu uma declaração se implicando em seu próprio passado (ele nunca tinha feito isso com relação ao episódio de Berna), no machismo e na misoginia que pulsam no futebol e na sociedade. Cuca indicou saber que, mesmo estando quites com a justiça, precisaria passar por um movimento de aprendizado, entrar numa jornada para ser um homem mais consciente, mais participativo. Em seguida, começou a atuar na formação de árbitras no Paraná e também do futebol feminino. Foi um começo. Mariana Sanches Cooperação ou soberania: o que Lula quer de Trump? A Hora Bolsonarismo distorce debate sobre entregador Milly Lacombe Do que estamos falando quando falamos de Cuca Igor Gielow Trump já ensaia discurso para fim da guerra Não acho que Cuca deva ser banido do futebol porque acredito que as pessoas possam se transformar. Respeito quem discorda, especialmente mulheres que discordam, mas nunca vou argumentar em nome de punição pura e simples. Uma lei que apenas puna não faz nada pela transformação da sociedade. Meu pensamento vai sempre pelo caminho da restauração. Torço para que Cuca esteja dando passos para um lugar em que seja capaz de escutar o presidente santista falar em superação e pensar: não, presidente, não está superado e jamais estará. Nunca estará superado pelas vítimas, pelas famílias das vítimas, pelas meninas e mulheres que todos os dias passam por violências praticadas por homens. Superação não é palavra boa para ser usada nesses casos, presidente. Conscientização é. Estou chegando de Salvador, onde fui participar de um painel organizado por juízas e desembargadoras que trabalham com Justiça Restaurativa, uma política pública que busca, como o nome diz, não apenas punir, mas restaurar. Alguns dos dados dizem que o trabalho com homens que praticam violências contra mulher e passam por letramento de gênero apresentam índices de reincidência da ordem de 3%. Três porcento. Ou seja; 97% dos homens jamais voltam a cometer os crimes pelos quais foram condenados. Se não queremos apenas punir, mas também transformar, temos aqui um caminho. É um trabalho importante, fundamental. Mas nem nesses casos o verbo "superar" pode ser usado. Não superamos. Jamais superaremos. Superar indica deixar para trás, passar por cima, esquecer. Se o trabalho de restauração for bem feito - e esses índices indicam que ele é bem feito - quem cometeu o crime jamais superará coisa alguma. Se o criminoso realmente se transformou, ele não vai esquecer; ele vai lembrar. Todos os dias. A maior pena de todas é ter que viver com a consciência do crime cometido. Continua após a publicidade Só nos transformamos se não esquecemos. Só existe transformação dentro de espaços de memória. Precisamos, aliás, construir esses espaços de memória. Honrar. Nomear. Lembrar. O restante da declaração de Teixeira foi melhor e pareceu tentar encontrar um caminho de mais consciência: "Acreditamos que tenha servido de exemplo e serve para nós também. Que a gente reafirme tudo que aquilo que possa servir de referência positiva ou negativa que tenha acontecido para que o Santos continue fazendo seu papel social", disse o presidente. É isso o que buscamos. Conscientização. Responsabilização. Ações. Participação efetivas de homens em processos que melhorem a vida das mulheres e na construção de uma sociedade que pare de nos assediar, silenciar, estuprar e matar. Precisamos de punição para criminosos, mas não vamos mudar a sociedade apenas prendendo um assediador-estuprador-machista-misógino por vez. A verdade é que quando falamos de Cuca já não estamos mais falando de Cuca. Cuca virou uma representação, a tradução de muitos sentimentos. Quando falamos de Cuca estamos falando das violências pelas quais passamos, da falta de valor dado à palavra de uma mulher, da ausência de responsabilização, do descaso da justiça com nossas histórias, da imensa violência praticada contra mulheres no futebol todos os dias. Cuca já não responde mais apenas por ele, e esse é um peso bastante grande - que pode sufocá-lo ou, a depender de como ele consiga se letrar, ajudá-lo a se transformar num agente dessa luta. O tempo dirá. Continua após a publicidade Mas e os homens? Como eles parecem estar se relacionando com esse caso? Pensemos na seguinte situação hipotética: Se as mulheres do Brasil avisassem que amanhã todas nós acordaríamos e publicaríamos nas redes sociais