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O futebol é um esporte que reúne famílias, desperta paixões e transforma ruas e estádios em espaços de celebração. Mas, dentro de algumas casas, o que deveria ser motivo de alegria se torna sinônimo de sofrimento. Para mulheres que vivem em um ambiente de violência doméstica, o apito inicial de uma partida pode marcar o começo de momentos de tensão. O medo de um resultado que desagrade o companheiro e provoque uma reação agressiva passa a fazer parte da rotina nos dias de jogos.
Christina, que por motivos de segurança teve sua identidade preservada, viveu por 25 anos em um relacionamento marcado pela violência doméstica e conhece bem essa realidade. Seu ex-marido era fã de futebol e obrigava ela e os dois filhos a assistirem às partidas com ele, sem fazer barulho ou incomodá-lo durante os jogos.
“Ele fazia eu e as crianças assistirem com ele. E se não concordássemos em sentar e assistir com ele, era como se não o entendêssemos. E se sua equipe perdesse, havia uma mudança de humor na casa e a atmosfera mudava para algo muito negativo. E nós tínhamos que observar tudo o que dizíamos e fazíamos”, relatou, em entrevista à ESPN .
A experiência de Christina não é um caso isolado. Um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), realizado em Belo Horizonte, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, identificou que, entre 2023 e 2025, os registros de ameaças contra mulheres aumentaram 27,4% em dias de jogos de futebol. Já os registros de lesão corporal dolosa cresceram 28,8% nessas datas.
“Nós pesquisamos cinco capitais brasileiras e infelizmente, o que a gente acabou conseguindo alcançar é que dia de jogo é um dia em que as mulheres sofrem mais violência doméstica. Na pesquisa anterior, a ameaça teve um aumento mais pronunciado do que lesão corporal dolosa. Nessa pesquisa de agora, tanto a ameaça quanto a lesão corporal dolosa aumentaram com relação ao registro da pesquisa anterior”, revelou Juliana Brandão, coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Apesar dos resultados, Juliana ressalta que a pesquisa não aponta o futebol como causador da violência doméstica.
“A nossa pesquisa, de forma alguma, quer dizer que o futebol é o causador da violência doméstica. Não é isso. O futebol é um catalisador temporal dessa expressão da violência. Então, se já sabemos que dia de jogo é um dia potencialmente mais perigoso para as mulheres, é naquele dia que os agentes da segurança pública têm que estar mais atentos”, explicou.
Christina conta que a violência vivida dentro de casa também atingiu seus filhos, sua mãe e outros familiares. Segundo seu relato, o ex-companheiro foi preso em 2017 e denunciado por três episódios específicos. Para ela, a insatisfação dele com o desempenho de seu clube e da seleção inglesa alimentava as agressões.
“O futebol desperta uma emoção e intensifica o que já existe naturalmente em um agressor. Por isso, fica muito pior quando as partidas começam. Por causa do emocional, da montanha-russa de emoções quando você está assistindo a uma partida”, disse a vítima.
A mulher relatou à reportagem que vivia constantemente com medo, sem saber como o agressor, seu marido e pai de seus filhos, reagiria durante os 90 minutos de uma partida. Para quem acompanha o esporte, os jogos podem fazer parte da rotina duas vezes por semana. Para ela, porém, esses momentos eram marcados pela insegurança.
“O temperamento da pessoa aumenta e ela não têm controle sobre si e controlam as pessoas ao seu redor a um ponto em que isso se torna indescritível. Você perde sua dignidade, sua mentalidade e tenta viver sua vida, mas é impossível porque você tem medo constante de qual será o próximo passo. Mesmo quando a equipe dele ganhava”, completou Christina.
A relação entre futebol e violência também está presente na história de Érica Fernandes Alves Ceschini, vítima de feminicídio em janeiro de 2021. Sua irmã, Aline Fernandes, relembra que a discussão entre Érica, palmeirense, e Leonardo Souza Ceschini, corintiano condenado a 13 anos e 24 dias de prisão em agosto de 2026, começou após um desentendimento relacionado à final da CONMEBOL Libertadores de 2020, disputada em 30 de janeiro de 2021.
“A discussão entre eles começou pelo futebol. No início da comemoração (após o título da Libertadores) ela queria ir e ele não queria levar ela. Depois ele mudou de ideia e a levou, mas, no retorno, eles continuaram tendo discussões até o assassinato dela”, relatou Aline.
Na época, os filhos gêmeos do casal tinham apenas dois anos e presenciaram a situação. Para Aline, o desfecho do caso na Justiça não encerrou a violência: as consequências permaneceram na vida de toda a família, especialmente na dos filhos de Érica, que cresceram sem a presença da mãe.
“A minha irmã teve a vida dela ceifada por um motivo fútil, um motivo banal, ela não foi respeitada naquele momento. Não foi só tirado a vida da minha irmã, mas foi transformada a vida dos meus sobrinhos porque hoje eles não têm a mãe dele aqui com eles".
