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Em depoimento por escrito ao Ministério Público de São Paulo no processo que investiga a contratação da empresa Bear Security Ltda ., que atuou como segurança particular de Osmar Stabile, Fabio Soares Souza, ex-diretor administrativo do Corinthians , relatou um ambiente devastador nos bastidores do clube.
Segundo Soares, Stabile governa o Parque São Jorge tomando decisões que outros diretores apenas executam: “ o Presidente decidia e os demais cumpriam ”.
Foi assim, por exemplo, que Osmar teria dado ordens para a contratação da empresa de segurança que é alvo de investigação no MP-SP.
Segundo a defesa, o ex-diretor “não participou da escolha da empresa, não a indicou, não negociou preço, efetivo ou escopo, não conhecia seus sócios e não sabe dizer como se deu a contratação original. Recebeu a situação pronta, como uma realidade já estabelecida pela Presidência, e com ela passou a conviver, como qualquer gestor que assume uma área em andamento”.
Em outro ponto, já detalhando o passo a passo para a assinatura de contrato com a empresa, Soares voltou a tratar a contratação como escolha personalista de Osmar Stabile.
“Fica claro, portanto, que a Bear Security nunca foi assunto exclusivo da Diretoria Administrativa. Passou pelo Jurídico, pelo Compliance , pelo Financeiro e pela Diretoria Administrativa e, em todas essas instâncias, tinha uma única origem e um único destino: A VONTADE DO PRESIDENTE OSMAR STABILE”.
Sobre a utilização da empresa para segurança particular de Osmar Stabile e familiares fora do ambiente do Parque São Jorge, Fabio Soares rebateu ter conhecimento sobre esse tipo de atuação, delimitando a contratação a uma “modalidade de segurança destinada à proteção do Presidente no exercício do cargo, prestada nas dependências do clube — jamais como autorização para que profissionais custeados pelo Corinthians atendessem a compromissos particulares do Presidente ou de seus familiares”.
“O peticionário [Fabio Soares] presenciava esses seguranças sempre com o Presidente dentro do clube. Não tinha conhecimento de acompanhamentos externos, em compromissos particulares ou fora das dependências do Corinthians, e deles só tomou ciência pela imprensa, quando os fatos vieram a público. Nem teria como saber: a Diretoria Administrativa não controla a agenda do Presidente, não acompanha seus deslocamentos e não gerencia as escalas da contratada”.
“Se houve desvio de finalidade no uso desses profissionais — o que cabe ao Ministério Público e ao Poder Judiciário apurar —, ele se deu em esfera que escapava inteiramente ao conhecimento e ao alcance do peticionário”.
Na defesa por escrito ao Ministério Público, Fábio Soares não se esquivou de criticar de forma direta a gestão de Osmar Stabile no caso.
“Quando as consequências chegaram, a Presidência não assumiu as posições que tomou. Ao contrário: na esfera interna do clube, a defesa do Presidente procurou atribuir à Diretoria Administrativa e a outras áreas a conferência e a aprovação de notas e a obtenção de licenças, gerando grande confusão interna e transferindo a terceiros o ônus de decisões que eram sua”.
A ESPN teve acesso à integra do depoimento e reproduz abaixo, na íntegra, uma manifestação pessoal do próprio Fabio Soares sobre o período em que trabalhou no clube e o caso sobre a Bear Security.
No desabafo, o ex-diretor relatou o que tratou como um “ambiente radioativo no clube”, citando que foi submetido a um “assassinato de reputação e crueldade com quem não faz parte do sistema e tenta fazer as coisas de forma diferente”.
Após a oitiva do ex-dirigente, o promotor Cassio Conserino reiterou o que já havia apresentado na denúncia: que Stabile agiu sozinho na condução do caso.
Confira, abaixo, na íntegra, a manifestação particular feita por Fabio Soares Souza e que faz parte da manifestação por escrito do ex-dirigente ao promotor Cassio Conserino:
“Peço licença a Vossa Excelência para falar, agora, não como investigado, mas como corinthiano. Meu avô tinha a carteirinha de associado número 513 do Sport Club Corinthians Paulista. Torcedor apaixonado, guardava-a com o orgulho de quem guarda uma relíquia de família. Meu pai herdou dele essa paixão; eu herdei de meu pai; meus filhos herdaram de mim. Cresci frequentando o Corinthians como quem frequenta a própria casa. Somos quatro gerações que nunca pediram nada ao clube além do direito de amá-lo”.
“Quando fui convidado a servir ao Corinthians, senti que estava honrando essas gerações. Entrei para trabalhar. Saí investigado. Entrei com o nome limpo que meu avô e meu pai me deixaram; hoje vejo esse nome arrastado em manchetes, ao lado de decisões que não tomei, de uma empresa que não escolhi e de um dinheiro que jamais vi. Não há palavra mais honesta para o que sinto do que esta: revolta”.
“Revolta de ver que, num clube com dezenas de diretorias, com Jurídico, Compliance e Financeiro, a conta tenha sido apresentada justamente a quem não decidia nada. Quando cheguei, a Bear já estava com o Presidente. Os seguranças andavam com ele. O contrato foi redigido pelo Jurídico e assinado por ele. Todos que trabalharam no Corinthians nesse período sabem como as coisas funcionavam: o Presidente decidia, e os demais cumpriam. Ainda assim, foi o meu nome que passou a circular como o de um possível cúmplice. Nunca recebi um centavo. Nunca tive vantagem alguma. Eu não ganhei nada com o Corinthians — eu só perdi”.
