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Análise dos Times

Inter-Sm

Principal

Motivo: O artigo foca na torcida do Inter-SM e destaca conquistas do clube associadas à presença da torcida, como o título de campeão gaúcho do interior e a ascensão à primeira divisão.

Viés da Menção (Score: 0.7)

Motivo: O Grêmio é mencionado apenas para contextualizar a fundação da Coligay, a primeira torcida organizada homossexual do país, servindo como um ponto de comparação histórico.

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Palavras-Chave

Entidades Principais

Vasco Grêmio Inter-SM Coligay Mare Vermelha Eduardo Bortolotti Marquita Quevedo Marcelino Cabral

Conteúdo Original

"Foi onde me construí" descreve Marquita sobre participação na Maré Vermelha O futebol perdeu nesta semana Volmar Santos, fundador da primeira torcida organizada homossexual do país , a Coligay, do Grêmio. O grupo teve pioneirismo na presença de pessoas LGBT+ nos estádios do país. Mas outra torcida gaúcha também merece destaque nesta luta. + Veja a classificação e próximos jogos do Gauchão A Maré Vermelha , do Inter de Santa Maria, foi uma das experiências mais duradouras de uma torcida gay nas arquibancadas brasileiras. Menos conhecido, o grupo data de 1979, dois anos depois da Coligay, e ocupou o Estádio Presidente Vargas até o início dos anos de 1990. – Não tinha nada escrito sobre eles, o que existia era memória oral e conversa de bar – contou o historiador Eduardo Bortolotti. 1 de 6 Registro do jornal A Razão ajudou Bortolotti a identificar a data de origem da Maré Vermelha — Foto: Eduardo Bortolotti/Acervo Pessoal Registro do jornal A Razão ajudou Bortolotti a identificar a data de origem da Maré Vermelha — Foto: Eduardo Bortolotti/Acervo Pessoal Coube ao historiador resgatar e registrar a história do grupo no livro Torcida Organizada Maré Vermelha: uma trajetória de resistência nas arquibancadas de Santa Maria – RS , a partir de pesquisas em arquivos históricos, edições de jornais e entrevistas com ex-integrantes. Dos blocos de rua à arquibancada A Maré Vermelha recebeu esse nome em razão do episódio ocorrido na praia do Hermenegildo, no sul do estado, em 1978. Uma proliferação excessiva de algas vermelhas no mar gaúcho tomou conta dos noticiários regionais e inspirou o nome do grupo que "invadia" o futebol. Apesar do nome, a Maré não tem origens ligadas à praia, e sim ao carnaval santa-mariense. A maioria dos integrantes participava da ala gay da escola de samba Vila Brasil e a proposta foi levada ao futebol como tentativa de ampliar os espaços de convivência das pessoas LGBT+. – A Vila Brasil tinha a Ala-Maravilha, onde as pessoas LGBTs se reuniam e era o único lugar, em meados dos anos 70 e 80, seguro para socializar e existir. O Marcelino (um dos integrantes) era grande apreciador de futebol e tentou levar a ala gay para um estádio – explicou Bortolotti. Veja também: + Coligay e Orgulho Vermelho: conheça iniciativas LGBTQIAPN+ no RS + Ferretti comenta sobre ser o primeiro presidente gay do Brasil + Entenda por que torcida gay do Flamengo nunca chegou aos estádios 2 de 6 Registro da Maré Vermelha, na arquibancada do Inter-SM — Foto: Almanaque dos 80 anos do E.C. Internacional/UFSM Registro da Maré Vermelha, na arquibancada do Inter-SM — Foto: Almanaque dos 80 anos do E.C. Internacional/UFSM Marcelino Cabral quis e conseguiu, mas um detalhe: fez a proposta, inicialmente, ao Riograndense, clube rival do Inter-SM, que não possuía grupos organizados. A recepção à ideia, contudo, foi hostil. A alternativa, então, foi reforçar a torcida alvirrubra. Nascia aí, a Maré Vermelha. A Maré surge no final da ditadura, em uma cidade de interior, muito militarizada, confrontando tudo e a todos, dentro de um espaço altamente masculinizado. — Eduardo Bortolotti O grupo ocupou um espaço específico do Presidente Vargas e acompanhou a década de ouro do Inter-SM, com o título de campeão gaúcho do interior, a disputa da Taça de Prata (o equivalente à Série B do Brasileiro) e da Taça de Ouro (primeira divisão), com uma vitória histórica por 3 a 0 contra o Vasco de Mazarópi e Roberto Dinamite. Com fama de pé quente, a Maré passou a acompanhar o clube em outras cidades do estado e a ajudar na organização de campanhas, pedágios e eventos festivos, sendo reconhecida como a torcida oficial do Inter-SM. Não há registros do número de integrantes, mas, segundo Bortolotti, os relatos dão conta de 50 a 100 componentes. 