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Só para assinantes Assine UOL Opinião A maior crise ética e moral da historia do São Paulo Juca Kfouri Colunista do UOL 10/01/2026 10h46 Deixe seu comentário Carregando player de áudio Ler resumo da notícia Mizael Conrado POR MIZAEL CONRADO, bicampeão mundial paralímpico de futebol de cegos* O futebol, no Brasil, não é simples prática esportiva. É herança afetiva, rito de passagem, liturgia popular que organiza memórias e dá sentido a ausências. Para o torcedor, o clube é mais do que escudo: é destino compartilhado, é voz interior que acompanha silêncios e celebrações. No meu percurso pessoal, o futebol foi sonho inaugural. Sonhei ser jogador, sonhei vestir a camisa do São Paulo Futebol Clube, sonhei ser o goleador que faria do Morumbi o seu altar cotidiano. A lembrança mais remota que guardo não é banal: é o gol de Careca na final do Campeonato Brasileiro de 1986, disputada em 25 de fevereiro de 1987. Ali, ainda menino, aprendi que o futebol podia ser épico, que a alegria podia ser coletiva e que certas imagens jamais nos abandonam. Em momentos de tristeza, frustração ou desalento, o Tricolor foi amparo. E havia, então, um orgulho legítimo: torcia-se para o maior clube do país, para a instituição mais respeitada, mais organizada, mais avançada em termos administrativos. O São Paulo representava excelência. Representava método. Representava futuro. Os chamados "cardeais do Morumbi" formavam uma elite dirigente que inspirava respeito dentro e fora do campo. O clube possuía o maior estádio particular do mundo, inaugurou o primeiro centro de treinamento dedicado exclusivamente ao futebol, estruturou um departamento médico que se tornou referência internacional e consolidou uma cultura de planejamento e profissionalismo inédita no Brasil. Paulo Camargo O que líderes podem aprender com a Venezuela Diogo Cortiz Cortes em pesquisas sufocam futuro do país Casagrande Há 49 anos, Ademir fazia seus últimos gols na Lusa Juca Kfouri O melhor Campeonato Paulista dos últimos tempos Essa arquitetura institucional produziu, como consequência natural, resultados esportivos extraordinários: bicampeonato da Libertadores, bicampeonato mundial, tricampeonato brasileiro, além de outras conquistas relevantes, como a Copa Conmebol vencida pelo time júnior, o histórico Expressinho do Morumbi. Mais do que títulos, o São Paulo formou mentalidade vencedora e elevou o patamar do futebol brasileiro, inclusive contribuindo decisivamente para que a Libertadores passasse a ser valorizada como a principal competição continental. Nem mesmo episódios graves, como o escândalo envolvendo a venda do jogador Mário Tilico, caso emblemático de corrupção, no qual se apurou o pagamento de comissão indevida ao então presidente do clube, foram capazes de destruir a imagem institucional do São Paulo. Havia, ainda, um capital moral acumulado: acreditava-se que os desvios eram exceções, não método; desvios individuais, não sistema. O problema do São Paulo nunca foi o jejum de títulos. Entre 1993 e 2005, por exemplo, conquistou-se apenas um campeonato paulista, e ainda assim o clube permaneceu sólido, respeitado, organizado. O colapso veio depois, não por falta de taças, mas por abandono deliberado de princípios. Após a retomada vitoriosa de 2005, com Libertadores e Mundial, seguida do tricampeonato brasileiro entre 2006 e 2008, iniciou-se um processo silencioso e contínuo de degradação institucional. O clube deixou de evoluir em governança, compliance, transparência e profissionalização executiva. Pior: passou a retroceder. Enquanto os principais adversários se modernizavam, o São Paulo se fechava em práticas arcaicas, personalistas e autorreferentes. Instalou-se um modelo antidemocrático, opaco, avesso ao contraditório, sustentado por soberba e arrogância. A tradição passou a ser utilizada como escudo retórico para justificar a manutenção de privilégios e a recusa à renovação. Em 2021, após sucessivos escândalos, fracassos esportivos e endividamento expressivo, assume a presidência Júlio Casares, com um discurso sedutor de modernização, transparência e saneamento financeiro. À época, a dívida declarada girava em torno de 500 milhões de reais. O discurso reacendeu esperanças. Vieram dois títulos (Campeonato Paulista e Copa do Brasil) que, hoje, revelam-se menos como ponto de inflexão estrutural e mais como instrumento de ilusão coletiva. Ao final