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Opinião Esporte Culpar a vítima é erro moral e jurídico, no carnaval, no enterro e no campo Andrei Kampff Colunista do UOL 19/02/2026 08h08 Deixe seu comentário Carregando player de áudio Ler resumo da notícia A tese de que a vítima provoca a agressão precisa ser refutada com veemência. Não por ser apenas equivocada, mas por ser eticamente condenável e juridicamente insustentável. Mas é o que se vê em muitos casos de violência. Na agressão sexual, se insinua que a roupa da mulher "provocou". No crime contra crianças, tenta-se justificar a barbárie dizendo que "a mãe traiu". No racismo, se diz publicamente que o jogador "exagerou na comemoração". A lógica é a mesma: desloca-se a culpa do agressor para o comportamento da vítima. (advogado adora esse caminho) Sakamoto 'Defesa' da família mobiliza; soltar Bolsonaro, não Milly Lacombe Marta, a mulher que estendeu o horizonte Sílvio Crespo É o fim do CDB como um investimento seguro? Gustavo Miller Como Bad Bunny fez o Brasil se reconhecer latino O desvio de foco Após mais um episódio envolvendo Vinícius Júnior, o debate rapidamente saiu do eixo central - a denúncia de ofensa racial - e passou a examinar sua reação. José Mourinho foi direto e disse que a comemoração teria inflamado o ambiente. O Telegraph classificou a leitura como "beyond parody" e "impossible to take seriously". A crítica é precisa: quando a agressão deixa de ser o centro e a reação passa a ocupar o debate, há uma inversão moral e jurídica. Em casos de racismo, a palavra central é da vítima. É ela quem diz o que ouviu. É ela quem denuncia. Questionar sua reação antes de enfrentar a agressão é repetir o padrão histórico de silenciamento. O esporte não está acima do Direito Há quem trate o futebol como território autônomo, onde a emoção explicaria excessos. Mas o esporte não está fora do Direito. Continua após a publicidade Ele é regulado por normas próprias, sim, mas submetido a princípios maiores. E no centro desses princípios estão os direitos humanos fundamentais. Dignidade, igualdade e não discriminação não são concessões do esporte. São pilares da ordem jurídica contemporânea. Quando o sistema esportivo relativiza esses valores em nome do espetáculo, não está apenas falhando moralmente — está se afastando do próprio ordenamento que o legitima. O compromisso normativo assumido A Carta Olímpica estabelece como princípio fundamental a prática esportiva sem discriminação de qualquer espécie, com respeito à dignidade humana.O Estatuto da FIFA afirma expressamente o compromisso com o respeito e a promoção dos direitos humanos internacionalmente reconhecidos. Não se trata de retórica institucional. Ao inserir esses compromissos em seus textos constitutivos, o esporte se auto-obrigou. Assumiu parâmetro jurídico claro. E parâmetro jurídico não é opcional, é exigível. Sanção simbólica ou consequência real? Continua após a publicidade Wayne Rooney foi direto ao afirmar que "está na hora de clubes começarem a perder pontos" em casos de racismo. A fala é forte porque toca no coração do sistema competitivo. Multas isoladas e campanhas educativas são importantes, mas insuficientes se o custo esportivo continuar baixo. Enquanto a discriminação não gerar consequência concreta na competição, o discurso seguirá mais forte que a prática. O Lei em Campo escreveu aqui que Benfica e jogador argentino podem receber punição pesada. A questão é a prova, mas atletas serão ouvidos. A preessão popular, com personalidades do esporte, coletivos de direitos humanos e sociedade civil exigindo uma resposta do esporte pode ajudar. A história recente mostra que mudanças só ocorrem quando o sistema sente impacto real. O esporte raramente se move por espontaneidade; move-se por pressão. O papel transformador Vinícius Júnior não é apenas alvo recorrente de ataques racistas na Europa. Ele se tornou símbolo de enfrentamento. Continua após a publicidade Ao denunciar, pressionar e não se calar, ajudou a tensionar instituições, provocar investigações e abrir caminho para decisões inéditas no futebol espanhol. O esporte, pressionado por dentro, foi obrigado a se mover. Inclusive conto essa história no livro 2o Histórias que Mudaram o Esporte. E é aqui que está o ponto central: o esporte não pode escolher quando aplicar direitos humanos. Não pode relativizar a dignidade conforme o contexto do jogo. Racismo não é reação. É agressão. E o Direito - e o esporte - tem um pilar inegociável: a proteção da dignidade humana. Sem ela, não há jogo. Há apenas violência travestida de competição. Nos siga nas redes sociais: @leiemcampo Continua após a publicidade Este conteúdo tem o patrocínio do Rei do Pitaco. Seja um rei, seja o Rei do Pitaco. Acesse: www.reidopitaco.com.br . Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Lei em Campo por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Bolsonaro define Carlos e Carol de Toni em SC e dificulta aliança com PP Tartarugas fêmeas saltam de penhasco para escapar de machos agressivos Corrida de rua: 6 táticas para você correr 5 km em menos de 30 minutos Homem que arrastou ex em MG repete roteiro de brutalidade de caso Tainara São Paulo não vai negociar Alisson, diz Rui Costa