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Futebol Mohamed é o nome mais comum da Copa em país onde cresce violência antiárabe Guilherme Padin Do UOL, em São Paulo 05/06/2026 05h30 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Ídolo do Liverpool, Mohamed Salah é o grande destaque da seleção do Egito Imagem: Omar Zoheiry/picture alliance via Getty Images Mohamed é o nome mais comum da Copa do Mundo de 2026. A curiosidade é normal, já que esse é o Mundial da Fifa com o maior número de nações árabes da história. O irônico é que essa marcante presença árabe - e, portanto, muçulmana, já que a religião é majoritária entre essas populações - se dará em um país onde a islamofobia e o preconceito antiárabe têm peso histórico e crescem expressivamente há mais de duas décadas: os Estados Unidos, que receberá 75% das partidas, incluindo a final. Ao todo, segundo levantamento do UOL , serão 52 Mohameds e suas variações de grafia em campo, presentes em sua maioria nas oito seleções árabes: Egito, Iraque, Arábia Saudita, Jordânia, Marrocos, Argélia, Tunísia e Qatar. Ainda há representantes do Irã, atualmente em guerra com os EUA, na lista. Embora não sejam árabes, os iranianos são majoritariamente muçulmanos, como os oito países citados. "Desde o 11 de setembro , parte da opinião pública, da mídia e do aparato de segurança norte-americano passou a associar, muitas vezes de forma indevida, identidades muçulmanas, árabes ou do Oriente Médio a riscos de segurança. Esse enquadramento não desapareceu. Ele se reativa em momentos de crise, especialmente quando há guerra, terrorismo, conflito no Oriente Médio ou tensões envolvendo o Irã", afirma Alexandre Coelho, doutor em Relações Internacionais pela USP. Josias de Souza O milagre da multiplicação do voto evangélico José Fucs O fetiche da esquerda em definir 'extrema direita' Marco Antonio Sabino Ronaldo Caiado é um xerife desarmado Ricardo Kotscho Insistência com Messias é erro político de Lula Isso aumenta a sensibilidade em torno de delegações, torcedores, jornalistas e comunidades do mundo islâmico ou de países árabes, prossegue o professor: embora seja um evento esportivo, a Copa será atravessada por temas como segurança, controle de fronteiras, vistos, policiamento, atos políticos e proteção dos atletas. A contradição é real: a Copa apresentará uma diversidade muçulmana e árabe visível, em um momento no qual essa diversidade pode ser alvo de preconceito, vigilância ou instrumentalização política. A pergunta é se as instituições anfitriãs, a mídia e o público serão capazes de tratar esses jogadores como atletas e cidadãos globais, não como símbolos de guerra. Alexandre Coelho, professor e doutor em Relações Internacionais pela USP Preconceito remonta de décadas, e cresce desde 2001 O preconceito nos Estados Unidos, citado pelos professores, se apresenta nas estatísticas. Um estudo da Universidade de Berkeley, em 2021, ouviu muçulmanos residentes nos EUA e apontou que quase todos dizem que há islamofobia no país (97,8%). E, para quase dois terços (60,6%), trata-se de um problema muito grande. Do total de entrevistados, 67,5% afirmaram já ter vivenciado islamofobia em algum momento e, entre esses, 76% disseram ter passado por isso nos 12 meses anteriores à pesquisa. Além disso, 62,7% responderam que eles próprios, familiares, amigos ou membros de sua comunidade foram afetados por políticas que discriminam desproporcionalmente muçulmanos. Mais da metade (53,3%) disseram ter sido tratados injustamente por um policial devido à sua identidade religiosa. Há, por fim, um problema de subnotificação, segundo a pesquisa: 87,5% dos entrevistados que relataram ser vítimas de algum tipo de discriminação não denunciaram. Continua após a publicidade A professora e antropóloga Francirosy Campos, do Departamento de Psicologia da FFCLRP/USP, explica que o preconceito contra árabes e muçulmanos tem raízes anteriores ao 11 de setembro, "ligadas a estereótipos construídos ao longo de décadas de conflitos envolvendo o Oriente Médio", mas o atentado em 2001 marcou um forte agravamento da islamofobia no país. "Após os ataques, muitos passaram a associar injustamente a religião islâmica e as populações árabes ao terrorismo, resultando em aumento de discriminação, crimes de ódio e desconfiança social", explica a professora, que cita o recente ataque a uma mesquita em San Diego , que resultou em cinco mortes, e completa: "A islamofobia