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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte A dívida da Fifa com as Mulheres Milly Lacombe Colunista do UOL 13/07/2026 05h30 Deixe seu comentário Neymar chora após eliminação do Brasil contra a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo 2026 Imagem: Buda Mendes/Getty Images Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Por Mayra Cotta* e Milly Lacombe A Copa do Mundo costuma ser aquele palco no qual recordes são quebrados, e essa edição consolidou mais um que certamente não deveria ter sido celebrado. O mundial de 2026 reuniu seis jogadores acusados de violência sexual, incluindo estupro. O dado não pode ser tratado como uma sucessão de casos isolados. Ele diz respeito ao ambiente institucional produzido pelo futebol profissional. A Fifa não é apenas uma organizadora de torneios, mas principalmente uma das organizações privadas mais poderosas do planeta e responsável por regular um dos espaços culturais de maior influência sobre a construção da masculinidade contemporânea. Luiz Henrique Matos Por que devemos ensinar a ler notícias Milly Lacombe Pintou o improvável herói dessa Copa Casagrande Quem pode ser mais decisivo nas semifinais? Joildo Santos Pequenas operam 56% da banda larga do Brasil Milhões de meninos crescem aprendendo o que significa "ser homem" observando seus ídolos dentro e fora de campo. Essa influência cria responsabilidades que vão muito além das quatro linhas. Durante décadas, a Fifa desenvolveu mecanismos sofisticados para combater o doping, manipulação de resultados, corrupção, racismo e discriminação. Todos esses temas são tratados como problemas internos da integridade do esporte, a despeito da existência de condenações criminais. Isso ocorre porque a responsabilidade esportiva nunca dependeu da responsabilidade penal. São sistemas distintos, com objetivos distintos. No entanto, quando as acusações envolvem violência sexual contra mulheres, o discurso muda. Repetidas vezes e já há anos somos frustradas com o mesmo tipo de resposta institucional, que simplesmente lava as mãos da decisão da Justiça. O jornalismo, por sua vez, tampouco pode se acanhar em contextualizar os crimes cometidos por homens contra mulheres, e deve evitar se esconder atrás do discurso conveniente do: "vamos esperar a justiça decidir para poder opinar". Essa postura parte de uma falsa equivalência, uma vez que processo penal existe para decidir se alguém perderá sua liberdade. Por isso exige um padrão probatório extremamente elevado e um conjunto robusto de garantias processuais. Já a decisão de suspender um atleta de uma competição internacional, de impor medidas cautelares ou de afastá-lo temporariamente de atividades oficiais pertence a outra esfera de responsabilização. Assim como empresas afastam empregados investigados por assédio e universidades apuram denúncias contra professores sem depender de uma sentença criminal, entidades esportivas também possuem autonomia e responsabilidade para proteger a integridade do ambiente que administram. Isso significa instituir um sistema de integridade voltado à prevenção e ao enfrentamento da violência de gênero, composto por canais independentes de denúncia, medidas de proteção às denunciantes, investigações especializadas, garantias de contraditório e ampla defesa, além de parâmetros probatórios compatíveis com a natureza das sanções esportivas. Continua após a publicidade A esfera disciplinar não substitui a Justiça criminal, mas também não pode ficar paralisada à espera dela; precisa atuar paralelamente. Exigir uma condenação penal definitiva para qualquer resposta institucional significa, na prática, transformar a impunidade em política de governança. Mas mesmo fazendo tudo isso, a Fifa ainda seguirá negligente se ficar apenas esperando sentada as denúncias chegarem. O futebol continua sendo um dos espaços mais intensamente masculinos do mundo. Centros de treinamento, categorias de base, concentrações, viagens, fama precoce, enormes assimetrias de poder e uma cultura historicamente marcada pela naturalização de determinadas formas de violência criam um ambiente que exige políticas preventivas permanentes. Uma instituição que movimenta bilhões de dólares não tem qualquer justificativa para não investir em formação sobre igualdade de gênero, consentimento, violência sexual e masculinidades para seus atletas de ponta. Afinal de contas, quem organiza e lucra - muito! - um ambiente também responde pelos riscos que ele produz. A Fifa possui legitimidade institucional e capacidade regulatória para estabelecer padrões mínimos de comportamento para seus atletas. Pode exigir formação obrigatória, criar mecanismos independentes de denúncia, investigar violações, aplicar medidas cautelares e estabelecer sanções disciplinares proporcionais. Faz isso em diversas outras áreas. Não há razão para que a violência contra mulheres permaneça como exceção. Continua após a publicidade Pode, por exemplo, colocar em contrato assinado entre as partes (jogadores e membros da comissão técnica) que, havendo acusação, ele tria duas opções: ser imediatamente afastado até que a justiça julgue o caso ou seguir com o elenco desde que passe por letramento feminista e trabalhe com vítimas de crimes como aquele pelo qual foi acusado. Se o futebol pretende continuar dizendo que transforma vidas, talvez seja hora de aceitar que também precisa transformar os homens que o representam. * Mayra Cotta é Advogada especialista em gênero Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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