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Futebol Epidemia mortal de opioides conviveu lado a lado com Copa nos EUA Pedro Lopes Colunista do UOL, em Nova Jersey (EUA) 20/07/2026 12h00 Deixe seu comentário 0:00 / 0:00 Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× A Copa do Mundo não paralisou nem escondeu a epidemia dos opioides nos EUA. Ela continuou, e não foi preciso ir longe do MetLife Stadium, palco da final entre Argentina e Espanha, para ver e sentir seus efeitos - mesmo os mais extremos. Os opioides são analgésicos potentes e extremamente viciantes. Pertencem à categoria, por exemplo, a morfina e a heroína. A crise norte-americana se aprofundou com a entrada no país do fentanil, opioide sintético 100 vezes mais potente que a morfina. Em 2023, auge da crise, foram 110 mil mortes por overdose no país. Os números vêm caindo desde então, mas seguem altos: a estimativa do Center for Disease Control (CDC) para 2025 é de pelo menos 70 mil mortes. Juca Kfouri Copa machucou o futebol por interesses econômicos Arnaldo Ribeiro Argentina sem Messi é uma interrogação para o futuro Ricky Hiraoka Copa: quem se deu bem e quem se deu mal na TV Carla Araújo Ala do STF vê diferença em casos de Lula e Bolsonaro A menos de 30 minutos de East Hanover, em Nova Jersey, - cidade em que a campeã do mundo Espanha treinou para a final contra a Argentina - fica Paterson, uma cidade afetada pelos opioides. Antigo polo industrial, Paterson viu sua economia entrar em decadência a partir da desindustrialização na década de 70. Hoje, tem uma taxa de pobreza de 21,5%, mais do que o dobro da média nacional. A cidade tem 29% da população do condado de Passaic, em Nova Jersey, mas responde por 55% das internações relacionadas a opioides. A reportagem do UOL passou um dia no centro de Paterson, onde há usuários de heroína nas ruas, mesmo durante o dia. A maioria das overdoses acontece nessa região, que corresponde a 2% do território. Quiosque de naloxona oferecido gratuitamente aos usuários de opioides Imagem: Pedro Lopes/UOL Nos terminais de ônibus e em algumas esquinas da cidade há quiosques, parecidos com os que vendem jornais, mas que oferecem o medicamento naloxona. Também conhecido como Narcan, é um antídoto para overdoses de opioides. Os medicamentos são gratuitos, e ficam disponíveis para a população local. Dentro dos quiosques, há dezenas de caixas, com um alerta: "revenda proibida". Grupos de jovens passam e retiram algumas caixas. Continua após a publicidade Tudo isso acontece sob olhares da polícia, que não esboça nenhuma reação. Os esforços de acolhimento, tratamento e redução de danos são feitos por organizações. Na linha de frente do combate aos efeitos do opioides No epicentro da crise em Paterson, fica a Eva's Village, uma entidade fundada em 1982 que ocupa quase três quarteirões. Ela promove atendimentos médicos, tratamento para abuso de substância, acompanhamento psiquiátrico, alimentação e ajuda à população vulnerável da cidade a se recolocar na sociedade. A reportagem visitou o local em uma quinta à tarde: havia dezenas de pessoas aguardando atendimento. Dias depois, a direção topou conversar para explicar o trabalho. "As pessoas que entram em tratamento geralmente carregam traumas, vergonha e luto. Elas relatam diferentes históricos de abuso, doenças mentais ou até mesmo rejeição. Por isso, nós, como profissionais, não devemos demonstrar nenhum tipo de julgamento contra elas. Quando as recebemos com julgamento, o engajamento com o tratamento diminui, a retenção diminui e o risco de overdose aumenta", explica Ruth Jean Marie, chefe de serviços clínicos e compliance da Eva's Village. Usuário de opioides em Paterson, Nova Jersey (EUA) Imagem: Pedro Lopes/UOL Continua após a publicidade "O que queremos fazer como profissionais é sempre acolher com dignidade e respeito. Queremos que eles se sintam seguros conosco. Queremos criar um ambiente de compaixão e empatia, para que eles realmente entendam que estamos aqui para acolhê-los exatamente onde e como eles estão", explica. Há 20 minutos dali, em Newark, fica o North Jersey Community Research Initiative. O NJCRI também opera em Paterson no atendimento de pessoas em situação de rua e abuso de substâncias, e recebeu a equipe de reportagem no seu centro de acolhimento. A enfermeira Dana Robertson, do NJCRI explica que, para enfrentar o problema, é necessário ir além do tratamento ao abuso de substâncias. Cada uma das pessoas que enfrenta a dependência teve um caminho e uma razão