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Análise dos Times

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Só para assinantes Assine UOL Opinião Jogos de ida e de volta Juca Kfouri Colunista do UOL 14/12/2025 12h34 Deixe seu comentário Carregando player de áudio POR LUIZ GUILHERME PIVA Os ônibus chegavam no sábado, se os times fossem de condição um pouco melhor, para o pernoite numa pensão até o jogo no domingo. Ou no domingo cedo, quando eram times mais simples. Isso a cada quinze dias, porque era uma rodada em casa e outra fora. Ele, menino, ficava na rodoviária. Assistia a todos os desembarques. Vinha cedinho e só ia embora depois de todos os jogadores deixarem a estação. Quando era o time da cidade que saía, ele ia para assistir ao embarque e à partida dos jogadores locais. Todas as semanas estava lá. Fazia o caminho a pé, de longe, sozinho. Mirrado, suado, calado, andava pra lá e pra cá e arregalava olhos e boca quando os times desfilavam no saguão. Jogadores gigantes, fortes, falando alto, fumando, acenando para as moças nas outras plataformas, que sorriam e fingiam não ver. Era tudo e somente isso o que ele queria para ele, para sempre, para já, como nada mais ele poderia querer. Chegava a arder o peito, a cavar o estômago, a secar os dentes, a embaçar a vista. À tarde, nos jogos, vendendo laranjas, estancava, encantado com os chutes, o som da chuteira na grama, o colorido das camisas, os goleiros voando, a dança, os movimentos, os gritos. E à noite corria de novo para a rodoviária, para ver os times partirem. Ou ver o da casa voltar - dia em que o pequeno estádio local, vazio à tarde, só tinha a ele sentado nos degraus laterais, olhando para o campo, como se jogo houvesse. Mas tudo passa. Isso também passou. E ele quase não se lembra de nada. Nem pensa no assunto. Quando contam a ele, faz um gesto de "eu?" e desconversa. Nunca jogou futebol, não assiste aos jogos no campo nem na TV. Tem idade, barriga, cansaço. Pensa em como garantir o dinheiro para os próximos meses. Em como escapar dos problemas diários. Manca um pouco, funga às vezes. E só se recorda de rascunhos daquela época quando, na rodoviária, vai pegar o filho, engraxate, e levá-lo na garupa da bicicleta para a casa da mãe. Vez ou outra para e olha absorto para um ônibus encostando. Acha que dele vai descer outra vida. Outra história. Outra pessoa que não a que ele se tornou. Mas não. Nunca desce. Ele pega o filho, ajeita o boné e vai embora. ______________________________________ Luiz Guilherme Piva publicou "Eram todos camisa dez" e "A vida pela bola" - ambos pela Editora Iluminuras Milly Lacombe Curiosidades, acertos e erros do Paulistão feminino Ronaldo Lemos E se aposta na inteligência artificial estiver errada? Josias de Souza Intimado a cassar Zambelli, Motta faz do teatro escárnio Sakamoto Dosimetria livra criminosos melhor que facções Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Juca Kfouri por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Corinthians: Gaviões é liberada no estádio após punição ser suspensa Homem desarma atirador de ataque terrorista na Austrália; veja vídeo 'Foi um banho de sangue', diz sobrevivente do ataque a festa judaica Intimado a cassar Zambelli, Motta faz do teatro escárnio Placa vermelha e 'rodízio eterno': regras de mototáxi rejeitadas pela Uber