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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Fui parar dentro dos arquivos de Epstein e vi o horror de perto Milly Lacombe Colunista do UOL 08/02/2026 05h30 Deixe seu comentário Carregando player de áudio Ler resumo da notícia Jeffrey Epstein em 2004 Imagem: Rick Friedman/Corbis via Getty Images Demorei para ter coragem de entrar nos arquivos de Jeffrey Epstein, mas finalmente entrei. São três milhões de páginas, muitos arquivos duplicados, muitas mensagens inócuas e sem sentido, muitos nomes com tarja preta. Mas há documentos, fotos e vídeos absolutamente horripilantes que contam em detalhes a história de homens poderosos que se unem para abusar de corpos de crianças. Evitei fotos e vídeos na medida do possível e me concentrei em textos. Pesquisei nomes e palavras aleatórios e ao entrar a palavra "brasileira" no campo de busca achei o seguinte email endereçado a Jeffrey Epstein no dia 17 de janeiro de 2310 às 16h43min: Casagrande Entre Arias e Paquetá, eu prefiro o colombiano Juca Kfouri São Paulo vira, se livra de vexame e entra no G8 Milly Lacombe Tite está perdido Dora Kramer Samba-exaltação a Lula é nítida propaganda indevida "new brazilian just arrived. sexy and cute, = 9yo" Em tradução livre o texto parece dizer: "Nova brasileira acaba de chegar. Sexy e bonitinha. Aparenta nove anos". O sinal de igual (=) confunde a leitura embora pareça querer sugerir que a criança que acaba de chegar "se iguale" a uma de nove anos. Em muitas outras mensagens podemos ler que brasileiras estão chegando - sempre "cute and sexies". O nome da pessoa que enviou essa mensagem está protegido. O que os arquivos reúnem é um espetáculo de pavor e desesperança; lê-los é visitar o inferno. Continua após a publicidade A liberação faz parte de um jogo mental que pretende acalmar a opinião pública e confundir quem se dispõe a fuçar esse lamaçal abrigado no site do departamento de justiça dos Estados Unidos. Jeffrey Epstein era o líder de uma empresa que traficava crianças e adolescentes para servirem sexualmente a homens poderosos. As mensagens falam em estupro, tortura e morte e envolvem crianças e adolescentes; meninos e meninas. Os nomes dos pedófilos estão protegidos por uma tarja preta, mas os nomes das vítimas, que deveriam obrigatoriamente estar riscados, nem sempre estão. Fiquei quase quatro horas fuçando os arquivos e saí pior do que entrei. É um buraco sem luz. Quando busquei pelo nome de Noam Chomsky, já com meu coração palpitando, um dos primeiros emails que encontrei era de Lesley Groff, que atuava como uma espécie de secretária para Epstein, e endereçado a Valeria Chomsky, mulher de Noam Chomsky, em 21 de maio de 2015 "Good morning Valeria. Jeffrey is asking what you and Noam would like for lunch today! Burgers, steak, sushi, Italian? What sounds good? Anything you like. He wishes you to choose. Thank you, Lesley". Traduzindo: Continua após a publicidade "Bom dia, Valeria. Jeffrey quer saber o que você e Noam gostariam de comer no almoço de hoje! Hamburguer, sushi, carne, comida italiana? O que parece melhor? O que quisere. Ele [Epstein] gostaria que escolhessem. Obrigada, Lesley". Os Chomsky escolheram sushi. Em Abril de 2015, um email foi enviado a Noam Chomsky (nome do remetente riscado) com o seguinte texto: "Hello Mr. Chomsky...Jeffrey is asking if you would like to come to dinner one night next week in NY with Woody Allen...might you be available?" "Olá, sr. Chomsky.. Jeffrey [Epstein] quer saber se você gostaria de vir jantar semana que vem em NY com Woody Allen.. teria disponibilidade?" Quem respondeu foi Valeria Chomsky. Ela disse que eles adorariam, mas tinham acabado de voltar de viagem e estavam muito atarefados. Continua após a publicidade Outros muitos emails combinando jantares e encontros entre os Chomsky e Epstein podem ser encontrados. O tom é de intimidade e coloquialidade. Há ainda alguns que falam em pagamentos e envios de cheques. Há planilhas de entradas e saídas para o que parece ser a contabilidade para fins de imposto de renda de Noam Chomsky envolvendo Richard Kahn, contador que era de Epstein, (e talvez também de Chomsky?), não fica claro. Todas essas trocas aconteceram depois de 2008, ano em que Jeffrey Epstein foi condenado por exploração sexual e facilitação à prostituição de menores. Epstein ficou preso por 13 meses apenas, e ao sair seguiu executando seus crimes sexuais. Derrotada e arrasada, parei. Voltarei a fuçar quando me recuperar. Mas saber que um dos maiores intelectuais da esquerda mundial, um dos homens mais geniais vivos, manteve relações de intimidade com um canalha condenado por pedofilia e emaranhado com a extrema-direita e o fascismo é absolutamente devastador. Deveria bastar para derrubar as teorias sobre Epstein ser o organizador de uma espécie de projeto de dominação política da extrema-direita que usaria a pedofilia como caminho de chantagem contra poderosos. Os arquivos expõem mais o patriarcado do que o capitalismo, ainda que ambos muitas vezes andem de mãos dadas. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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