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O Maracanã não é de todos. Não mais. Hoje está cedido a Flamengo e Fluminense pelo Governo do Estado, por força de sua própria incompetência para gerir o aparato, pela bagatela de R$ 20 milhões ao ano. Hoje, o Vasco precisa brigar para jogar lá. E o Flamengo precisa espernear para não deixar. Quem está certo? Os dois. Errado é o que fizeram com o Maior do Mundo.
Quando escrevo os dois, não há intenção de pular para cima do muro. Mas é elementar e indiscutível que ambos os lados têm argumentos justos para suas posições. O Flamengo jogará uma semifinal de Libertadores possivelmente com um gramado no bagaço. Afinal, serão três jogos em seis dias - quatro se contar o tempo de aquecimento das equipes no local. E o Vasco quer seu direito fundamental, que não deveria nem precisar ser discutido, de jogar no Maracanã.
Mas por que o estádio se tornou o centro de tanta briga entre as instituições? E não só com o Flamengo; não custa lembrar a arrastada rusga pelo lado da arquibancada a ser ocupado pelos vascaínos em partidas contra o Fluminense. O Maracanã do povo, da geral, um estádio com alma, se converteu na arena pasteurizada, incapaz de resolver sozinha a falta de alternativas de alto padrão no Rio de Janeiro. É o Maracanã em que os seguranças da área central da arquibancada, transformada em setor de luxo, te obrigam a sentar.
O real problema não está no uso do Maracanã, está na falta de opções por conta da falta de estrutura e planejamento dos próprios clubes. O Maracanã foi concebido para uma Copa do Mundo, e sucumbiu à reformulação para a segunda. Alçado a um patamar mítico como palco de grandes jogos, enquanto duelos de menor porte aconteciam na Gávea, nas Laranjeiras, no Caio Martins, em São Januário. Somente o último sobrevive como abrigo para partidas profissionais, mas ainda assim não é suficiente para receber jogos decisivos internacionais. O Maracanã há tempos deixou de ser democrático, não somente na arquibancada.
A reforma para a Copa do Mundo criou um estádio muito diferente do que era o que todos nós, de cabelos grisalhos, conhecíamos. O foco passou a ser dinheiro. A alma virou hospitalidade, com direito a bufê. A geral traduz saudade. Não que tudo fosse uma maravilha, longe disso, caótico em várias ocasiões não seria um exagero, mas era uma construção que pulsava com vida própria. Era sagrado. O local da missa de domingo para cada adepto, independente de classe, das quatro maiores "religiões" do Rio.
Vários sinais, até hoje não apagados, mostram como o planejamento da reforma foi pensado para um evento, não para a eternidade que permeia qualquer história que se conte do Maracanã. Vou puxar essa sardinha para o meu lado. Por exemplo, alguém sabe onde fica a sala de imprensa do Maracanã? Ela não existe. As coletivas já foram feitas em auditório, puxadinhos, salinhas onde os profissionais sentavam pelo chão, mas o local para isso era uma estrutura temporária.
Em abril de 2019, quando já circulava a proposta de Flamengo e Fluminense para a gestão do Maracanã, o Vasco apresentou também uma iniciativa que envolveria também os dois e o Botafogo, numa administração conjunta pelos quatro grandes do Estado. Não avançou. Em uma reunião na Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj) ficou claro que o Flamengo desejava o protagonismo na gestão do estádio.
Naquele mesmo mês, o então presidente vascaíno, Alexandre Campello, disparou:
— Sendo um chaveiro pendurado na calça deles? O Vasco tem que participar da gestão, o Vasco não quer esmola de querer jogar em estádio, o Vasco tem estádio. Se o Fluminense se submete a isso, é uma escolha do Fluminense. O Vasco não aceitou ser subalterno, não participar das decisões — disse ao Ge, na época.
Muita coisa aconteceu daí para frente. Inicialmente, a parceria entre os rubro-negros e o Fluminense chegou até como surpresa, mas, no fim das contas, prevaleceu o poderio da união desses dois clubes, que casava com o entendimento do governo de que, sem o Flamengo, o prejuízo seria certo, ou pelo menos muito provável.
A guerra de narrativas, e decisões judiciais, atual, é só mais um capítulo. O Vasco, ao que parece, ganhou o cabo de guerra jurídico e terá garantido o seu direito fundamental de usar um estádio que foi concebido para todos, e acabou corrompido por um padrão que nada tem a ver com a maneira do brasileiro torcer. O reflexo disso tudo entra em campo vestindo amarelo, e já não mete mais medo em ninguém.
O governador eleito, Douglas Ruas, já se apressou em dizer que buscará um consenso, mas não mexerá na concessão. Ainda não se sabe qual é o plano, porque consenso quando se fala de clubes é quase uma utopia, tanto é que a briga atual emana justamente do que deveria ser um memorando de entendimento.
Manter o racha já foi política institucional. Quem conhecia Eduardo Vianna, o Caixa D'Água, longevo no cargo de presidente da Ferj, bem antes dessas reformas, sabia de um dos princípios mais fundamentais da sua forma de administrar: jamais deixar os quatro grandes se unirem. Tinha convicção de que perderia o controle se isso acontecesse. E até hoje os dirigentes, ao que parece, não percebem que a falta de união interessa a todo mundo, menos a eles.
Então, como chegar a um consenso sobre um estádio que sofre para entregar um gramado razoável com dois mandantes? Que, pelo menos, não venha um entendido defender grama sintética em terra sagrada. Tudo tem limite.