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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte No Haiti, Copa vira reencontro de alguma felicidade com um país sem paz Julio Gomes Colunista do UOL, em Porto Príncipe (Haiti) 18/06/2026 10h30 Deixe seu comentário Moradores caminham por uma rua enquanto fogem de suas casas em Cité Soleil, após confrontos entre gangues rivais na capital do Haiti Imagem: Fildor Pq Egeder/Reuters Um tanque. Ronaldo, Ronaldinho, lágrimas, sorrisos, histeria, miséria. Esperança. Um jogo de futebol, o "Jogo da Paz" talvez tenha sido o único momento positivo de todo um país ao longo de décadas. O Haiti não é aqui, cantou Gilberto Gil. O Haiti é somente no Haiti. E é justo dizer que nenhuma terra pagou um preço tão alto pela existência quanto esta. O UOL Esporte desembarcou hoje no Haiti. Em tempos de Copa do Mundo, o jornalismo respira junto com os novos tempos da comunicação e precisa seguir em busca da informação, ainda que em lugares em que recomenda-se não estar. O Brasil x Haiti da Copa-2026 vivido sob um outro ângulo, o haitiano, precisa ser contado. É isto o que farei nos próximos três dias. PVC Brasil pode ter Endrick ou Matheus Cunha no ataque Mônica Bergamo Lula já ensaiou resposta sobre Jaques Wagner Sakamoto PF desmonta mimimi de que persegue bolsonaristas Gustavo Miller 'Dateflation': o amor em tempos de inflação chegou O Haiti é o único país soberano da face da Terra que teve sua independência conquistada e declarada por escravos. Historiadores estimam que, ao longo do século XVIII, 4 milhões de pessoas tenham sido forçadas a deixar diversas regiões da África para trabalhar e morrer para encher os bolsos dos colonizadores franceses. O ouro branco, o açúcar, e o café eram produzidos no Haiti, então a colônia mais rentável das Américas. Em 1793, na esteira das ideias da própria Revolução Francesa, começou uma revolução de escravos que, entre idas e vindas, alianças feitas e desfeitas, traições, envolvimento de atores externos (Inglaterra, Espanha, Estados Unidos), confrontos internos, febre amarela, sangue e mortes, acabou na declaração de independência de 1804. O que veio depois disso foram anos, décadas, séculos, até, de sufocamento econômico. O Haiti não é o desastre que é hoje à toa. O Haiti não é o que é hoje por que o povo preto é indolente, incompetente e incapaz de se organizar e prosperar, como proclamavam os franceses. O Haiti é o desastre que é hoje porque, para as potências da época (e de hoje?), simplesmente não era uma boa ideia que escravos do mundo inteiro se inspirassem nos que haviam matado ou tocado os colonizadores para fora do Haiti. Assista aos jogos da Copa ao vivo no SBT pelo UOL Play. Assine agora a partir de R$ 14,90/mês Para a França reconhecer a independência do Haiti, 21 anos depois de tal independência ter sido conquistada de fato, na marra, o país caribenho precisou contrair uma dívida simplesmente impossível de ser paga. Uma dívida que se transformou em outras dívidas com bancos, adivinhem, franceses e norte-americanos. Dívidas estas que justificaram que os Estados Unidos tomassem o controle em 1925 e simplesmente limpassem os cofres do Banco Nacional do Haiti. Depois de ter vencido o poderoso o exército de Napoleão - com a providencial ajuda dos mosquitos, é verdade -, o Haiti foi roubado, bloqueado e penalizado por ser o que ele quis ser. Esta conta continua chegando até hoje. Nenhum governo para em pé. A democracia é um devaneio. Estabilidade, nunca existiu. As coisas no Haiti seguem sendo resolvidas da mesma maneira há 200 anos - com tiros, sangue e crueldade. Continua após a publicidade O Jogo da Paz precedeu anos da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti. O componente militar da missão foi liderado pelo Exército Brasileiro e comandado por oficiais brasileiros, o que fez do Brasil o país com maior protagonismo na operação. A escolha do Brasil se deu por uma combinação de fatores: sua tradição em missões de paz da ONU, sua liderança regional na América do Sul, a afinidade cultural e o interesse do então governo Lula em projetar o Brasil como potência diplomática global responsável. O mandato da missão tinha três pilares centrais: garantir um ambiente seguro e estável, fortalecer as instituições de justiça e Estado de Direito e apoiar o processo político e a promoção dos direitos humanos. Não é preciso dizer que deu ruim. O terremoto de 7,0 graus de magnitude em 12 de janeiro de 2010, que deixou mais de 220 mil mortos, não ajudou. É como se algum Deus detestasse aquele pedaço de terra. Em 2019, a Missão da ONU foi oficialmente encerrada. Outra está sendo planejada. O que pode ter sido o gatilho para o sequestro, na semana passada, do oficial de segurança de mais alto escalão do país. O Haiti vive hoje a barbárie. Uma espécie de guerra civil em que não se sabe bem quem luta contra quem e nem pelo quê. São gangues urbanas que lutam entre elas e deixam o governo da vez sitiado. Possivelmente o dinheiro da rota das drogas mova os principais atores. O país está praticamente fechado para pousos e decolagens, com algumas exceções. EUA e França fecharam suas embaixadas e declaram Porto Príncipe território proibido para seus cidadãos. Mas 12 milhões de pessoas acordam todos os dias no Haiti, 1,5 milhões delas em Porto Príncipe. E vivem suas vidas, de uma maneira ou de outra. Passados quase 22 anos daquele desfile dos Ronaldos para um milhão de pessoas nas ruas, Brasil e Haiti voltarão a jogar uma partida de futebol. Desta vez, uma partida de Copa do Mundo. Novamente, será só por um momento. Mas os haitianos irão sorrir. A seleção da pátria contra a seleção do coração deste país. De todos os modos, qualquer que seja o resultado, a vitória será do povo deste país, o mais pobre do nosso continente. E cada dia deste acontecimento será contado aqui nos canais do UOL . Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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