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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Brazão e sua dor escondida Milly Lacombe Colunista do UOL 20/04/2026 13h20 Deixe seu comentário Gabriel Brazão, goleiro do Santos Imagem: Alessandra Torres/AGIF Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× O goleiro Brazão não esteve bem diante do Fluminense. Dois dos três gols que levou ele talvez não levasse em seus melhores dias. Acontece. Durante e depois do jogo muitos analistas fizeram esse comentário. O que não sabíamos é que o pai de Brazão estava na UTI em estado terminal e que morreria horas depois da partida. Mesmo diante desse contexto, Brazão foi trabalhar. Dias antes, no BBB, o apresentador Tadeu Schmidt, irmão de Oscar, fez um discurso apaixonado sobre a importância de ir trabalhar mesmo passando pelo luto. O irmão aprovaria, exigiria até - ele disse. Um discurso perigoso que romantiza o trabalho e deixa a dor ser ofuscada pela responsabilidade de se fazer presente diante do empregador. João Paulo Charleaux Ataque a estátua de Jesus divide direita dos EUA Casagrande Pedro e Endrick são dois camisas 9 querendo vaga Josias de Souza PT morde STF após Lula soltar mão de Moraes Milly Lacombe Brazão e sua dor escondida Todas e todos nós sentimos isso em alguma medida. É a ética capitalista: trabalhe, trabalhe, trabalhe. Ser "trabalhador" é substantivo mas também adjetivo: um homem trabalhador é um homem responsável, sério, honesto. Trabalhar é importante, mas não é o que viemos fazer nessa vida. Trabalhar em troca de um salário é necessário porque não há, dentro do capitalismo, outra forma de sobrevivermos a menos que sejamos bilionários ou herdeiros (coisas que normalmente andam juntas nessa sociedade). Estamos agora mesmo debatendo a escala 6x1 e escutando discursos de políticos da bancada da Bíblia dizendo que devemos sim trabalhar até a exaustão. A ética protestante e o espírito do capitalismo, como escreveu Max Weber. O fanatismo religioso não se separa da pregação por trabalhar até cair. A pergunta que devemos fazer é: quem ganha com isso? Volto a Brazão. Me parece claro que ele não deveria ter ido trabalhar no domingo. Mas, como acontece com cada um de nós, já internalizamos a ideia de que devemos trabalhar mesmo sofrendo porque isso comunica qualidade, honestidade, seriedade e, no caso dos homens, honra. Tadeu foi. Brazão foi. Isso é ser um chefe de família. Não, não é. Isso é ser vítima de um sistema que tritura e cospe. Continua após a publicidade Criar vínculos é o que viemos fazer aqui. Com pais, irmãos. Mães e irmãs. Amigos, amigas e amantes. Com nosso bairro e com nossa comunidade. Com os que vieram antes da gente. Passar pela vida tentando não sentir é uma violência que praticamos com nós mesmos. E muitos homens optam por ir ao trabalho mesmo mergulhados em dor justamente para não precisarem correr o risco de sentir demasiadamente. Ou de mostrar vulnerabilidade. O trabalho é o lugar onde homens se enxergam como homens. Trabalhar é importante e necessário, mas o trabalho em excesso não pode ser romantizado sob pena de ferirmos a nós mesmos de formas irreversíveis. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Milly Lacombe por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Parcial UOL aponta Ana Paula como a campeã do BBB 26 Paulinho treina bem no Palmeiras e tem protocolo definido para retorno Charleaux: Cena de soldado de Israel repercute na extrema direita nos EUA Dois presidentes da República diante da morte de grandes brasileiros Internado há quase 2 meses após acidente, Marquito inicia reabilitação oral