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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte A realidade econômica do Cruzeiro e a armadilha do Fair Play Financeiro Mauro Cezar Pereira Colunista do UOL 11/01/2026 11h36 Deixe seu comentário Gerson é apresentado à torcida do Cruzeiro antes da estreia da equipe no Campeonato Mineiro Imagem: Gilson Lobo/AGIF Carregando player de áudio Ler resumo da notícia Por Fabrício Chicca* Direto ao ponto sobre a situação do Cruzeiro, o Fair Play Financeiro (FFP) e a estratégia do Flamengo. É um assunto complexo, e vou tentar explicar de um jeito que faça sentido. Quando um clube compra um jogador, ele não paga tudo de uma vez no balanço. O valor da compra é dividido pelos anos de contrato do atleta. Isso se chama amortização. Wálter Maierovitch Bolsonaro pede de tudo, e Moraes vira seu carcereiro Sakamoto Epidemia de burnout e o fim da jornada 6x1 Luciana Bugni Ricos também sofrem no Leblon de Manoel Carlos Thiago Stivaletti Maneco foi o mestre dos recalques sexuais da vida Pense assim: se o Cruzeiro gasta R$ 100 milhões em um jogador e faz um contrato de cinco anos, para o FFP, o custo anual desse jogador é de R$ 20 milhões. Essa "parcelinha" anual é o que entra no Pilar 3 do FFP, que é o limite de gastos com o elenco (70% quando totalmente efetivado, em 20??). A CBF confirma isso! O regulamento oficial do FFP (Anexo B, item B.1.1, II) diz claramente que o custo de elenco inclui a amortização, ou seja, o valor da compra dividido pelo tempo de contrato. Isso é crucial porque: 1. Custo Diluído: o clube consegue contratar um craque hoje, mas o custo dele se estende por anos no balanço. 2. A armadilha do aporte: O FFP limita os gastos com elenco a 70% da receita do clube, mais os aportes (o dinheiro que o investidor coloca Pilar 3). Se o clube tem uma receita baixa, mas gasta muito com elenco (incluindo essas amortizações), ele precisa dos aportes para não estourar o limite. 3. Dependência vitalícia: essa amortização é um custo fixo. Se o investidor parar de injetar dinheiro, o clube automaticamente estoura o FFP, porque a amortização continua lá, mas a base de cálculo (receita + aportes) diminui. É como um vício: quanto mais se gasta em jogadores caros, mais o clube se torna refém do dinheiro do investidor para sobreviver. Por exemplo o contrato do Gerson, no ultimo ano, seria um impacto grande nos 70% do limite de gastos do cruzeiro. Dados do Cruzeiro, com a premissa de que consiga um aumento otimista de 50% na receita operacional em 2025. São contas referencias, considerando um cenário positivo, realista seria 35% e pessimista 20%. Continua após a publicidade Números de 2024: Receita Operacional Líquida (ROL): R$ 282,7 milhões Custo com elenco (CAE): R$ 395 milhões Aportes recebidos: R$ 200,7 milhões Ultima situação registrada (2024): Mesmo com os aportes, o Cruzeiro já estaria acima do limite do FFP. Gastou 81,7% da sua base de cálculo, quando o máximo permitido seria 70%. Já estaria acima R$ 56,6 milhões. Contratação de Gérson: 27 milhões de euros (cerca de R$ 169,5 milhões) com contrato de quatro anos e salário de R$ 2 milhões por mês (estimado). O custo anual desse jogador para o FFP seria de R$ 68,39 milhões (amortização + salário). Continua após a publicidade Cenário Otimista (50% de Aumento na Receita em 2025): Nova receita (ROL): R$ 424 milhões (os 50% de aumento) Novo custo com elenco (CAE): R$ 395 milhões (antigo) + R$ 68,39 milhões (novo jogador) = R$ 463,47 milhões O que acontece? Mesmo com esse aumento gigante de receita, o Cruzeiro ainda estaria MUITO ACIMA do limite do FFP. Gastaria 109,3% da sua receita, excedendo em R$ 166,6 milhões. Para se adequar, o investidor precisaria injetar R$ 238 milhões em aportes! E o pior: só esse jogador consumiria quase 15% de todo o limite de gastos que o clube teria, mesmo com o aporte. E se a Receita não aumentar