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Memphis Depay abriu os braços e olhou para o árbitro como se algo inadmissível tivesse acontecido. A bola que Pablo Maia lhe tomou num desarme limpo já estava do outro lado do campo, e só não terminou no gol do Corinthians porque Angileri evitou, a um passo da linha. É um lance apenas, um recorte mínimo no emaranhado de ações que compõe um jogo de futebol, mas que ilustra, em todos os detalhes, o problema técnico em que Memphis se converteu desde que seu contrato foi renovado. Além de não haver lugar para ele no time, sua presença é um risco para a tarefa de evitar o rebaixamento nas últimas rodadas do Campeonato Brasileiro .
Não deixa de ser irônico que o jogador que recebeu o contrato mais pornográfico da história do futebol brasileiro tenha se submetido a um processo de renovação em que aceitou diminuir sua remuneração e o fim de regalias absurdas. O Memphis que retornou ao Corinthians após a Copa do Mundo é – tal qual o compromisso que assinou – uma versão reduzida do que havia antes. O que se percebe em campo, quando ele está, é alguém que se comporta como se quisesse mostrar ao clube que o salário menor e a perda de status têm um custo técnico. Como se o Corinthians, ao resolver trocar o ‘Memphis Premium’ pelo ‘Memphis Light’, fosse o responsável pela diminuição dos serviços.
Foi para isso que a chamada ‘mídia corintiana’ – que se julga representante da torcida e argumenta conhecer o corintianismo com mais profundidade do que quem, por dever profissional, precisa analisar fatos com distanciamento – lutou tanto? Não deveria ser surpresa que um jogador que age como se fosse uma instituição associada ao clube seja visto por companheiros de maneira desconfiada, a partir do momento em que demora tanto a se apresentar em mínima forma física. Uma constatação óbvia, mas custosa para muitos. Pelo caminhar das coisas, Memphis corre o risco de ser como aquele candidato em que ninguém votou, mas venceu a eleição.
O problema mais grave não é encontrar um lugar no time para um terceiro jogador, além de Garro e Kaio César, que não participa do intenso trabalho defensivo. Ninguém, em qualquer lugar onde o futebol é competitivo de verdade, atua assim. O Memphis pós-Copa, o ‘Memphis Light’, é um jogador que não joga nem mesmo quando joga, um jogador que representa uma desvantagem técnica para um time a caminho da Série B do Brasileirão . A soma de suas carências atuais se mostra num desarme que é produto da visível lentidão e resulta num quase gol do rival, sequência que ele observou com braços abertos e absoluta indiferença defensiva.
A quatro rodadas do encerramento do campeonato, o Corinthians se vê numa encruzilhada que descreve um clube que assiste à própria destruição: o jogador milionário, de grife, apresentado como ídolo de uma torcida que nunca se conectou com perfis desse tipo, chegou ao ponto em que já ajuda se não atrapalhar. Não dá mais tempo para gastar um pouco mais e ativar a versão premium. É melhor pagá-lo, em milhões, para não jogar.
*Este conteúdo não representa, necessariamente, a opinião da ESPN