“Sofri um verdadeiro assassinato de reputação. E ele não atingiu só a mim. Atingiu minha esposa, que passou a ter de se explicar diante da própria família. Atingiu meus filhos, que passaram a ouvir de colegas perguntas que nenhum filho deveria ouvir sobre o próprio pai. Uma reputação construída ao longo de uma vida inteira foi destruída em poucos dias, para que outros pudessem continuar onde estão. Não há arquivamento que devolva por completo o que minha família perdeu — mas ele é o primeiro passo para que a verdade seja restabelecida”.
“Vi de perto como o poder funciona dentro do clube. Velhas lideranças que se revezam há décadas, e um sistema que não tolera quem tenta fazer diferente: quem chega para trabalhar, sem padrinho e sem projeto pessoal, é isolado e, quando convém, expurgado — de forma cruel e vil. Quem decide se esconde; quem nada decidiu é exposto. O clube que tanto amei foi tomado e está radioativo: contamina todos que dele se aproximam com boas intenções. Por isso, com uma dor que não sei medir, digo hoje aos meus filhos e a todos que me perguntam: não se aproximem do Corinthians — não da arquibancada, que é sagrada, mas do poder que o comanda”.
“E não sou o único. Há poucos dias, o Diretor de Tecnologia, Marcelo Munhoes — que, como eu, serviu ao clube com dedicação e sem jamais buscar vantagem —, foi afastado da noite para o dia, com os acessos cortados, e ouviu do Presidente que o motivo eram “questões políticas” e “pressões internas”. Disse ter saído “pela porta dos fundos”. Eu sei exatamente o que é isso. Somos dois homens que só quiseram o bem do Corinthians e que foram descartados sem o mínimo de respeito por uma Presidência confusa, irresponsável e incapaz de assumir as próprias decisões”.
“Quantos mais serão necessários para que se enxergue o que acontece dentro do clube? O Corinthians é maior do que qualquer gestão. Pertence a milhões de torcedores que nunca pediram nada além de honestidade de quem o dirige. E o Corinthians precisa, hoje, de um resgate. Precisa de alguém que não tenha medo do sistema; que não se curve às velhas lideranças nem às pressões de bastidor; alguém com coragem, com independência e com a missão de promover justiça, doa a quem doer. O Corinthians precisa de quem o salve de si mesmo”.
“Eu não peço favor. Peço justiça. Confio, Dr. Cassio, que a verdade — que nunca temi — será reconhecida, e que Vossa Excelência saberá distinguir quem tomou as decisões de quem apenas cumpria, com honestidade, a rotina do seu cargo. Devo isso ao meu avô, ao meu pai e aos meus filhos”.
Procurado pela ESPN , o Corinthians preferiu não se manifestar sobre o tema.
O Ministério Público de São Paulo (MPSP) ofereceu denúncia à Justiça contra Osmar Stabile, presidente do Corinthians, por crime de apropriação indébita continuada. Segundo o Promotor de Justiça Cássio Roberto Conserino, o dirigente se valeu de recursos financeiros da instituição para bancar despesas particulares de segurança privada.
Em manifestação à Justiça em resposta à investigação, conforme revelou a ESPN , a defesa de Stabile que os gastos com segurança particular decorrem de riscos reais, notórios e graves à integridade física do cartola e de seus familiares, oriundos do exercício do cargo.
Como a ESPN detalhou, o dirigente levou à Justiça uma lista de casos de ameaças feitas por torcedores e associados do clube, como a invasão da sala da presidência em maio de 2025, além de mensagens recebidas com armas de fogo após a decisão de não renovar o contrato com Memphis Depay, em agosto de 2026.
De acordo com a defesa, “a contratação dos serviços de segurança celebrado com a Bear Security Ltda. ocorreu no exercício da Presidência, em 9 de março de 2026, e tem por objeto a vigilância e a segurança pessoal privada do Presidente, com seis postos em regime de dezesseis horas diárias, ao valor mensal de R$ 65.000,00”.
Em réplica, em manifestação assinada pela Promotora de Justiça Nina Pereira Malheiros, o órgão reiterou o entendimento de que o dirigente se valeu de recursos financeiros da instituição para bancar despesas particulares de segurança privada.
“Os elementos colhidos indicam que o acusado, valendo-se das prerrogativas inerentes à Presidência do Sport Club Corinthians Paulista, teria autorizado o emprego reiterado de recursos da entidade para custear serviços de segurança de natureza aparentemente particular, inclusive em benefício de familiares”.
Segundo o MPSP, a empresa não possui autorização da Polícia Federal para prestar os serviços desta natureza, tendo o Corinthians como único cliente desde a fundação e emitindo notas fiscais sequenciais ao clube do Parque São Jorge.
Ainda de acordo com a denúncia, a qual a ESPN teve acesso, a Bear Security está registrada em nome da esposa de um dos policiais militares que prestavam serviços ao presidente antes de sua posse no cargo.