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Reportagem Esporte Retorno de afegãs aos gramados expõe dilema de direitos humanos no esporte Gabnriel Coccetrone Repórter 10/11/2025 11h36 Deixe seu comentário Carregando player de áudio Quatro anos depois de deixarem o Afeganistão para escapar do grupo fundamentalista Talibã, as jogadoras da seleção feminina do país voltaram a disputar uma partida reconhecida pela Fifa durante o Women's Series 2025, em Casablanca, no Marrocos. A equipe agora se chama Afghan Women United (Mulheres Afegãs Unidas, em inglês) e compete sob o status de refugee team — um time formado por refugiadas, não por uma seleção nacional. Sem o reconhecimento da federação afegã — hoje alinhada ao governo talibã —, as atletas precisaram reconstruir uma identidade esportiva fora do próprio país. A autorização da Fifa, resultado da pressão internacional de organizações como a Sport & Rights Alliance e a Human Rights Watch, não é apenas uma decisão administrativa, mas um gesto que redefine o alcance da autonomia esportiva diante de violações de direitos humanos. "Este é o início de uma bela jornada", declarou Gianni Infantino, presidente da Fifa. Wálter Maierovitch Motta insufla polarização ao pôr Derrite no PL antifacção Alicia Klein Sem fazer a diferença, para que serve Neymar? Felipe Salto Reflexões sobre o juro alto no Brasil Cris Guterres Por que falar sobre dinheiro é difícil para as mulheres Para formar a seleção afegã que disputou o torneio no Marrocos, uma comissão técnica coordenada pela ex-jogadora escocesa Pauline Hamill organizou peneiras (testes) em Sydney e Londres, com cerca de 70 atletas. A equipe de refugiadas selecionada contou com 13 jogadoras baseadas na Austrália, outras cinco no Reino Unido, três em Portugal e duas na Itália. Papel social do esporte O advogado e mestre em direito desportivo Andrei Kampff considera o episódio um exemplo do papel social do esporte. "A volta das mulheres afegãs a um campo de futebol é mais do que um jogo. É um símbolo de resistência e um lembrete de que o esporte só cumpre seu papel social quando é instrumento de liberdade, dignidade e igualdade. Uma vitória dos direitos humanos no campo esportivo", avalia. O especialista também chama atenção para o que o status de refugee team representa no campo jurídico e político. "O fato de o time competir como 'refugee team' e não como seleção oficial expõe o tamanho do problema: o apagamento institucional das mulheres no esporte afegão. Esse status tem implicações jurídicas e políticas profundas, porque significa que elas ainda não têm o direito pleno de representar seu país — e o sistema esportivo internacional precisa enfrentar essa omissão", afirma Andrei Kampff. Continua após a publicidade Para a advogada Luiza Castilho, especialista em direito desportivo, a decisão da Fifa de reconhecer oficialmente o time de refugiadas afegãs é um marco. "Quando o Talibã retoma o poder em 2021 e o regime de apartheid de gênero volta a restringir sistematicamente os direitos das mulheres e meninas, o futebol feminino se torna, mais uma vez, um símbolo de resistência. A pressão internacional, com as denúncias da Sport & Rights Alliance, da Human Rights Watch e das próprias atletas, que resultou na recente decisão da Fifa de reconhecer oficialmente e, de forma excepcional, o time de refugiadas afegãs, foi um ato esportivo, político e social com diversos recortes", avalia. Segundo a especialista, permitir que jogadoras participem de um torneio sem o aval da federação nacional inaugura um precedente importante e lança luz sobre o papel das instituições esportivas diante de contextos de opressão. "O Afghan Women United é um ato de reparação histórica e um chamado para que as instituições esportivas e políticas compreendam que inclusão se constrói com garantias estruturais. Ao mesmo tempo, a Fifa também se coloca diante de um dilema ético: até onde vai o papel de uma organização esportiva diante de regimes que violam direitos fundamentais? O episódio das jogadoras afegãs mostra que o futebol nunca foi neutro — ele reflete as estruturas que o cercam", pontua Luiza Castilho. Desde que o Talibã retomou o poder no Afeganistão, em agosto de 2021, as mulheres do país enfrentam diversas proibições — entre elas, a de praticar esportes. Apoio da Fifa Continua após a publicidade Em maio deste ano, durante o 74º Congresso da Fifa, o conselho da entidade aprovou uma estratégia de apoio ao futebol feminino afegão, com o objetivo de promover oportunidades para as jogadoras do país, mesmo no exílio. Segundo a Fifa, será criada uma estratégia de ação para o desenvolvimento da seleção afegã, que prevê políticas de organização, treinamentos e participação em torneios. Além disso, a segurança das atletas também receberá atenção especial. Neste primeiro momento, a equipe passará por uma fase piloto de um ano. Durante esse período, as jogadoras participarão de partidas amistosas reconhecidas e torneios supervisionados. A seleção feminina afegã não disputa uma partida oficial de futebol desde 2018 e não aparece mais no ranking mundial da Fifa, que abrange 196 nações. Dessa forma, ficou ausente do sorteio das Eliminatórias da Copa Asiática Feminina de 2026, torneio essencial para o processo de classificação para a Copa do Mundo Feminina de 2027. Nos siga nas redes sociais: @leiemcampo Este conteúdo tem o patrocínio do Rei do Pitaco. Seja um rei, seja o Rei do Pitaco. Acesse: www.reidopitaco.com.br . Reportagem Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Lei em Campo por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Flamengo aproveita derrapada do Palmeiras e cola; veja chances de título Alemanha achou arriscado investir em fundo de florestas de Lula Allan é punido no STJD e desfalca o Palmeiras contra o Santos Testei lava e seca de 11 kg da TCL e os ciclos de lavagem salvaram a rotina PF descobre cinco foragidos entre prestadores de serviços da COP