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Só para assinantes Assine UOL Opinião Neymar e o espírito do tempo Juca Kfouri Colunista do UOL 19/05/2026 10h26 Deixe seu comentário Resumo Ouvir na voz do colunista 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× POR CHICO MACEDO* Ano da Fralda Geriátrica Depend. Em 1996, o escritor norte-americano David Foster Wallace (1962-2008) criou em seu livro "Graça Infinita" um futuro em que a contagem dos anos foi vendida à publicidade das grandes corporações, uma espécie de naming rights do calendário. O romance se passa na Organização das Nações da América do Norte (ONAN), que substituiu o que antes era o Canadá, os Estados Unidos e o México. Julio Gomes Neymar não aceitará ficar no banco 'numa boa' Wálter Maierovitch Flávio se equilibra para não cair em crimes Marco Antonio Sabino Vorcaro vale bem mais que R$ 40 bilhões Carla Araújo Pré-campanha estuda agendas de Janja sem Lula A Fifa gostou da ideia da ONAN. Trinta anos depois da publicação do calhamaço de mais de mil páginas de Foster Wallace, ligo a TV pontualmente às 17 horas para acompanhar a coletiva de convocação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo do Canadá, Estados Unidos e México. O evento não foi na sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ou em algum espaço de conferência de hotel, mas no Museu do Amanhã. O local protagoniza o projeto de revitalização da região portuária da cidade do Rio de Janeiro, o Porto Maravilha. Curiosamente, o Museu do Amanhã tem uma multinacional produtora de combustível fóssil, aquele, do ontem, como uma das suas principais mantenedoras. Em vez de restrito à imprensa brasileira e internacional, o local contou com público superior a mil pessoas, entre jornalistas, convidados, familiares de jogadores, celebridades, parças. O técnico da Seleção, Carlo Ancelotti, chegou à festa num carro especial para o evento, fabricado por uma companhia alemã ligada há alguns momentos marcantes do século XX tanto na Europa quanto no Brasil. Debaixo do braço, o treinador trazia uma pastinha com o nome dos 26 convocados. Daí para frente, a distopia ganha velocidade. Jornalista virou mestre de cerimônia e ator. Tem início encenação teatral para deixar todo mundo no clima de Copa. O drama prepara o número musical. Do show, o jornalista, mestre de cerimônia e ator chama ao palco o presidente da CBF, que não sabemos o nome, assim como o de grande parte dos jogadores da pré-lista do treinador italiano. O tempo passa. A leitura de 26 nomes de forma solene não duraria um minuto, mas já nos aproximamos das 18h e nada da lista. Enquanto isso, a pastinha com os convocados já dorme no colo do nonno . Novo número musical. Dilsinho é chamado ao palco para cantar a música que vai embalar a nossa Seleção na Copa. Não sabemos se a apresentação esteve no mesmo nível das demais, pois a transmissão foi interrompida para dar lugar ao momento mais importante daquele fim de tarde: o intervalo comercial. Uma TV a cabo que agora se vende como agregadora de streamings , num presente em que ninguém sabe como faz para assistir ao jogo da próxima rodada, além de frango ultra processado, site de apostas e por aí vai. O filósofo francês Edgar Morin trabalhou em suas reflexões estéticas o conceito de Zeitgeist (espírito do tempo). O primeiro volume, Cultura de Massas no Século XX: O Espírito do Tempo - Neurose , foi publicado em 1962, ano em que Mané Garrincha, Amarildo e companhia nos trouxeram do Chile o bicampeonato mundial. A obra de Morin tornou-se um clássico dos estudos de mídia e indústria cultural. Nele, o francês tratou do processo de transformação da cultura em mercadoria. Mas são quase 18h. Morin jogou onde? É hora de voltar do intervalo comercial para a leitura anticlimática do adormecido papel na pastinha de Carlo. A claque estava pronta para a convocação de Neymar Jr., o filho de seu pai. Parças em êxtase. Está dentro, contra tudo e contra todos. Celebridades-influenciadores puxam o "olê, olê, olá, Neymar, Neymar". Foco da câmera busca um dos rostos mais gastos do mercado publicitário brasileiro. O apresentador-garoto propaganda comemora um golaço invisível. Quase fim da festa. Mais propagandas já engatilhadas para surfar naquela convocação surpresa. Continua após a publicidade Fim da festa. O Museu do Amanhã foi picadeiro da convocação de um jogador do ontem, mas que é "camisa 10 e faixa" do mercado publicitário do hoje. Só não curtiu o espetáculo uma meia dúzia de ranzinzas ultrapassados que ligaram a TV às 17h por conta de bola: eu e mais cinco imparciáveis. Uma pretensa redação sobre a cerimônia da CBF que tivesse a alegria e a ousadia de tratar de futebol renderia nota zero com louvor no Enem. Caso clássico de fuga ao tema. Neymar Jr. na Copa da ONAN nada tem a ver com futebol. O menino sintetiza este nosso futuro-presente do Ano da Fralda Geriátrica Depend. É o espírito do tempo. *Chico Macedo é escritor. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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