permanece um desafio relevante na sociedade norte-americana, mesmo em um contexto de crescente pluralidade cultural." Outro estudo, da Brigham Young University (BYU), também de 2021, apontou que, de 2006 a 2015, ataques terroristas cometidos por pessoas que se identificam como muçulmanas representarem apenas 12,5% de todos os eventos do tipo no país, mas receberam 357% mais atenção da mídia do que os cometidos por outros grupos. Apesar de os EUA serem uma sociedade marcada pela diversidade cultural, organizações apontam que ainda há casos de discriminação e hostilidade contra essas comunidades, especialmente em contextos de tensão internacional. Embora os muçulmanos representem cerca de 1% da população dos EUA, pesquisas mostram que estão entre os grupos que mais relatam episódios de discriminação religiosa Professora e antropóloga Francirosy Campos O nome mais frequente na Copa Os nomes mais comuns entre os jogadores da Copa Imagem: UOL O levantamento feito pelo UOL considera todas as variações dos nomes listados. No caso de Mohamed, nome de origem árabe que significa "louvado", entram na conta também Mohammed, Mohammad, Mohanad e Muhammed, totalizando 52 atletas. Em segundo lugar estão Ahmed e Nicolas - e suas respectivas variações -, com 21 jogadores para ambos os casos. Michael (20), Ali (19), Andrés (18), David (18), José (17), Alexander (16) e Ibrahim (14) completam a lista. Continua após a publicidade Alexandre Coelho ressalta a importância de se separar categorias comumente confundidas nesse debate: muçulmano, árabe e iraniano. "Nem todo muçulmano é árabe; nem todo árabe é muçulmano; e o Irã, embora seja um país majoritariamente muçulmano, não é um país árabe", afirma. O dado de que Mohamed será o nome mais comum é simbolicamente muito forte, mas precisa ser interpretado com cuidado, comenta Coelho. Não se trata apenas de uma curiosidade estatística, diz ele, mas a expressão de uma transformação mais ampla do futebol e da própria sociedade internacional: "Deve ser um lembrete de que o futebol é mais plural do que os estereótipos permitem enxergar." O risco não está nos jogadores chamados Mohamad, mas na possibilidade de setores políticos, midiáticos ou de segurança converterem identidades culturais em categorias de suspeição. No contexto de guerra, cresce a chance de discursos que confundem nacionalidade, religião, origem étnica e ameaça, o que pode alimentar discriminação contra torcedores árabes, muçulmanos, iranianos, palestinos ou mesmo pessoas apenas percebidas como pertencentes a esses grupos. Alexandre Coelho Copa com caráter diplomático: oportunidade para ser exemplo Os especialistas ouvidos pelo UOL veem na Copa de 2026 a chance para a realização de um megaevento sem conflitos ou grandes ocorrências envolvendo preconceito entre povos. "A Copa representa uma oportunidade singular para promover o diálogo intercultural, o respeito à diversidade e a aproximação entre povos. O esporte, nesse sentido, pode desempenhar um papel fundamental como ferramenta de convivência e construção de pontes em um mundo cada vez mais polarizado", pondera Ricardo Ricci Uvinha, professor titular da USP e especialista em turismo esportivo. Continua após a publicidade A presença de países diretamente envolvidos em guerra, segundo Alexandre Coelho, confere à Copa um peso diplomático, tornando a competição uma "vitrine global". Em relação ao caráter diplomático do poder executivo dos Estados Unidos, o que se viu recentemente é a abertura do presidente Donald Trump à participação iraniana na Copa, ao menos nos posicionamentos públicos . Na prática, porém, o processo de permissão à entrada dos atletas do Irã não tem avançado rapidamente: eles obtiveram os vistos na quarta-feira (3), mas ainda aguardam autorização para irem aos EUA . "Os EUA precisarão demonstrar capacidade de organizar um megaevento seguro sem reforçar práticas discriminatórias. Para a Fifa, o desafio será preservar a ideia de universalidade do futebol em um cenário de guerra, polarização e suspeita", afirma Coelho. A islamofobia continua sendo um desafio na sociedade norte-americana. Nesse contexto, a presença expressiva de atletas e torcedores muçulmanos durante a Copa do Mundo reforça a importância de promover um ambiente de respeito à diversidade cultural e religiosa. Francirosy Campos, antropóloga Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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