que a levou até ali. "Se você não tratar a causa raiz, não adianta. A maconha não é a porta de entrada para as drogas, o trauma é. Você não vai parar num lugar como este porque estava se divertindo. Você não vem parar aqui por causa de um fim de semana ruim. Tipo, tem algo errado. (Para tratar) temos que chegar à raiz disso. Eu acho que é aí que a gente realmente falha". O Eva's Village atende mais de 3 mil pessoas em situação de abuso de substâncias por ano, além de oferecer mais de 20 programas e servir mais de 300 mil refeições por ano à população vulnerável de Paterson e Nova Jersey. Organização Eva's Village atende pessoas em vulnerabilidade em Peterson, Nova Jersey (EUA) Imagem: Pedro Lopes/UOL Continua após a publicidade O NJCRI é uma das maiores organizações de apoio a pessoas em situação de vulnerabilidade em Nova Jersey, com um custo de cerca de 18 milhões de dólares anuais em seus programas. Epidemia começou dentro dos consultórios A epidemia dos opioides nos Estados Unidos começou dentro dos consultórios, com o desenvolvimento de analgésicos a base deles pela indústria farmacêutica e mais de uma década de prescrições descontroladas, principalmente entre 1996 e 2012. "Algumas das pessoas que você vê em Paterson começaram sofrendo uma lesão jogando bola no colegial. Receberam prescrição de opioides e, quando os opioides acabaram, o que vem a seguir? A pessoa compra alguns comprimidos na rua, mas descobre que é mais barato comprar um saquinho de heroína do que conseguir um frasco de comprimidos. Acho que muitas dessas pessoas provavelmente olham para trás e dizem: 'Meu Deus, eu não tinha ideia de que isso poderia levar a isso'. Mas agora elas já estão viciadas. É toda uma geração", diz Dana Robertson, do NJCRI. As prescrições e vendas de opioides quadruplicaram nos EUA entre 1999 e 2010. Em 2000, as vendas do mais conhecido desses medicamentos, o Oxycontin, totalizaram mais de um bilhão de dólares. O CDC declarou oficialmente que as overdoses de opioides eram uma epidemia em 2011, mas o endurecimento das regras foi gradual, até 2016. Continua após a publicidade Parte da população afetada já tinha migrado para a heroína, mas o grande agravante foi a entrada nos EUA, a partir de 2013, do fentanil, opioide sintético 50 vezes mais potente do que heroína. Ele é barato, tem origem ilícita e descontrolada e é fácil de encontrar. "O fentanil se tornou um fator de enorme contribuição para a crise. Eu diria que ele mudou dramaticamente o cenário de abuso de substância no país. E como ele tem origem ilícita, as pessoas ao usarem não estão mais usando só uma substâncias, estão usando drogas que podem incluir outras substâncias também", diz Ruth Jean Marie, do Eva's Village. Em 1999, o Fentanil causou 3 mil mortes nos EUA. Em 2023, esse número tinha saltado para 72,7 mil mortes. Ele e outros derivados sintéticos são hoje responsáveis por 69% das mortes por overdose do país. Por ter origem ilegal e sem controle sobre o conteúdo, o fentanil também intensificou a necessidade de políticas de redução de danos. O NJRC oferece, por exemplo, seringas limpas e novas para evitar a disseminação de doenças. "São ferramentas de redução de danos. Eles podem começar um tratamento, mas podem também nos entregar as seringas sujas, para que não fiquem jogadas nas ruas para outros. Nos as descartamos, e damos a eles seringas limpas", diz Dana Robertson. "O fentanil adulterado às vezes causa feridas terríveis, e exigem que você intervenha, as limpe, ajude a cicatrizar, para que eles não percam uma perna, além de perderem a vida para o vício. Às vezes você precisa acolhê-los, encontrá-los onde eles estão, onde é possível", completa. Continua após a publicidade As políticas de redução de danos ainda são alvo de estigma e desaprovação por parte da população. Para Dana, é parte do trabalho possível em um país assolado por uma epidemia. "Tenho certeza que algumas pessoas podem desaprovar, mas qual a alternativa? Devemos abandonar toda uma geração de pessoas? Por que é isso que está acontecendo. Estamos perdendo pessoas", finaliza. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash As mais lidas agora Fim da era Messi? Colunistas debatem futuro da Argentina sem o gênio Justiça decreta prisão de advogado que atropelou motociclista 2 vezes em SP Assoalho pélvico forte melhora postura, sexo e saúde; veja 3 exercícios Luiza Zveiter recorda sequelas após bariátrica: 'Perdi vários dentes' Kevin Keegan, ídolo inglês e duas vezes Bola de Ouro, morre aos 75 anos