tanto? Cenário realista (34% de aumento na ROL): é um aumento mais pé no chão, considerando o que se espera de direitos de TV (LFU) e bilheteria. Aqui, a necessidade de aportes para o novo jogador sobe para R$ 283,5 milhões. Continua após a publicidade Cenário pessimista (20% de Aumento na ROL): Se o crescimento for menor, a injeção de capital necessária para o novo jogador salta para R$ 322 milhões. Moral da história é clara: mesmo partindo de uma premissa otimista de 50% de aumento na receita, o Cruzeiro SAF, sem os aportes do investidor, não conseguiria cumprir o Fair Play Financeiro. A contratação de um jogador caro só agrava essa dependência, transformando o investidor em um "banco" vitalício para o clube. É uma espiral de gastos que só o Flamengo, com sua receita orgânica gigante, consegue sustentar sem se endividar ou depender de injeções externas. Para as SAFs, é uma armadilha: ou você gasta e se torna refém, ou não gasta e perde competitividade. E a CBF, com o FFP, está aí para apertar ainda mais essa corda. Ainda não foi incluído o impacto do aumento do Kaio Jorge e nenhuma outra contratação. Obviamente, com saídas pode haver um ajuste, mas a diferença é muito grande. O Fair Play Financeiro não é só sobre punir, mas principalmente sobre identificar riscos. Ele mostra quando um clube, mesmo que pareça forte em campo, está no vermelho financeiramente e só se mantém de pé por causa de um "mecenas", um investidor que cobre os buracos. É aí que entra o Pilar 2 (resultado agregado), que olha o balanço do clube nos últimos três anos. Se está no vermelho, o aporte do mecenas, especialmente se for como contribuição de capital, pode fazer o clube fechar no azul, "maquiando" o resultado e evitando uma punição imediata. Continua após a publicidade No entanto, isso escancara uma dependência crônica: o clube só está no azul porque alguém está constantemente injetando dinheiro, e não por sua própria capacidade de gerar receita. Se o mecenas parar, o problema volta, e o clube pode ser obrigado a apresentar um Plano de Sustentabilidade para a CBF, mostrando como vai sair dessa situação. Caso não cumpra, as punições vêm. Nesse contexto, a estratégia do Flamengo de inflacionar o mercado faz ainda mais sentido. Com uma receita orgânica robusta, ele pode pagar salários e valores de transferência que outros clubes, mesmo as SAFs, só conseguem com aportes. Ao fazer isso, o Flamengo força os concorrentes a gastar mais, aumentando a dependência deles dos investidores, cada aporte pode diluir a porcentagem dos acionista, faz o investimento menos rentável e acaba expondo a fragilidade de quem não tem uma base financeira sólida. É um xeque-mate financeiro: ou o mecenas banca indefinidamente, ou o clube quebra as regras do FFP e sofre as consequências. O aumento de salário do Kaio Jorge, mesmo que pareça pequeno, tem um impacto direto no FFP. Imagine que o jogador do Cruzeiro receba um aumento de R$ 1 milhão por mês. Anualmente, isso são R$ 13 milhões, fora tributos; a mais no custo do elenco. Continua após a publicidade Considerando o limite de gastos do Pilar 3 (que seria de R$ 395 milhões no cenário otimista de 50% de aumento de ROL, sem o novo jogador, mas com os aportes necessários para equilíbrio), esse aumento de R$ 13 milhões representa 3,29% do limite total. Ou seja, um único aumento salarial, para um jogador que já está no clube, já "come" mais de 3% da margem que o clube tem para gastar com todo o elenco. Isso mostra como qualquer gasto extra, por menor que seja, tem um peso enorme para quem já vive no limite do FFP e depende de aportes. * Fabricio Chicca é PhD em Arquitetura pela Victoria University of Wellington, na Nova Zelândia, onde leciona desde 2013. Também é comunicador e cofundador do canal do YouTube Mundo na Bola. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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