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Opinião Esporte Justica Desportiva: a crise que o caso Bruno Henrique escancarou Andrei Kampff Colunista do UOL 11/11/2025 10h09 Deixe seu comentário Carregando player de áudio Ler resumo da notícia O julgamento de Bruno Henrique expôs algo mais profundo que a conduta de um atleta: ele coloca em xeque a própria credibilidade da justiça desportiva brasileira, protegida constitucionalmente e pilar da integridade do esporte. f Se o STJD é o guardião da integridade do jogo, o que acontece quando o próprio guardião passa a ser questionado? Em setembro, escrevi que "a integridade esportiva não se protege pela metade ". O caso Bruno Henrique - denunciado por manipulação de resultados, absolvido dessa acusação e punido apenas por conduta antidesportiva - reacendeu uma pergunta incômoda: até onde o futebol brasileiro está disposto a proteger a integridade? Reinaldo Azevedo Derrite e a 'versão 2.0' da PEC da Bandidagem Wálter Maierovitch Bolsonaro segue rota contrária à de Sarkozy Ana Carolina Amaral ONG alemã usa chocolate para pedir verba ao TFFF Jamil Chade Governo prevê sanção se igualar facção a terrorismo A decisão soou contraditória. O tribunal reconheceu conduta irregular, mas afastou a manipulação. E, ao aplicar pena de 12 jogos, transmitiu a mensagem de que a integridade pode ser relativizada. Mas o esporte não sobrevive à dúvida. Ele depende da confiança do torcedor - confiança que se constrói com transparência e coerência. O precedente pode ser perigoso. A Lei Geral do Esporte reforça o combate a manipulação: atletas não podem ter qualquer relação direta ou indireta com apostas esportivas. O Código de Ética da FIFA vai na mesma linha. Seu artigo 26 é categórico: "As pessoas sujeitas a este código ficam proibidas de participar, direta ou indiretamente, em apostas, jogos de azar, loterias e atividades ou negócios similares relacionados com partidas ou competições de futebol" Mais do que punir, o sistema deve prevenir. Deve criar barreiras contra qualquer associação que possa gerar suspeita sobre a lisura do jogo. No Brasil, porém, as decisões do STJD oscilam. Claro que cada caso tem sua peculiaridade - e já escrevi que o de Bruno Henrique é diferente daqueles em que atletas receberam dinheiro para manipular resultado. Mas definir critérios tendo a proteção da integridade como inegociável é urgente. O Paulo Vinícius Coelho inclusive trouxe na coluna dele que o caso faz a Justiça Desportiva viver "a maior crise de credibilidade em 26 anos". Continua após a publicidade O problema não está apenas em um julgamento, mas na sensação de seletividade — de que a balança pende conforme o tamanho do clube ou o peso da camisa. Há ainda outro ponto essencial: a celeridade . A Justiça Desportiva foi concebida para ser rápida, célere, contemporânea ao próprio jogo. Esse é um princípio estruturante do sistema e precisa ser respeitado - sob pena de se questionar a própria integridade da justiça que deveria proteger o esporte. Não faz sentido que recursos se arrastem por meses, atravessando competições inteiras. Quando a decisão chega depois do campeonato, a sanção já perdeu o efeito e a credibilidade já foi corroída. Mas há caminhos que o futebol precisa encarar com coragem. O primeiro é buscar independência real da CBF . O atual modelo de financiamento, em que a entidade jurisdicionada banca a estrutura que a julga, é um claro conflito de interesses . Por que os clubes, que também são partes no sistema, não participam do custeio e da governança da Justiça Desportiva? O segundo é a profissionalização dos auditores . O serviço voluntário pode ter sido nobre no passado, mas não cabe mais em um esporte que movimenta cifras milionárias e exige decisões técnicas, rápidas e responsáveis. Integridade também se faz com estrutura - e isso inclui remunerar quem julga. A Justiça Desportiva precisa ter como pilar a coerência e a previsibilidade. Decisões proporcionais, rápidas e uniformes são pilares da segurança jurídica e da integridade. Sem elas, o tribunal deixa de ser referência e se torna parte do problema. Continua após a publicidade A integridade é, para o esporte, o que a Constituição é para o Estado de Direito: o fio que sustenta a confiança. Como escrevi em outra coluna, "o movimento jurídico do esporte só será forte quando compreender que suas regras têm sentido social, ético e humano." Não basta aplicar regulamentos. É preciso fazê-lo com princípios, coerência e transparência. O risco não é apenas a manipulação, mas a percepção de complacência . E essa percepção é devastadora. \ Veja, esse texto ganhou o protagonismo de Bruno Henrique, mas é anterior a ele. O caso ganhou repercussão e ele deu nome a um questionamento que a justica desportiva precisa enfrentar faz tempo. O caso Bruno Henrique, agora sob os holofotes do país, é mais que um julgamento individual e se transformou em um teste institucional, até pela falta de celeridade que só catalisou atenção e questionamentos. A Justiça Desportiva precisa mostrar coerência, proteger seus princípios e se fortalecer diante de um caso que tem a atenção de todos. Porque, quando a integridade é posta à prova, é o próprio sistema que está sendo julgado. Nos siga nas redes sociais: @leiemcampo Continua após a publicidade Este conteúdo tem o patrocínio do Rei do Pitaco. Seja um rei, seja o Rei do Pitaco. Acesse: www.reidopitaco.com.br . Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Lei em Campo por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Com turnê de 50 anos de carreira, Djavan quer decifrar 'código djavânico' Brasileira morre após agressão de homem sem teto na Argentina, diz família Ancelotti dá conselho a Endrick e coloca atacante na briga por vaga na Copa Gangue da pedrada usa lança de portão contra película antivandalismo Silvânia Aquino anuncia saída da banda Calcinha Preta