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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte A competência de uma mulher não pode ser escudo contra o machismo Milly Lacombe Colunista do UOL 23/02/2026 13h33 Deixe seu comentário A árbitra Daiane Muniz, em ação em Bragantino x São Paulo, no Campeonato Paulista Imagem: Joisel Amaral/AGIF Carregando player de áudio Ler resumo da notícia Sigo acompanhando as repercussões da declaração machista de Gustavo Marques, jogador do Bragantino, depois da eliminação para o São Paulo pelo Paulistão. Desde a verbalização abjeta, passando pelo pedido de desculpas e chegando aos textões e videozões daqueles que querem se colocar como aliados. É bom que o movimento contrário à manifestação pavorosa esteja grande. Fato a ser celebrado. Mas seria preciso sair da primeira camada dessa análise e ir para as demais porque, se não fizermos isso, corremos o risco de soar tão superficiais quanto os pedidos de desculpas que Gustavo vem emitindo desde o lamentável episódio. A primeira etapa da análise deve passar pela pergunta central sobre toda manifestação de solidariedade a uma vítima de violência de gênero, de raça, de classe, de sexualidade: como posso me implicar nesse horror? Josias de Souza Fachin é coveiro de prova viva no teatro pró-Toffoli Juca Kfouri Corinthians não tem forças para todas as competições Amanda Klein Flávio anima Centrão, que espera candidatura 'vingar' Alicia Klein Neymar e Diniz: as máscaras enfim caíram? Homens que correm para criticar Gustavo, se separando ardentemente do que ele fez, não nos convencem de muita coisa. Assim como eu certamente não convenceria uma pessoa negra se me manifestasse contra o racismo apenas apontando o dedo para outros racistas na desesperada tentativa de dizer "não sou como essa pessoa, tá?". O mais honesto seria me perguntar: onde mora o racismo em mim? Berrar "não sou racista" acaba soando hipócrita. Claro que sou. Fui socializada para ser. Onde ele se esconde em mim e como posso aprender com o erro de outros racistas? Essa é a chave para uma manifestação menos rasa. Homens precisariam se colocar nesse lugar antes de sair apontando o dedo para Gustavo. Outra etapa dessa reflexão sobre o erro com aspecto de crime de Gustavo seria o fato de estarmos concentrando frases de efeito na competência da Daiane Muniz. "Competência não tem gênero" escreveu a Federação Paulista pelos campos nesse domingo. Onde está o erro desse conceito? No fato de que não podemos criticar o machismo apenas quando ele acontece com mulheres competentes. Tanto faz se Daiane é boa árbitra ou não. Não é absolutamente esse o ponto. Jogar a crítica para a suposta competência dela é correr o risco de ver Daiane errar amanhã (e ela vai errar) e ter aberto espaço para o machismo poder circular livremente. A competência de uma mulher não pode ser escudo contra o machismo. Queremos o direito de errar. Queremos poder ser medíocres e ter a chance de nos recuperar sem correr o risco de sermos mortas por falhas, deslizes, tropeços. Seria importante que frases como essas não circulassem. Quem a criou pode ter a melhor das intenções, mas não está ajudando. Uma compreensão alargada do feminismo é fundamental para que a luta contra o machismo saia do prefácio do livro. Homens que querem ser aliados: estudem. Ouçam o que dizem as feministas. Leiam mulheres. Façam perguntas. Aceitem críticas. Coloquem-se em posição de humildade para aprender. Escutem. Interessem-se. Continua após a publicidade Chegamos ao pedido de desculpas que Gustavo fez depois do jogo: infantil e descartável. Não disse nada, não comunicou coisa alguma. Serviu para ele aliviar a própria culpa e, talvez, para não ter que dormir na sala. Mas serve também para aliviar muitos homens porque eles escutam e pensam em si mesmos. Amanhã podem ser eles a ter que pedir desculpas por coisas parecidas e por isso precisam que nós aceitemos o pedido de desculpas de Gustavo. Dizem bobagens como: para mim pareceu honesto, pelo menos ele teve coragem de falar alguma coisa etc. Que aceitemos publicamente o pedido de desculpas de Gustavo abre caminhos para que, depois de uma merda feita, o "foi mal aí" deixe tudo quites. Muitos homens precisam dessa certeza e quando recusamos o pedido de desculpas de Gustavo eles se sentem pessoalmente ofendidos. Primeiro: Não cabe às mulheres ofendidas e diminuídas pela declaração atroz de Gustavo serem obrigadas a aceitar pedido de desculpas algum. Haverá quem aceite, haverá que recuse e tanto faz. Não se pede desculpas para ver a reação da outra pessoa. Pede-se desculpas depois de compreender o erro. E isso Gustavo ainda não fez. Segundo: focar no pedido de desculpas é atitude diversionista. O tema é o machismo e não a nossa reação a ele. Não vale ser machista para fingir estar lutando contra o machismo. Agora cabe a Gustavo passar pelo processo de transformação e cabe àqueles que têm medo de serem os próximos a falar ou fazer besteira ir se letrar para diminuir as chances. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Milly Lacombe por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Lucas Souza chora após demissão da Record: 'Remuneração nem compensava' Operação contra El Mencho deixou outros 57 mortos, diz governo do México Em reunião com Bap, Flamengo aponta motivos da queda de rendimento Milena corre risco de sair? 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