do segundo mandato, o retrato é devastador. A dívida aproxima-se de um bilhão de reais. Não houve reforma de governança. Não houve fortalecimento de controles internos. Não houve cultura de compliance. O clube permanece dirigido pelos mesmos grupos que outrora foram exemplo de vanguarda e que hoje se revelam símbolos de decadência moral. O presidente que prometeu sanear as contas entregou endividamento recorde. O dirigente que prometeu transparência consolidou a opacidade. O gestor que prometeu modernidade manteve o atraso. Continua após a publicidade Os fatos recentemente revelados não admitem relativização. Não se trata de narrativa política, mas de materialidade probatória. Áudios, documentos e movimentações financeiras indicam a utilização do clube para fins privados, com participação direta de dirigentes e familiares do presidente. Áreas do estádio do Morumbi foram exploradas economicamente em benefício de pessoas ligadas à cúpula diretiva. A ex-esposa do presidente participou de reuniões para definição de contratos de patrocínio, inclusive envolvendo fornecimento de veículos, ao lado de um diretor adjunto da base. Tal situação é absolutamente incompatível com qualquer modelo minimamente sério de governança, sobretudo quando o clube dispõe de diretor de marketing experiente e reconhecido no mercado. Há, ainda, registros de saques milionários realizados na chamada "boca do caixa", que somam aproximadamente 11 milhões de reais, bem como créditos diretos na ordem de 1,5 milhão de reais vinculados ao presidente. Some-se a isso o fato de que o diretor envolvido nas gravações é personagem reincidente em escândalos gravíssimos, como o caso Maidana e tentativas anteriores de apropriação de receitas de patrocínio. À época desses episódios, o atual presidente ocupava a vice-presidência do departamento correspondente. A permanência desse dirigente na atual gestão não é acidente: é continuidade. No que se refere ao superintendente do clube, o presidente afirma que não tinha conhecimento dos fatos e que deles teria tomado ciência apenas recentemente. Trata-se de uma alegação que, por sua própria natureza e pelas circunstâncias que a cercam, mostra-se pouco crível. Ainda assim, mesmo que se admitisse, por hipótese, a veracidade dessa versão, a consequência institucional seria igualmente grave: se o superintendente tinha conhecimento dos fatos há quase um ano e optou pelo silêncio, a sua manutenção no cargo revela, no mínimo, tolerância com a omissão; no máximo, conivência. Em qualquer dos cenários (desconhecimento improvável ou ignorância admitida) a decisão de mantê-lo na função é injustificável sob qualquer parâmetro sério de governança. Diante desse cenário, esperava-se do Conselho Consultivo postura institucional mínima: afastamento cautelar dos envolvidos, abertura imediata de apuração independente e preservação da imagem do clube. O que se viu na reunião realizada ontem foi o oposto. O Conselho não apenas deixou de recomendar a destituição do presidente, como também se recusou a sugerir qualquer afastamento ou investigação formal. Pior: emitiu nota oficial afirmando que o presidente não poderia ser responsabilizado por práticas consideradas "habituais" no clube. Essa declaração é histórica pela gravidade. Ela institucionaliza o desvio, normaliza o ilícito e confessa, de forma inequívoca, a falência moral da instância que deveria proteger o São Paulo. Ali ficou claro que o clube não apenas envelheceu: apodreceu. Os cardeais, outrora guardiões do templo, transformaram-se em seus algozes. O São Paulo Futebol Clube atravessa hoje a mais profunda crise institucional de sua história. Não é crise esportiva. É crise ética, moral e reputacional. O clube que ensinou o Brasil a ser profissional hoje é exemplo de captura institucional, uso privado do patrimônio coletivo e desprezo absoluto pelos princípios mais elementares de governança. Continua após a publicidade Perder faz parte do futebol. Trair a própria história, não. * Mizael Conrado é presidente do Comitê Paraolímpico Brasileiro e sonhava em ser jogador de futebol e atuar pelo São Paulo Futebol Clube, mas ficou cego aos 9 anos em decorrência de catarata congênita; foi eleito melhor jogador de futebol de cegos do mundo em 1998, e medalhista de ouro nos Jogos Paralímpicos de Atenas-2004 e Pequim-2008. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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