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Pode uma pessoa com baixa visão fazer alguém enxergar além do que está vendo? Não é clichê. É Marcelo Gomes. E essa é a constatação a partir do seu novo trabalho de reportagem: “Rally dos Sertões: cada qual no seu tempo”, que estreia na ESPN neste domingo, 25, às 15h30 (de Brasília). Vinte e seis anos depois, o jornalista retornou à maior competição de rally das Américas. Foi a segunda vez que esteve na cobertura da prova de resistência, disputada desde 1993. Foram duas semanas intensas de trabalho, considerando a chegada da equipe da ESPN dias antes da largada oficial, em Goiânia, em 22 de agosto, a conclusão, também na capital de Goiás, no dia 30, e o retorno da turma para São Paulo com a missão cumprida e muita poeira na bagagem. O Rally passou por muitas mudanças desde 2000, considerando o ano de “estreia” de Marcelo Gomes na cobertura. Mudanças no percurso, na distância percorrida, no alcance, deixando de ser uma prova de “nicho esportivo do automobilismo” para alcançar o patamar já citado de maior rally das Américas. Também virou, indiretamente, um promotor das belezas escondidas do Brasil, ajudando no crescimento do turismo na região. Isso sem falar no salto que a tecnologia proporcionou. Mas nenhuma mudança foi tão radical quanto a que Gomes enfrentou. Em 2008, o jornalista natural de São Bernardo do Campo foi diagnosticado com retinose pigmentar, uma doença degenerativa que causa a perda progressiva da visão. No caso dele, a doença foi implacável desde o início. Ainda em 2008, ele perdeu completamente a visão do olho esquerdo, mantendo o olho direito como a única referência, embora encarando dia a dia uma perda significativa. Isso não o impediu de cobrir os Jogos de Londres, em 2012, e do Rio de Janeiro, em 2016, por exemplo. Nem mesmo de produzir especiais na ESPN do calibre de “A última cartada de Manga” (2020), “Salvem o craque, Salvem do Crack” (2021), “Cléber Santana: A Estrela Solidária” (2022), “Mulheres do Microfone” (2023), “Casemiro, o Pai de todos” (2024), “Ronaldinho: o Fenômeno descoberto” (2024), “Richarlison: o Pombo é gente” (2024) e “Abel, o Grande” (2025). Isso sem citar especiais que cuja produção e trabalho jornalístico pude dividir com ele, como, por exemplo, “50 anos do Milésimo gol” (2019), “Vítimas de Covid no Esporte” (2020-2021), “Barbosa: 100 anos de perdão” (2021), “Zizinho: 100 anos” (2021) e uma série de cinco documentários sobre o centenário do rádio no Brasil, em 2022. Mas a doença progrediu. Hoje, Marcelo Gomes conta com o auxílio de uma bengala longa, de cor verde. Para quem não sabe, essa é a cor usada para identificar a baixa visão. Na cobertura do Rally dos Sertões ela o ajudou, assim como dois pares de olhos fiéis: Jonas Alves e Ronney Mendes, repórter cinematográfico e assistente, respectivamente, parceiros 24 horas. O trabalho todo ainda contou com os jornalistas Igor Machado, na edição de texto e produção, e Andrei Salgueiro, na edição de imagens e finalização. Eles foram os outros olhos do jornalista, trabalhando em São Paulo, assim que a equipe voltou com todo o material gravado. Juntos, com a sensibilidade de Gomes mais afiada do que nunca, eles se aprofundaram no Sertão para trazer histórias de pessoas que não estão nas redes sociais nem na mídia, mas fazem a diferença diariamente. Casos do benzedor Valmir dos Santos e da aposentada Aurelina Ferreira, que acolheram a equipe e revelaram suas lutas. Além de um peão caçador e comedor de carne de onça. Eles também mostram como o Rally dos Sertões é capaz de oferecer cartões-postais de “cair o queixo”, como um dos fervedouros do Tocantins (piscinas naturais de água cristalina na região do Jalapão onde, por uma condição natural, é impossível afundar). E, claro, tem muito rally com todas as surpresas que uma prova desse tamanho proporciona. Só como spoiler: logo no início, um colaborador foi atacado por uma jararaca. Isso ocorreu no meio do “nada”, e a vítima precisou buscar socorro médico em até duas horas… Tem também os bastidores do rally. Como quem trabalha na retaguarda das equipes, prestando socorro e assistência. Afinal, muitos nem chegam a completar a prova, tamanho é o desafio. Marcelo Gomes vai te fazer enxergar tudo isso porque, independentemente do que a doença tem tirado dele, ele continua colocando a alma em tudo o que faz. Sendo amigo dele há praticamente dez anos, com a vantagem de acompanhar de perto todos os projetos que ele faz, me sinto à vontade para dizer que dificilmente o fã de esportes assistirá a algo mais bonito, mais agradável e mais divertido e também emocionante do que o especial “Rally dos Sertões: cada qual no seu tempo”. Talvez, vai terminar com poeira na boca e lágrimas nos olhos. Especial: Rally dos Sertões: cada qual no seu tempo Estreia na ESPN: 25 de outubro de 2026, às 15h30 (de Brasília) Também disponível no plano premium do Disney+