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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Tão perto, tão longe: Fifa expulsa dos estádios quem mais sonhou com a Copa Alicia Klein Colunista do UOL 12/05/2026 11h47 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Donald Trump recebe prêmio da paz da Fifa durante sorteio da Copa do Mundo de 2026 Imagem: JIM WATSON/AFP Por Anna Olimpia de Moura Leite (diretora da LCA Consultoria Econômica e doutoranda na The New School, em Nova York) e Sean Jacobs (professor de relações internacionais na The New School) Ao contrário de edições anteriores, a Copa do Mundo de 2026 será disputada no quintal de milhões de brasileiros que vivem nos Estados Unidos e de outros tantos milhões de imigrantes oriundos de países que respiram futebol. Para os brasileiros imigrantes, a ironia é amarga: nunca a Copa esteve tão perto e nunca tão inacessível. Desde que a Fifa abriu a venda de ingressos, é comum lermos nos grupos de WhatsApp mensagens de amigos imigrantes reclamando da dificuldade de conseguir um único ingresso. Os comentários são os mesmos: horas perdidas na fila virtual e nenhum ingresso garantido na venda direta pela Fifa. Milly Lacombe No lugar de Ancelotti, eu levaria Neymar Josias de Souza Eduardo Bolsonaro já enxerga o patíbulo Sakamoto Beber detergente expõe crise em país polarizado Mônica Bergamo Festa de posse de Nunes Marques obtém R$ 640 mil Quem fica de fora e recorre ao mercado de revenda leva um susto ainda maior. O ingresso mais barato disponível para a final já parte de US$4 mil (R$ 20 mil) na plataforma oficial de revenda da Fifa — sete vezes o preço do ingresso mais barato da final de 2022, no Qatar, e muito acima dos US$100 (R$ 500) que eram o piso da entrada para a final da Eurocopa 2024. Até o preço médio projetado pela própria Fifa para a final, de US$1,4 mil (R$ 7 mil), já foi superado. Torcedores europeus parecem compartilhar o mesmo sentimento. A maior rede de torcedores da Europa, a Football Supporters Europe, se uniu ao grupo de defesa do consumidor, Euroconsumers, para apresentar uma queixa formal à Comissão Europeia contra a Fifa, alegando abuso de posição dominante por meio de preços abusivos e regras de comercialização pouco transparentes. Em Copas anteriores, houve um esforço para não deixar o torcedor local de fora. Na África do Sul, em 2010, cerca de 15% dos ingressos eram da chamada "Categoria 4" — reservada para residentes do país-sede, com preços a partir de US$20 (R$ 150 em valores de hoje). No Brasil, em 2014, foram 400 mil ingressos a partir de US$30 (R$ 210 em valores de hoje), com descontos de 50% para estudantes, idosos e beneficiários de programas sociais. No Qatar, a Fifa abandonou essa categorização, mas ainda utilizou preços diferenciados para residentes. Não que fosse fácil ir à Copa em outras edições. A elitização dos estádios e o afastamento de muitos torcedores foram críticas constantes na Copa de 2014, quando muitos brasileiros que acompanham o futebol ao longo do ano se viram fora dos jogos. A situação de 2026, porém, é de outra ordem. Pela primeira vez na história da Copa do Mundo, a Fifa introduziu a precificação dinâmica (ou variável). Sob este modelo, os preços dos ingressos são determinados pela oferta e demanda em tempo real, um mecanismo já familiar em companhias aéreas, hotéis e aplicativos de transporte. Na Copa de 2026, funciona assim: após cada rodada de vendas, a Fifa analisa a demanda e define um novo preço mínimo, mais alto, para a rodada seguinte. É o sonho de um economista: a precificação dinâmica é eficiente porque aproxima o preço cobrado do ponto em que a demanda encontra a oferta. Porém, duas questões merecem atenção. A primeira é que a Fifa não é apenas a única vendedora, mas também quem controla a oferta por rodada. Quando um único ator define tanto a oferta quanto o preço, a precificação dinâmica deixa de ser um mecanismo de equilíbrio. Continua após a publicidade A escassez — real ou percebida — altera o comportamento do torcedor. Alguém disposto a pagar US$200 (R$ 1 mil) em um jogo pode alterar sua disposição a pagar para US$600 (R$ 3 mil) ou até US$1 mil (R$ 5 mil) quando os ingressos parecem estar esgotando. A segunda questão é o mercado de revenda. A própria plataforma de revenda da Fifa cobra taxas de 15% tanto de compradores quanto de vendedores, o que significa que a entidade lucra com cada transação secundária. É importante lembrar, porém, que a Fifa entrou em