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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte A trágica e evitável morte de jovem juíza que sonhava ser mãe Milly Lacombe Colunista do UOL 10/05/2026 11h37 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Juíza morre após complicações em procedimento cirúrgico Imagem: Reprodução/TJRS Mariana Francisco Ferreira era uma jovem e promissora juíza que desejava ser mãe. Como a profissão exige muito, especialmente de uma jovem em começo de carreira, a magistrada decidiu esperar e marcou um procedimento para retirada de óvulos e posterior congelamento. Assim, poderia se dedicar à maternidade no melhor momento. O planejamento é comum entre magistradas e, claro, entre mulheres que precisam e/ou escolhem se dedicar às suas vidas profissionais antes de se entregar ao ofício da maternidade. Mariana morreu em decorrência de uma hemorragia logo depois do procedimento. São muitas as camadas que devemos analisar aqui. A primeira seria: Mulheres escolhem congelar óvulos por muitos motivos mas talvez o mais comum seja o de poder se dedicar à carreira antes de encarar a maternidade. A escolha é consequência de práticas sociais que colocam sob responsabilidade da mãe a criação de uma criança. Se homens, mulheres e as instituições compartilhassem igualmente dos cuidados com bebês e crianças, as mulheres provavelmente não precisariam ter que optar entre carreira e maternidade e seriam capazes de realizar as duas coisas sem comprometer uma ou outra. Wálter Maierovitch Moraes deu breque para evitar falsas expectativas Josias de Souza Engana-se quem acredita em Flávio sobre reeleição Mauro Cezar Boca amplia a coleção de fiascos em casa Casagrande Roger e Diniz dependem de Majestoso para evitar crise A segunda deveria ser o questionamento de imposições de gênero que repetem a uma menina, desde que ela é muito pequena, que seu destino é ser mãe. Mulher nasce para parir. Ser mãe é a função maior de uma mulher. Bombardeadas desde a primeira infância com essa doutrina sobra pouco espaço para reconhecermos nossos reais desejos. Maternidade não pode ser normatividade; precisa ser um desejo bastante profundo e honesto sobre a maior aventura de uma existência: gerar um outro ser humano. A terceira deveria ser a de co-responsabilizarmos a sociedade que associa maternidade a uma obrigação da mulher e não oferece amparo para que mulheres sejam mães. Creches, escolas, educação, transporte, salários iguais ao de homens numa mesma função, jornada de trabalho com mais de um dia para a família, distribuição igualitária de tarefas realizadas dentro de um lar entre os adultos funcionais que nele moram são algumas das medidas que uma sociedade decente tomaria para conferir à mulher uma melhor consciência de seus desejos. A quarta é o reconhecimento do que é exigido de uma mulher - carreira, maternidade, padrões de beleza, amabilidade, submissão - e de que essas exigências matam - todos os dias. A morte de Mariana é uma tragédia sob qualquer ângulo que possamos escolher. A charge publicada pela Folha de S.Paulo logo depois da morte da magistrada, e que está causando revolta generalizada, seria apenas uma crítica inteligente a respeito dos penduricalhos da magistratura, mas acabou se tornado uma ofensa à vida de Mariana. Nela vemos a imagem de uma lápide com a frase: "Vidinha mais ou menos, até perdê-la junto dos penduricalhos". O deslize foi o momento da publicação e não a publicação em si. Como jornalismo é, além dos fatos, o contexto, a charge perdeu seu propósito e feriu um grupo grande de pessoas. O coletivo de magistradas Antígona, composto por magistradas comprometidas com a promoção da equidade de gênero no sistema de Justiça, escrevendo no Instagram uma crítica à publicação da charge, disse: "Este não é um chamado à censura, mas à empatia. A crítica pública pode e deve existir. Contudo, em tempos de luto e dor coletiva, é legítimo esperar que o debate público também seja atravessado por consideração humana e sensibilidade social". Continua após a publicidade Presto aqui minha solidariedade à família de Mariana Francisco Ferreira. Que Mariana esteja num lugar melhor e que todos e todas aqueles e aquelas que enfrentarão o luto de sua morte possam encontrar paz e conforto. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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