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Senegal 1 x 0 Marrocos | Final | Copa Africana de Nações A festa estava pronta na capital Rabat. Vencer Senegal e voltar a conquistar a Copa Africana de Nações após 50 anos, diante da torcida, confirmaria o status da seleção de Marrocos como principal força do continente, papel assumido com a inédita semifinal no Mundial de 2022, no Catar. Mas, ao fim de uma partida caótica, com decisões polêmicas da arbitragem, ameaça de saída de campo da seleção de Senegal e um pênalti perdido por Brahim Díaz nos acréscimos, daqueles que ficam eternamente na memória da torcida, restou aos marroquinos um misto de revolta e incredulidade. Além da incerteza sobre o efeito que um título perdido de maneira tão surreal pode trazer para a equipe a cinco meses de estrear na Copa do Mundo, contra o Brasil, dia 13 de junho, no jogo de abertura do Grupo C , em Nova Jersey. Senegal vence Marrocos em final surrealista e conquista Copa Africana 1 de 2
Brahim Díaz após perder o pênalti que poderia dar o título africano a Marrocos — Foto: REUTERS/Siphiwe Sibeko Brahim Díaz após perder o pênalti que poderia dar o título africano a Marrocos — Foto: REUTERS/Siphiwe Sibeko Jornalista cobra demissão de Regragui O técnico Walid Regragui, por exemplo, exaltado há quatro anos pela campanha no Mundial do Catar, descobriu rapidamente o tamanho da decepção: na entrevista coletiva, um jornalista marroquino perguntou se ele iria entregar o cargo nesta segunda-feira. Ainda que se desconte o sangue quente que um jogo completamente fora dos padrões possa ter deixado na imprensa local, a pergunta - que ficou sem resposta do treinador - não deverá ser esquecida facilmente. - Estamos verdadeiramente desapontados por todos os torcedores marroquinos. Quando se tem um pênalti no último minuto, a vitória parece estar muito perto. É uma pena - lamentou Regragui, tentando olhar para a frente com alguma esperança. - Parabéns para Senegal. Nós continuaremos trabalhando. Marrocos voltará mais forte. Artilheiro, Brahim chora na premiação Protagonista da desgraça marroquina, o atacante Brahim Díaz, do Real Madrid, vinha fazendo a Copa Africana dos sonhos. O jogador de 26 anos, nascido em Málaga, abdicou de jogar pela Espanha em 2024 para defender o país do seu pai. Um camisa 10 habilidoso para tornar a boa seleção do Marrocos ainda mais forte do que na Copa do Catar. Brahim Díaz foi o artilheiro da Copa Africana, com cinco gols, um em cada partida, da estreia às quartas de final. O gol que marcará sua participação no torneio, no entanto, será o que ele não fez, no pênalti mal batido que valeria o título para Marrocos. Brahim sequer terminou a partida. Levou uma bronca pública de Walid Regragui tão logo terminou o tempo normal. Foi substituído aos oito minutos da prorrogação. E recebeu seu troféu de artilheiro chorando no palco armado para a celebração que os anfitriões não conseguiram realizar. Quatro lances capitais Dos 120 minutos oficiais disputados na decisão deste domingo, o que ficará para a história serão o quatro lances capitais, além dos quase 15 minutos de indecisão sobre a permanência dos senegaleses em campo. O primeiro ato da confusão foi o gol anulado de Senegal, já aos 47 minutos do segundo tempo. O arbitro viu falta de Abdoulaye Seck em Achraf Hakimi, antes do cabeceio do senegalês, e como a marcação aconteceu imediatamente após o contato, o gol marcado por Ismaila Sarr no rebote sequer pôde ser revisado pelo VAR. Aos 50 minutos, o lance que deu início ao caos. Brahim Díaz reclamou com veemência de um puxão de Malick Diouf após o escanteio. O árbitro nada marcou, mas foi chamado pelo VAR para rever o lance, e deu pênalti para os donos da casa. Revoltados com o gol anulado e o pênalti marcado em uma disputa por espaço que dá margem a interpretação, a maioria dos jogadores senegaleses, seguindo ordem do técnico Pape Thiaw, abandonou o campo e seguiu para o vestiário. Capitão da seleção, o experiente camisa 10 Sadio Mané permaneceu no gramado e, com sensatez elogiável diante de tamanha confusão, chamou a equipe de volta. 2 de 2
Senegal deixa o gramado no meio da final da Copa Africana — Foto: Reuters Senegal deixa o gramado no meio da final da Copa Africana — Foto: Reuters Cavadinha ou recuo? O terceiro ato é o que mudou a história da seleção marroquina na Copa Africana preparada para a sua consagração. Brahim Díaz, que tinha sofrido o pênalti, cobrou com uma cavadinha tão inofensiva que pareceu mais um recuo para o goleiro Edouard Mendy, a ponto de gerar até dúvidas se não teria sido mesmo um recuo proposital devido à polêmica marcação - as reações entre desesperadas e incrédulas do próprio atacante do Real Madrid, de seus colegas e do técnico Walid Regragui deixaram claro que Brahim tinha mesmo como meta fazer o que seria o gol do título. O tempo normal terminou, e com apenas quatro minutos de prorrogação veio o capítulo final: com um bonito chute da entrada da área, Pape Gueye fez o gol do título de Senegal. A seleção que se revoltou com a arbitragem e quase abandonou a decisão terminou consagrada com o segundo título continental da sua história. Para os marroquinos, os próximos dias - ou meses - serão dedicados a tentar cicatrizar as feridas de uma das decisões mais surreais do futebol mundial.