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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte O falso debate é aquele que abre espaço para a gramática do negacionismo Milly Lacombe Colunista do UOL 16/05/2026 11h58 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Juliano Cazarré divulgou fake news em programa da GloboNews Imagem: Reprodução/X e GloboNews O suposto debate que envolveu um misógino contra duas não misóginas e um não misógino na Globonews releva coisas importantes sobre métodos usados para fabricar consensos perigosos e naturalizar barbáries. Conversando com o professor Michel Gherman a respeito do que aconteceu no debate em questão, escutei dele que essa gramática do negacionismo utilizada por Cazarré precisa ser nomeada. Gherman tem razão e é a pessoa mais adequada, dado seu campo de pesquisa e currículo, para ver a tecnologia sendo colocada em jogo. O professor, que é mestre em Antropologia e doutor em História, trabalha no Departamento de Sociologia da UFRJ, onde coordena o laboratório Extremos: Religião, Política e Violência. Gherman é reconhecido como uma das maiores autoridades em estudos a respeito do nazismo no Brasil e tem diversas publicações sobre temas que envolvem holocausto, estudos judaicos, oriente médio, extrema direita, estudos de genocídio, violência política, nacionalismos e sionismo. Alertada por ele, tentei elaborar o assunto. Mais do que uma mentira, o que Cazarré fez foi provocar confusão. É como os negacionistas do clima agem há décadas: onde a ciência crava dados é preciso entrar com vozes que disputem esses dados e digam: não é bem assim. Como? Deturpando estatísticas, criando falsas premissas, buscando equivalências mentirosas. A ideia aqui não é necessariamente colocar essas falsidades em circulação, já que elas são facilmente desmentidas. A ideia é causar rebuliço, abrir espaço para dúvidas, confundir e tumultuar a fim de não deixar a verdade circular. É como a primeira onda negacionista - os negacionistas do Holocausto - tentou trabalhar. Letícia Casado Respostas podem afundar a campanha de Flávio Alexandre Borges PGR salva semana terrível para a direita Mariana Sanches Bolsonaro, Melania e os nichos de filmes de direita PVC Palmeiras tenta manter Flamengo distante Quando Cazarré mistura números e apresenta uma premissa mentirosa ele está fazendo uso de uma estratégia bastante eficaz. O dado absurdo por ele apresentado deixou as pessoas presentes em estado de estupefação e dentro desse ambiente fica difícil reagir. O exército estadunidense tem um nome para essa estratégia: shock and awe: choque e pavor. É o uso de uma força avassaladora a fim de paralisar a compreensão do adversário e destruir qualquer vontade de lutar. O objetivo de um negacionista não é convencer; é confundir. Chamar para o centro do debate uma pessoa que defenda abertamente a misoginia não deveria ser aceitável, mas é o que estamos vendo acontecer há algum tempo. Fascistas convocados a opinar como se a opinião de um fascista fosse legítima. Seria como chamar alguém para falar de estudos judaicos e confrontá-lo com um anti-semita. Ou alguém dos movimentos negros e confrontá-lo com um racista. Quem faz isso está apenas legitimando correntes de pensamento que são inaceitáveis. É a naturalização da barbárie vestida de "outro lado" mesmo que encenada dentro de um luxuoso estúdio com debatedores intelectualizados. Nesse caso, eu argumentaria, é ainda pior. Porque a barbárie ganha contornos democráticos e é chamada de "opinião". Podemos debater masculinidade. Devemos, aliás. Mas para isso não poderíamos ter machistas e misóginos no salão. O machismo e a misoginia não são uma opinião. Jamais serão. Assim como o racismo não é, o anti-semitismo não é, o anti-islamismo não é, a LGBTfobia não é. Fiquemos atentos aos falsos debates que nos serão propostos. O momento pede atenção absoluta. Escolham seus guias porque estamos descendo os círculos do inferno e seguiremos assim até as eleições. Dante escolheu o poeta Virgilio e foi bem sucedido na aventura. Quem você escolherá? Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Milly Lacombe por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Caso Vorcaro-Bolsonaro não é sobre filme, mas promiscuidade ou lesa-pátria Herdeira de milionário quer vender cartas de Pokémon estimadas em R$ 600 mi Militar socorrista morre em resgate de corpos de mergulhadores nas Maldivas Cotada para vice, Simone Marquetto (PP-SP) se encontra com Flávio Bolsonaro Menina atacada por onça passa por cirurgia reparadora e recebe vacinas