um mercado que já funcionava assim. É um modelo amplamente conhecido por suas falhas. Como Eric Budish e Alan Krueger detalham, o modelo de eventos nos EUA baseia-se em manter preços nominais 'baixos' para preservar a imagem do artista ou time, enquanto a escassez resultante empurra o valor real para o mercado secundário. Cambistas e plataformas de revenda capturam o excedente. O resultado é um sistema de incentivos perverso: para quem gerencia as vendas, a existência de um mercado de revenda inflacionado é extremamente lucrativa. Várias soluções poderiam ser testadas. O economista Budish sugere tornar os ingressos intransferíveis, como passagens aéreas, para enfraquecer o mercado de revenda. Outra opção é reservar um lote substancial de ingressos, com proibição de revenda, a preços genuinamente acessíveis. O jornalista Alex Mayyasi propõe um modelo mais amplo que combina sorteios, recompensas para torcedores leais, pacotes VIP e ingressos com desconto para apoiadores que contribuem com tempo para o futebol juvenil ou para clubes femininos sub-financiados. Para que qualquer dessas soluções saia do papel, é preciso pressão política. Quem poderia ter pressionado a Fifa para baixar os preços? As associações de futebol não são um ponto de pressão realista, pois acabaram de reeleger o presidente Gianni Infantino. O caminho mais promissor costuma ser as autoridades públicas dos países anfitriões. Donald Trump, que demonstrou pouca preocupação com ingressos caros anteriormente, mas permanece atento às pesquisas eleitorais, disse a um jornal de direita esta semana que os ingressos da Copa do Mundo estão caros demais. Esta declaração, agora que a maioria dos ingressos já foi vendida, parece ineficaz. Mas seus pronunciamentos ainda moldam o debate político, especialmente na direita. Houve também a carta à Fifa, em maio, de dois congressistas democratas. Em março, quase setenta congressistas estadunidenses enviaram uma demanda formal à Fifa, criticando a precificação dinâmica, a escassez artificial e mapas de assentos enganosos como padrões de práticas potencialmente abusivas. Isso pode ter tido algum efeito à medida que novas rodadas de vendas ocorreram nos meses subsequentes. Continua após a publicidade O político mais popular nos EUA no momento é o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani. Ao contrário da maioria dos políticos locais, Mamdani é um verdadeiro fã de futebol. A Copa de 2002, vencida pelo Brasil, foi a primeira de que ele se lembra. Ele torceu pelo Senegal, que surpreendeu a França no jogo de abertura. Durante sua campanha para a prefeitura em 2025, Mamdani promoveu sua campanha "Game Over Greed" (Fim da Ganância), exigindo que a Fifa encerrasse a precificação dinâmica, limitasse os preços de revenda e reservasse 15% dos ingressos para residentes locais. Não era nada novo: eram exatamente as medidas que a entidade havia adotado na África do Sul e no Brasil. Mamdani sabe que a Fifa coloca os lucros em primeiro lugar e, como prefeito de uma das cidades-sede, seu poder é limitado. O que estava ao seu alcance ele fez: declarou que todos as fan fests oficiais de Nova York seriam gratuitas, revertendo a decisão do seu antecessor e rompendo com a prática da maioria das outras cidades-sede. No fim das contas, o ato de Mamdani é modesto, porém certeiro. A Fifa exclui as pessoas do estádio; Mamdani coloca o jogo de volta nas ruas. Mas sejamos honestos sobre o que isso significa: o esporte mais popular do mundo agora é acessível aos torcedores comuns apenas como uma festa de rua e não porque eles estão longe, mas porque não podem pagar para atravessar a catraca. Algo mais está surgindo dos grupos de WhatsApp e conversas entre brasileiros nos EUA. Além da frustração de estar perto e não conseguir ir aos jogos, uma percepção vai se instalando: quando não há ingresso de Categoria 4, nem desconto para residentes, nem uma diversificação dos modelos de precificação de ingresso, o mercado não democratiza o acesso. A bilheteria da Fifa tornou-se, para muitos nesta comunidade, um encontro direto com o que um mercado com falhas e não regulamentado faz quando ninguém define as regras: ele exclui justamente os torcedores que deram alma e sentido à Copa do Mundo. Siga Alicia Klein no Instagram Se inscreva no canal de Alicia Klein e Milly Lacombe no YouTube Assine a newsletter da Alicia Klein Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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