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Só para assinantes Assine UOL Opinião Entre vaias e beijos, 'pode isso, Arnaldo?' Juca Kfouri Colunista do UOL 14/05/2026 15h12 Deixe seu comentário Resumo Ouvir na voz do colunista 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Roger Machado Imagem: Rubens Chiri / São Paulo FC POR GLAUCO MARTINS GUERRA* Tem início a execução do Hino Nacional. Jogadores, arbitragem e comissões técnicas todos perfilados em respeito ao ato cívico. Na arquibancada, reverências e gracejos se misturam às primeiras manifestações da turba antes da partida começar. A depender das camisas em campo, toda a letra do símbolo sonoro da pátria é cantada apenas pela repetição do nome do time. O juiz apita um minuto de silêncio em homenagem a..., não importa. O único jogador que não respeita a ordem é a torcida. Tomando emprestado de Eduardo Galeano, coloco o fair-play de lado para repetir que o tal "jogador número doze" é quem movimenta a bola diante da modorra, "é ele quem sopra os ventos do fervor" e sacode a arena para a glória do espetáculo. Em sua coluna "Meio de Campo", publicada no site "Migalhas" no dia 29/04/2026, e neste blog, Rodrigo R. Monteiro de Castro, esse craque do Direito Societário e do Direito Futebolístico, disse que o atual técnico do tricolor paulista - o gaúcho Roger, substituto do argentino Crespo - sofreu assédio coletivo da torcida, tal qual Barbosa no "maracanaço" da final da Copa do Mundo de 1950. Tomou de empréstimo a alegoria do Coliseu, voltando à Roma Antiga, para afirmar que, pouco valendo as poucas opiniões ou gestos de acolhimento recebidos (como o abraço de Luciano após o gol contra o Mirassol pelo brasileirão), o que prevaleceu foi "a convicção, que mascara o preconceito", exigindo do treinador que de cara precisasse se defender "de um suposto fracasso anunciado". Rodrigo apontou um bullying coletivo recheado de "crueldade, de maldade, de desumanidade". Letícia Casado Reação de Flávio a áudio irrita aliados Sakamoto Flávio-Vorcaro põe Michelle no céu e Tarcísio no inferno Josias de Souza Defesa de Flávio Bolsonaro sobre Master vira pó Gustavo Miller O emprego do futuro é offline? Grosserias, ofensas e perversidade verbal, para dizer o mínimo, precisam ser colocadas aonde devem ficar: na deselegância, falta de gentileza e incivilidade. Todavia, historiador que sou e boleiro chegado a uma resenha, discordei de Rodrigo quanto ao assédio coletivo. Não das mazelas do fato, claro, pois inexiste dúvida de que parte da massa são-paulina, reverberada pela imprensa, pegou no pé do treinador desde o primeiro momento em que ocupou sua área técnica. Minha contraposição é de que se trata de "bullying", exatamente tendo em vista que o articulista invocou a analogia do anfiteatro flaviano, incorporado por imperadores como Cesar e Nero para o amansamento e controle "a pão e circo" da vida romana. Ao pensarmos num "coliseu", somos levados a cenas imaginárias de gladiadores e feras se esfalfando em dor, sangue e suplício, a ponto do polegar de um único homem decidir pela morte ou o perdão daqueles que ofereciam o show de horrores para uma horda uivando de prazer nas galerias e arquibancadas das arenas espalhadas pelo Império Romano. Quem assistiu à franquia "Gladiador" nos cinemas pode performar ainda mais essa "memória" construída. Como curiosidade, estima-se que o Coliseu em Roma comportava em torno de 50 mil espectadores. Eduardo Galeano me faz outro passe, "os outros onze jogadores sabem que jogar sem torcida é como dançar sem música." É de todo evidente que racismo, homofobia e qualquer outro tipo de violência verbal, física ou psicológica merecem a mais profunda reprimenda, repúdio, investigação e, se demonstrada sua ocorrência, aplicação severa das sanções legais previstas. Isso é o óbvio ululante. Mas e a vaia, a cobrança, a insatisfação, o inconformismo torcedor (ainda que proferidos sem o tato da urbanidade) com as constantes trocas de equipes técnicas, a malemolência em campo e outras hipóteses de inércia futebolística que levam o fervor do torcedor às raias da histeria? Minha controvérsia se lança a um único ponto: profissionais que são, muito bem pagos e preparados para atuarem no ludopédio, jogadores e técnicos não são gladiadores e feras, escravizados e capturados para o entretenimento coletivo, mas sim homens e mulheres que cumprem um contrato, um contrato "de arena", e que, portanto, escolhem estar sujeitos às intempéries e humores dos expectadores. Repetirei como um mantra, violência e ilegalidades do torcedor estão fora dessa preleção. Fernando Mello, em excelente artigo publicado no site "Poder 360" de 25/04/2026, tem um ponto. "Uma nova epidemia assola o Brasil: a infelicidade futebolística", crava o articulista. E mais, explicita sua convicção de que a "paixão nacional" está infestada pelo "vírus da insatisfação e do ódio" e potencializada pelo "imediatismo absoluto e o descontentamento geral e irrestrito". Essa radiografia dialoga com o historiador Flávio de Campos acerca da modernização das arenas brasileiras como "lugares de consumo". No artigo "Arquitetura da Exclusão: Apontamentos para a inquietação com o conforto" (publicado no livro "Futebol objeto das ciências humanas", Ed. Leya, 2014, p. 349/361), o autor observa que, "em nome do conforto e da segurança", as atuais praças esportivas representam a implementação de "uma verdadeira higienização social do futebol." Há, portanto, um enorme cabo de força nesse tema, mostrando a diacronia das tensões e transformações pelas quais passa o ambiente futebolístico brasileiro nesses quase 130 anos de sua prática. Continua após a publicidade A par de qualquer ilicitude ou ilegalidade, a prática abusiva e reiterada de humilhação e hostilidade num ambiente de trabalho caracteriza o assédio moral (seja ele individual ou coletivo) e se faz perniciosa e desagregadora para o melhor desempenho de uma organização e seus profissionais. A relação entre torcida e time está além desse cenário. A Lei Geral do Esporte (14.597/2023) traz em seu artigo 2º. nada menos que 16 princípios fundamentais, dentre eles a educação, a inclusão, a liberdade e a segurança. A toxicidade da conduta maledicente do torcedor ou torcedora mais infeliz, insatisfeito ou consumido em ódio diante de seu time - sobretudo se reverberada num comportamento massificado - vai contra esses princípios que devem pautar os esportes. Se o coliseu romano tinha a barbárie como ação lúdica do império para o controle social, as arenas de futebol no contemporâneo precisam ser palco de um avanço civilizatório, de maneira que vaias e aplausos tenham lugar e sejam compreendidos com níveis toleráveis de emoção e responsabilidade profissional, mas também manifestados dentro de um mínimo de equilíbrio e harmonia social, em benefício da saúde física e mental da coletividade. Afinal, a retórica da lei tem sua função: o que devemos querer é "esporte para toda a vida". *Glauco Martins Guerra é advogado e historiador. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Juca Kfouri por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Chapecoense faz dois, segura pressão e elimina Botafogo da Copa do Brasil Neymar pode dar recorde de público da Neo Química Arena em 2026 ao Santos CBF define data e horário do sorteio das oitavas de final da Copa do Brasil Prêmio da Quina acumula e vai a R$ 8 milhões; confira as dezenas Mulher é espancada por noivos após pedir ajuda em festa de casamento em SP