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Reforço do Vasco na última janela de transferências, o meia Alan Lescano chamou atenção na chegada ao futebol brasileiro não só pela qualidade, mas também pelo hábito de vestir chuteiras pretas , "à moda antiga". A preferência do argentino de 21 anos é uma escolha pessoal, que vai na contramão da maioria e virou marca registrada.
Dominantes até os anos 1990, os calçados do tipo viraram exceção no futebol brasileiro, assim como no resto do mundo, e hoje simbolizam o "esporte raiz" entre os torcedores mais saudosistas, para os quais são sinônimo de nostalgia.
Na atualidade, os principais atletas do planeta são patrocinados por empresas esportivas que alinham os modelos diretamente com seus astros. Como estratégia de divulgação, poucas ferramentas são tão chamativas quanto itens coloridos nos pés. Curiosamente, a busca desenfreada por atenção gerou o efeito oposto na última edição da Copa do Mundo , quando diversas fornecedoras decidiram lançar chuteiras rosas simultaneamente, diluindo o impacto visual na transmissão.
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Isso não significa que os pés dos esportistas não fossem alvo de interesse comercial muito antes da popularização das peças coloridas. O episódio mais emblemático envolveu Pelé na Copa do Mundo de 1970 , a primeira transmitida mundialmente ao vivo e a cores pela televisão. Na época, Adidas e Puma firmaram um pacto para não realizar ações de marketing com o Rei. A Puma , contudo, descumpriu o acordo e, antes da partida entre Brasil e Peru, pelas quartas de final, o astro pediu ao árbitro um tempo para amarrar os cadarços, exibindo a marca para milhões de espectadores.
Também nos anos 1970 ocorreu o primeiro registro de desafio à tradição do couro escuro: o meio-campista inglês Alan Ball , do Everton, usou calçados brancos contra o Chelsea em uma ação promocional da Hummel . Décadas depois, a mesma tonalidade foi adotada por Casagrande em partidas do Corinthians .
A Copa do Mundo de 1994 , marco da consolidação da Nike no futebol, foi a última do reinado absoluto dos modelos pretos. A empresa americana, por exemplo, apostou no clássico design em preto e branco. A partir do Mundial seguinte, contudo, a companhia deu início definitivo a uma nova era no mercado esportivo.
Em 1998, a Nike desenvolveu um material sintético que facilitava o tingimento do calçado e lançou uma versão exclusiva para Ronaldo Fenômeno , mesclando prata, azul e amarelo. Rapidamente, outros craques aderiram ao conceito de peças personalizadas. Tornou-se um caminho sem volta: a indústria percebeu o potencial de associar cores chamativas a atletas específicos, despertando no torcedor o desejo de consumo.
Nas últimas três décadas, poucos jogadores se mantiveram fiéis ao estilo tradicional. Entre os resistentes destaca-se Romário , que continuou utilizando o modelo clássico mesmo após a febre surgida no Mundial da França . Como presidente do América-RJ , o Baixinho chegou a impor o uso do calçado escuro como norma obrigatória no clube:
— Sempre joguei de chuteira preta e fui contrário a chuteiras de outras cores. Acho que o futebol tem que ser mostrado com sua técnica, na forma de jogar. Principalmente esses jovens até 20 anos, no meu entendimento, eles têm que primeiro mostrar quem são pelo futebol e não serem conhecidos pela chuteira, seja ela rosa, abacate, qualquer cor. Por isso a determinação. O bom é que as pessoas estão falando dos jogadores agora, e não das chuteiras que eles usam.
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Por razões comerciais, outro jogador que também adotou a chuteira totalmente preta foi Fred . A partir de 2008, quando seu contrato com a Adidas expirou, o ídolo do Fluminense passou ao menos cinco anos pintando as peças totalmente de preto — mesmo que elas ainda fossem da antiga parceira.
— O Fred já recebeu várias propostas de patrocínio. Mas ele acredita que tem seu preço. E até hoje ninguém ofereceu o que ele acha justo — comunicou a equipe do jogador em 2011.
Os poucos casos de atletas que ainda utilizam calçados pretos costumam ser impulsionados por ausência de patrocinadores ou períodos de transição entre marcas. Em 2023, Vini Jr. adotou os itens sem cores durante o seu litígio com a Nike , por exemplo.
Além disso, a busca por modelos tradicionais em tom escuro ocorre durante períodos de testes tecnológicos, quando a fornecedora envia um protótipo para avaliação sem revelar o design oficial antes do lançamento.