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A chegada dos campeonatos estaduais em suas fases finais promete nos arremessar numa redoma de insanidade -- e não apenas dentro do campo. O fim de semana que se avizinha, por exemplo, terá uma série de clássicos decisivos, que sempre são terreno fértil para vitórias épicas ou tombos descomunais. No entanto, além disso, outro fenômeno deve despontar no horizonte, pois já faz parte da rotina: o nervosismo geral da nação. Em tempos em que tudo parece estar ao alcance da mão, não há mais espaço para a paciência. Em um ambiente naturalmente inflamável como o futebol, o torcedor está sempre a um escanteio curto de explodir. A grande questão é que hoje a irritabilidade pode (e, para alguns, deve) ser compartilhada, o que alimenta um cenário marcado por manifestações de fúria online, violência verbal remota e uma raiva que parece regada todo dia. Contra tudo e contra todos -- inclusive contra nosso próprio time e contra quem veste as mesmas cores. Porque, na relação com o futebol atual, o novo normal é normalizar o ódio. 1 de 2
Protesto da torcida do Corinthians em 2024 — Foto: Reprodução Protesto da torcida do Corinthians em 2024 — Foto: Reprodução É possível que seja um sinal dos tempos, amparado por posicionamentos que avalizam um discurso colérico. Muitas vezes, parte da própria imprensa acaba fomentando esse comportamento bélico, que ganha eco porque cada torcedor tornou-se um comunicador em potencial. É óbvio que há muitos profissionais identificados que desempenham seu trabalho com nível de excelência, mas também é um campo pródigo para semear o descontrole e a intolerância de qualquer espécie. Cada um assumir sua parcela de responsabilidade seria não apenas o começo, mas quase todo o caminho. Sei que pode parecer chocante, mas no futebol o comum é o fracasso. Alguns poucos clubes vencem mais títulos que outros, mas historicamente todos são marcados por extensos jejuns e diversas fases de vacas magras. Cada um torce como quer, e quem tenta ensinar o torcedor a torcer corre o risco de receber um saco de líquidos demasiado íntimos na cabeça, mas quando a gente se afasta por algum momento do viés mercantil que impera no futebol atual e percebe que a identificação com o clube independe de taças, a vida pode se tornar bastante mais leve. Torcer é o caminho, vencer é circunstância. 2 de 2
Mesmo numa época de vacas magras, torcida do Náutico enche os Aflitos — Foto: Marlon Costa/AGIF Mesmo numa época de vacas magras, torcida do Náutico enche os Aflitos — Foto: Marlon Costa/AGIF O futebol brasileiro nunca gastou tanto, e esse provavelmente é um fator que intensifica ainda mais a impaciência, mas infelizmente não é um simples salário milionário que vai fazer nosso lateral-direito, destaque no último campeonato cipriota, aprender a caminhar e respirar ao mesmo tempo. As cifras alimentam a expectativa, mas não são garantia de felicidade (ainda bem). Junte-se a isso o palco das redes sociais, receptivo às manifestações mais exageradas, e está montado um circo movido por intransigência e malabarismos morais. Talvez tenhamos desaprendido a lidar com a frustração , talvez estejamos apartados demais da vida social ao vivo, onde a única interface é o muro de casa ou a mesa do bar -- dois cânones civilizatórios. Mas isso seria ingressar na esfera da psicologia de buteco, onde todos têm o direito de se sentirem herdeiros de Freud. Desde sempre, todo torcedor carrega dentro de si uma imensa carga dramática. Nada é mais genuíno do que gritar contra as nuvens, trancar-se num quarto escuro nos últimos minutos de jogo ou tentar morder o próprio cotovelo quando nosso zagueiro, mais duro que um poste, tenta sair jogando. No entanto, quando o ódio vai além do espelho, um limite muito sensível é ultrapassado. É nessa encruzilhada que estamos. O futebol é ilógico e nossa relação com ele é subjetiva, mas a civilidade jamais pode ser relativizada -- seja na rua ou dentro de casa; seja na arquibancada ou no campo esburacado das redes sociais. Torcida do Bahia protesta contra time e Ceni em primeiro jogo após eliminação