O feminicídio de Érica evidencia as consequências irreversíveis da violência doméstica. Para as mulheres que sobrevivem às agressões, uma rede de apoio pode ser fundamental para interromper esse ciclo e permitir que reconstruam suas vidas.
Foi nesse contexto que Christina recebeu apoio da Woman’s Trust, organização beneficente do Reino Unido que oferece acolhimento a mulheres e meninas que enfrentam a violência doméstica, com aconselhamento especializado e suporte à saúde mental.
Após viver sob o medo das reações do companheiro, Christina deixou um alerta para mulheres que enfrentam situações semelhantes à que ela viveu por 23 anos.
“Proteja-se da melhor maneira que puder. Tenha um plano. Tente sair do relacionamento e buscar ajuda, porque eles nunca vão mudar. Eles nunca mudam. Homens abusivos e raivosos nunca mudam, você não pode mudá-los”, declarou Christina.
No Brasil, iniciativas como o Projeto Justiceiras também atuam no acolhimento de mulheres em situação de violência. Lourdes Oliveira, responsável pelo gerenciamento geral do projeto, explicou que o atendimento começa quando a própria mulher ou alguém próximo preenche um formulário pelos canais da organização.
“Abrimos um grupo onde tem uma advogada, uma psicóloga, uma assistente social, uma rede de apoio e três lideranças, uma liderança para cada área de atuação. A vítima ela é contatada de acordo com a forma que ela pede, seja em atendimentos no WhatsApp, por SMS ou ligação. O nosso objetivo é que essa vítima possa receber todo o atendimento necessário de acordo com a sua demanda”, declarou Lourdes.
A relação entre futebol e violência também aparece nos relatos de mulheres que procuram ajuda no Brasil. Lourdes revelou que o Justiceiras já acolheu uma vítima que vivia momentos de tensão dentro de casa nos dias de jogos. Quando o time do companheiro perdia, o comportamento dele se tornava mais agressivo, seja por meio de maus-tratos ou de agressões físicas.
“O agressor ele já é agressor antes do jogo de futebol, a vítima já está dentro desse relacionamento antes do dia de jogo. Mas, nesses dias essa agressão se intensifica muito mais. A gente percebe que não porque o time perdeu é por causa da frustração que ele fica e para ele isso é mais uma oportunidade de poder agredir essa vítima e tentar se justificar depois, que muitas vezes não são produtivas, que não acrescentam”, acrescentou.
O acolhimento é essencial para mulheres que já vivem situações de violência, mas a prevenção também passa pela formação das novas gerações. Em ambientes infantis ligados ao futebol, iniciativas educativas buscam trabalhar o respeito, a empatia e o comportamento desde a infância.
Na Ronaldo Academy, empresa idealizada e fundada por Ronaldo Nazário, o Fenômeno, o desenvolvimento comportamental e psicossocial faz parte do trabalho realizado com crianças e adolescentes que praticam futebol. A proposta vai além da formação esportiva e busca contribuir para a construção de valores que acompanhem os jovens ao longo da vida.
Roberto Joaquim, CEO da academia, afirma que o objetivo é ajudar na formação das crianças e adolescentes para que eles sejam capazes de estabelecer relações mais respeitosas dentro e fora dos gramados.
“Eles com certeza serão adultos muito mais amorosos e respeitadores. A gente costuma falar que a gente vai transformar fenômenos dentro, mas principalmente fora dos gramados, onde essas crianças vão se tornar melhores pais, melhores filhos, melhores companheiros, então melhores profissionais para trabalhar, independente do segmento que ele vai seguir.”
Se, na academia, o trabalho de formação pode contribuir para a construção de relações mais respeitosas, o futebol profissional também pode se tornar uma ferramenta de conscientização e proteção às mulheres e crianças. Para Juliana Brandão, envolver clubes, jogadores e torcedores nessa discussão pode ajudar a transformar o papel do esporte diante da violência doméstica.
“Se a gente pensar que o futebol está sendo um catalisador dessa violência, ele também pode ser um catalisador da proteção das mulheres, mulheres. Se a gente envolver, por exemplo, os times, os torcedores, os jogadores, eles também podem ser porta-vozes de que o futebol é um momento de lazer, é um momento de fruição coletiva, é um momento, inclusive, de muita alegria para muitas famílias brasileiras”, afirma Juliana.
Mais do que unir torcedores movidos por uma paixão, o futebol pode ser um espaço de convivência, respeito e afeto. Para isso, é preciso reconhecer que a violência não faz parte do esporte e que a paixão por um time jamais pode servir de justificativa para agredir outra pessoa.
“Seja um momento de confraternização, um momento de vivências, de afetos, que não passem, porque o amor, de fato, não combina com a violência, ele não é sinônimo de violência”, completou a coordenadora.