3 de 6 Festa da Maré Vermelha em partida do Inter-SM no estádio Presidente Vargas — Foto: Eduardo Bortolotti/Acervo Pessoal Festa da Maré Vermelha em partida do Inter-SM no estádio Presidente Vargas — Foto: Eduardo Bortolotti/Acervo Pessoal Resistir e existir Apesar da receptividade do clube, a Maré Vermelha não esteve imune ao preconceito e respondia aos xingamentos e à repressão nas arquibancadas. Por meio de instrumentos de percussão e charanga da escola de samba Vila Brasil, junto de fantasias e performances temáticas, o grupo agitava as partidas em um verdadeiro carnaval. – Na Semana Farroupilha íamos de prenda, na Páscoa de coelhinha, roupas de bailarinas de cancan, tínhamos toda uma organização e produção de fantasias. Aquele era o nosso fervo e a Maré era tudo – contou a travesti e ex-integrante Marquita Quevedo . 4 de 6 Marquita Quevedo e Luiz Claudio Melo, ex-presidente do Inter-SM na década de 1980 — Foto: Eduardo Bortolotti/Acervo Pessoal Marquita Quevedo e Luiz Claudio Melo, ex-presidente do Inter-SM na década de 1980 — Foto: Eduardo Bortolotti/Acervo Pessoal Para muitos integrantes, como a ativista cultural, a Maré Vermelha foi a oportunidade de existir e ter o acolhimento que foi negado pela família. Marquita foi expulsa de casa aos 14 anos por revelar sua identidade de mulher trans e, depois de um curto período na casa do tio, passou a viver na rua por cerca de cinco meses, quando foi acolhida por pessoas do grupo. A Maré era esse espaço de socialização (...) Era tipo uma comunidade, a Maré veio nesse sentido de acolhimento, de me fortalecer enquanto Marquita. Não sabia o que eu era, qual seria minha sexualidade, meu gênero. Foi ali que eu me construí. — Marquita Quevedo Marquita integrou a torcida durante os anos 1980 e hoje, aos 58 anos, é produtora cultural e ativista dos direitos humanos. Ela afirma ter encontrado sua consciência política e a militância pelas pautas de gênero na vivência coletiva das arquibancadas. Fim e legado A desarticulação da Maré Vermelha ocorreu gradualmente, por motivos variados, incluindo a epidemia de HIV/AIDS da década de 80. Mas teve como ponto crucial a agressão sofrida por Marcelino durante uma partida, em 1991. Na época, o Inter-SM vivia mau momento dentro de campo e o clima nas arquibancadas era de cobrança. Em forma de protesto a torcida vaiava e virava as faixas no alambrado. Durante cobranças à diretoria, viu a líder ser agredida por um dirigente. Marquita destaca legado deixado pela Maré Vermelha no futebol – Isso para o Marcelino foi a gota d'água. E quando o Marcelino sai, a Maré Vermelha começa a desmanchar, porque não se tem mais a liderança – explicou Bortolotti. Apesar do término da Maré, o grupo continuou a se encontrar no carnaval e a acompanhar jogos do Inter-SM. Na partida que marcou o acesso alvirrubro à primeira divisão do Gauchão , em 2025, após 14 anos, Marquita não conseguiu ingresso para assistir da arquibancada, e torceu do lado de fora. 5 de 6 Jornais de Santa Maria repercutiram a agressão de dirigente a líder da Maré Vermelha — Foto: Eduardo Bortolotti/Acervo Pessoal Jornais de Santa Maria repercutiram a agressão de dirigente a líder da Maré Vermelha — Foto: Eduardo Bortolotti/Acervo Pessoal Para a ex-integrante, a Maré deixou um legado nas pessoas e na cidade, incentivando maior abertura de espaços de convivência e inclusão às pessoas LGBT+ no esporte. – Foi a torcida que durou 13 anos no estádio. E isso é lindo. Ficaram as amizades e o encontro comigo mesmo, para ter hoje essa coragem de falar contigo sobre mim – revelou a ativista. 6 de 6 Foto do Inter-SM junto de faixas da Maré Vermelha em 1990 — Foto: Paulo Sergio Umpierre de Oliveira/Acervo Foto do Inter-SM junto de faixas da Maré Vermelha em 1990 — Foto: Paulo Sergio Umpierre de Oliveira/Acervo