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Opinião Esporte Por que Rússia foi punida por guerra e EUA não serão? Por falta de critério Andrei Kampff Colunista do UOL 10/03/2026 07h37 Deixe seu comentário A recente escalada militar envolvendo os Estados Unidos e o Irã abriu uma nova crise geopolítica que também atinge o futebol internacional. A pergunta que já circula pelo mundo é incômoda, mas inevitável: por que a Rússia foi punida pela guerra na Ucrânia enquanto outros países envolvidos em conflitos armados seguem competindo normalmente? A questão não é apenas política. Ela expõe os limites jurídicos da chamada neutralidade esportiva e a ausência de critérios claros para decisões tão graves. O debate ganhou novo fôlego após declarações recentes do presidente da FIFA, Gianni Infantino , afirmando que "nunca se deve proibir um país de jogar futebol". A frase soa conciliadora, mas confronta diretamente a decisão tomada pela própria entidade em 2022, quando a Rússia foi excluída de competições internacionais após invadir a Ucrânia. O episódio revelou como o esporte reage a guerras — e como essas reações nem sempre seguem parâmetros consistentes. A punição à Rússia e a reação internacional José Roberto de Toledo Eleições 2026: Lula larga pior do que em 2022 Mariana Barbosa Caso Master pode provocar mudanças na CVM Alicia Klein O que liga Neymar, a briga em MG e as demissões Carlos Juliano Barros Flávio vai baixar valor do salário e da aposentadoria? Quando a Rússia iniciou a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, o esporte internacional reagiu de forma rápida e coordenada. FIFA e UEFA suspenderam clubes e seleções russas de todas as competições , enquanto o Comitê Olímpico Internacional recomendou que federações internacionais excluíssem atletas do país de eventos esportivos globais. A decisão foi contestada pela Federação Russa de Futebol no Tribunal Arbitral do Esporte (CAS) . A corte, no entanto, validou as sanções. Em decisão emergencial, afirmou que a exclusão era "justificada e necessária diante da reação generalizada e sem precedentes da comunidade internacional" (CAS 2022/A/8708). Em outras palavras, o tribunal reconheceu que o esporte respondeu não apenas a regras internas, mas ao contexto político e diplomático global. O caso colocou em evidência uma tensão clássica do direito desportivo: a autonomia das entidades esportivas frente ao direito internacional. Como observa Wladimyr Camargos , o respeito aos direitos humanos não é um elemento externo ao esporte, mas um limite interno da própria autonomia esportiva. Se o movimento esportivo pretende gozar de autonomia institucional, precisa também respeitar os princípios universais que estruturam a ordem internacional. Precedentes históricos: da Iugoslávia ao apartheid A exclusão da Rússia não foi o primeiro caso em que guerras ou violações graves de direitos humanos levaram a sanções esportivas. Um dos precedentes mais claros ocorreu nos anos 1990, durante os conflitos que acompanharam a dissolução da Iugoslávia. Em 1992, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 757 , impondo sanções amplas à então República Federal da Iugoslávia (Sérvia e Montenegro), incluindo a exclusão de equipes e atletas de competições esportivas internacionais. Nesse caso, o esporte não precisou improvisar fundamentos. As federações esportivas apenas aplicaram uma decisão vinculante do sistema internacional de segurança coletiva. A seleção iugoslava, por exemplo, foi retirada da Eurocopa de 1992 poucos dias antes do início do torneio. Continua após a publicidade Outro precedente emblemático ocorreu com o isolamento esportivo da África do Sul durante o regime do apartheid . Durante décadas, federações internacionais suspenderam a participação do país em competições como forma de pressionar o regime segregacionista. Esses episódios demonstram que o esporte já foi utilizado como instrumento político na defesa de valores universais — ainda que frequentemente sob o discurso da neutralidade. Gaza, pressões internacionais e o debate sobre Israel Mais recentemente, o movimento esportivo passou a enfrentar pressões para adotar medidas semelhantes diante da guerra em Gaza. Organizações da sociedade civil, atletas e coletivos ligados aos direitos humanos passaram a questionar por que Israel não foi alvo de sanções comparáveis às impostas à Rússia . O debate ganhou força em estudos recentes sobre governança esportiva e geopolítica. Pesquisadores apontam que o problema não está apenas na decisão em si, mas na ausência de critérios claros que orientem essas decisões. Em artigo publicado pelo Instituto Asser , o pesquisador Nick McGeehan sintetiza essa crítica de forma contundente: " sem regras universais, as decisões de FIFA e COI serão sempre vistas como arbitrárias, ditadas não por princípios, mas pelas vontades do Norte Global " (MCGEEHAN, 2024). A observação revela um risco institucional relevante. Sem parâmetros objetivos, decisões que deveriam ser jurídicas passam a ser interpretadas como meramente políticas, fragilizando a legitimidade das próprias entidades esportivas. Continua após a publicidade A ausência de critérios e a neutralidade seletiva O problema central talvez não seja a existência de sanções esportivas, mas a falta de critérios universais para aplicá-las . O esporte afirma ser neutro, mas essa neutralidade frequentemente se revela seletiva. Os próprios documentos normativos do esporte apontam para outra direção. A Carta Olímpica estabelece que o objetivo do Olimpismo é promover uma sociedade pacífica baseada na dignidade humana. Já o Estatuto da FIFA , reformado após o escândalo do FifaGate, afirma em seu artigo 3º que a entidade está comprometida com o respeito aos direitos humanos internacionalmente reconhecidos. Sem critérios claros, porém, essas normas permanecem mais próximas de declarações de princípio do que de instrumentos efetivos de governança. Como lembrava Norberto Bobbio , a política se organiza em torno da disputa pelo poder e pela capacidade de influenciar decisões. O esporte, apesar de seu discurso universalista, não escapa a essa lógica. Por isso que reforço aqui o venho escrevendo e debatendo em seminários: é importante o esporte criar comitês de direitos humanos independentes, que usem de critérios mais objetivos para encontrar soluções mais equilibradas entre si. Usar decisões de um órgão da ONU como parâmetro pode ser um caminho interessante. O desafio de transformar princípios em critérios Continua após a publicidade A guerra na Ucrânia, o conflito em Gaza e as recentes tensões envolvendo o Irã mostram que o esporte global entrou definitivamente no terreno das grandes disputas geopolíticas. A questão não é se o esporte deve reagir a guerras, mas como fazê-lo de forma coerente e juridicamente defensável . Uma possível saída seria vincular decisões desse tipo a parâmetros mais objetivos do direito internacional, como resoluções do Conselho de Segurança da ONU ou avaliações independentes sobre violações graves de direitos humanos. Isso reduziria a percepção de arbitrariedade e daria maior legitimidade às decisões das entidades esportivas. Enquanto esses critérios não existirem, o esporte continuará navegando entre princípios universais e pressões políticas. E a pergunta que hoje ecoa nos bastidores do futebol mundial seguirá sem resposta clara: por que algumas guerras geram sanções esportivas e outras não? Nos siga nas redes sociais: @leiemcampo Este conteúdo tem o patrocínio do Rei do Pitaco. Seja um rei, seja o Rei do Pitaco. Acesse: www.reidopitaco.com.br . Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Lei em Campo por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Nova parcial da enquete BBB UOL: quem deve ser eliminado hoje no paredão 'Tenho que ter saco para aturar vocês. Difícil agradar', desabafa Neymar Chico Barney: Milena é a maior participante de todos os tempos do BBB Secretário da SSP-MA é denunciado por constranger delegada: 'Pediu foto' Comissão da Argentina dá pela 1ª vez refúgio político a foragido do 8/1