os nomes de nossos assediadores, abusadores e estupradores quantos homens dormiriam tranquilos hoje? É disso que se trata. Punições são importantes mas se tudo for revelado não haverá sistema penal que dê conta. Precisamos de homens letrados, reformados, arrependidos e dispostos a trabalhar em nome de uma sociedade mais justa e menos violenta. E agora desçamos um nível nessa análise. Nas matérias que tratam da volta de Cuca ao Santos, muitos homens reclamam no espaço dos comentários que seguir falando do caso do estupro coletivo em Berna é mimimi, exigem que paremos de ser chatas. Aqui, seria importante compreender que esses homens não estão falando de Cuca, mas deles mesmos. O que eles querem é que passemos rapidamente por esse tipo de assunto porque, assim, os assédios, abusos e estupros que eles próprios cometeram perdem a importância. Nesse caso, se um dia os crimes que eles cometeram contra mulheres vierem à tona, pouca gente vai ligar. Continua após a publicidade Por outro lado, se continuarmos levando tão a sério esse negócio de violência contra a mulher, então quem entre eles estará seguro não é mesmo? O que os apavora não é o crime, mas o crime que vem do passado, um passado que parecia morto. Quem pode revisitar seu passado e ter a certeza de que nunca cometeu um ato violento contra uma menina ou uma mulher? Homens não sabem viver no desconforto, esse lugar dentro do qual todas nós meninas e mulheres existimos todos os dias do ano. Acontece que para se tornar uma pessoa melhor o único caminho possível é através do desconforto, do incômodo, do desamparo. Tiremos mais uma camada. Muitos homens exigem que as mulheres desculpem Cuca imediatamente. "Já que ele diz que está trabalhando pela causa, gente, então o assunto acabou". Os homens que argumentam nesses termos tampouco falam de Cuca. Falam de si mesmos. É importante para eles saber que os desculparemos se eles reconhecerem de alguma forma o erro. É o que muitos argumentaram no caso de alguns pedidos de desculpas feitos por ocasião dos múltiplos casos de abusos relatados por Vanessa Barbara no podcast da Rádio Novelo a respeito do que ela passou com um grupo de escritores e editores há alguns anos. "Não vão nos desculpar? Quem vocês pensam que são? Então o que querem da gente?", disseram alguns na época. Continua após a publicidade A situação é mais complexa do que exigir aceitação a pedidos de desculpas. Um verdadeiro pedido de desculpas não se preocupa em ser aceito. Um pedido de desculpas honesto é o da pessoa que está arrependida com ela mesma. Da pessoa que entendeu seu erro, que entendeu as estruturas machistas da sociedade e que, dilacerada pela dor que vem com o reconhecimento do erro, já não pode mais calar. Essa pessoa não fica mendigando aceitação; ela vai à luta. É importante que os homens saibam que nunca vai bastar um pedido de desculpas, por mais honesto que seja. Queremos homens falando com outros homens sobre crimes de gênero. Queremos homens chamando a atenção de outros homens. Queremos homens que digam ao filho de Robinho: meu querido, não vamos mudar o nome na sua camisa não porque vai dar a impressão de que queremos homenagear alguém que está preso pelo crime de estupro. Sei que ele é seu pai, que você o ama, mas o que está em jogo aqui é maior do que a relação de vocês. Seu nome é Robson, seu apelido na base era Juninho, não vamos alterar nada não, tá bem? Queremos homens que olhem para o futebol feminino e vejam seu potencial. Homens que coloquem mulheres em suas comissões e em situação de poder. Homens que proíbam Gabriel de comemorar gol fazendo uma homenagem a alguém preso por estupro. Homens que pensem em ações para a parte feminina da torcida. Homens que compreendam que esse tipo de comportamento salva vidas de mulheres. Homens que saibam que se o passado eles não podem mais mudar, o presente e o futuro eles podem. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Milly Lacombe por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Mais de 140 cidades do RS já restringem serviços por falta de diesel Nunes lamenta saída de Tebet do MDB e a chama de 'marionete' de Lula em SP Carla Araújo: Postura de Mendonça no caso Master gera ressalvas Vigilância, traição, separação: o que Gisele disse a amigas sobre casamento Lula critica EUA por invasões: 'Agora querem ser donos das terras raras'