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Jürgen Klopp foi a escolha mais natural para comandar a Alemanha . Após três Copas do Mundo decepcionantes, a DFB buscou o melhor treinador alemão da atualidade. Porém, nem mesmo uma contratação desse tamanho poderia produzir uma transformação imediata.
Nos quatro primeiros jogos sob seu comando, a seleção alemã somou uma vitória, dois empates e uma derrota, todos pela Nations League . Um começo irregular, compatível com uma equipe que ainda procura seu caminho.
A estreia foi promissora, com bons momentos de futebol no empate por 1 a 1 com a Holanda , em Amsterdã. A derrota por 1 a 0 para a Grécia , em Augsburg, decepcionou. O triunfo por 2 a 0 sobre a Sérvia , em Munique, renovou a esperança do torcedor. Por fim, o empate sem gols com os gregos, em Tessalônica , encerrou a primeira sequência de partidas.
Klopp decidiu aproveitar sua primeira superData Fifa para testar e conhecer jogadores. Convocou 44 atletas, distribuídos entre dois grupos para as quatro partidas, com mudanças após os dois primeiros compromissos. A prioridade foi ampliar a avaliação do elenco, o que, na prática, fez com que ele não utilizasse um time ideal em nenhum jogo.
Ao todo, dez jogadores estrearam pela seleção alemã: Jonas Urbig (Bayern), Philipp Treu (Freiburg), Hennes Behrens (Augsburg), Yannik Engelhardt (Freiburg), Said El Mala (Köln), Mika Baur (Celtic), Bambasé Conté (Hoffenheim), Vitaly Janelt (Brentford), Derry Scherhant (Freiburg) e Younes Ebnoutalib (Eintracht Frankfurt). Perfis muito diferentes, que ajudam a explicar os objetivos desse primeiro período de trabalho.
Há o jovem promissor que finalmente recebeu uma oportunidade, caso de Urbig. Há também a busca por alternativas para a lateral direita, que abriu espaço para Treu, de 25 anos, em mais um reconhecimento ao ótimo trabalho do Freiburg nos últimos anos. Janelt, de 28, representa o jogador mais experiente chamado pela primeira vez. E Ebnoutalib, de 23, chegou credenciado pela ótima fase na Bundesliga .
Outros atletas, pelo talento que possuem, têm tudo para se tornar peças fundamentais deste ciclo, embora ainda estejam começando a escrever suas histórias na seleção. É o caso de Tom Bischof e Lennart Karl, a dupla do Bayern, responsável pelos gols contra a Sérvia.
Os resultados, portanto, precisam ser analisados nesse contexto. Klopp ainda está conhecendo os recursos disponíveis e construindo as bases de seu trabalho. A cobrança existe e faz parte do cargo, mas quatro partidas são insuficientes para avaliar o alcance dessa reconstrução.
A DFB errou ao manter Joachim Löw por tempo demais no comando. Hansi Flick poderia ter chegado antes e acabou sem conseguir a reação esperada. Julian Nagelsmann foi a aposta em uma renovação de ideias, que tampouco produziu o resultado desejado na Copa do Mundo.
A reconstrução também exige uma posição firme diante do racismo dirigido a jogadores da seleção. Ataques à cor da pele ou à origem familiar dos atletas, inclusive os explorados por setores da extrema-direita alemã, precisam ser combatidos. Klopp fez isso ao rejeitar manifestações preconceituosas e reafirmar seus valores. A cor da pele não define nacionalidade.
Dentro de campo, há talento, embora também existam carências. Jonathan Tah e Nico Schlotterbeck formam uma dupla de altíssimo nível na defesa. Joshua Kimmich continua entre os melhores do mundo em sua posição e tem boa companhia no meio-campo com Aleksandar Pavlović e Felix Nmecha . Nathaniel Brown tem espaço para evoluir no Bayern. Jamal Musiala e Florian Wirtz possuem talento de sobra. Kai Havertz já se provou no mais alto nível possível com o Arsenal.
Klopp terá muito trabalho, mas dispõe de peças suficientes para montar um bom time e recolocar a Alemanha entre as melhores seleções do mundo. Seu desafio vai além da organização tática e do Gegenpressing: passa também por recuperar a confiança e a mentalidade vencedora da equipe.
Sem Manuel Neuer , a seleção já não conta com campeões mundiais. Nas três Copas seguintes ao título de 2014, a Alemanha caiu duas vezes na fase de grupos e, na edição mais recente, foi eliminada pelo Paraguai no primeiro mata-mata. É uma sequência que pesa sobre a equipe e sobre a percepção que o país tem dela.
E Klopp não terá o dia a dia do clube para estar ao lado dos jogadores, conversar com eles e sentir tudo isso. Ele mesmo sabe que essa parte da tarefa lhe demandará adaptação, já que sempre foi parte fundamental de seu modo de trabalhar no Mainz, no Borussia Dortmund e no Liverpool.
Há ainda uma questão que merece reflexão: até que ponto a concentração de títulos na Bundesliga interfere na mentalidade competitiva dos jogadores alemães?
Boa parte do grupo atua ou se desenvolveu em clubes que raramente conseguem disputar o título com o Bayern. Os bávaros venceram 13 das últimas 14 edições do campeonato, um domínio sem precedentes na competição. Isso, por si só, não explica os problemas da seleção. Mas vale discutir o efeito de uma liga em que, para tantas equipes, superar o mesmo adversário parece um objetivo distante.
A capacidade de Jürgen Klopp é indiscutível. O tamanho do desafio também. Transformar talento em uma equipe capaz de voltar a vencer no mais alto nível exigirá tempo, escolhas e paciência. Provavelmente, este será o maior desafio de sua carreira.
*Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião da ESPN