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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte O futebol masculino deve a vida ao feminino e é hora de acertar essa conta Milly Lacombe Colunista do UOL 11/08/2026 12h50 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× O Futebol Feminino no Brasil: entre festas, circos e subúrbios Imagem: Divulgação Tenho recebido muitas mensagens pelas redes sociais de homens incomodados com a paralisação dos campeonatos masculinos durante a Copa do Mundo das mulheres, que acontece no Brasil entre 24 de junho e 25 de julho de 2027. Ia parar tudo, mas a CBF voltou atrás e vai interromper apenas as séries A e B. O recuo animou alguns: então, por favor, não nos deixem sem o futebol dos machos das séries A e B também. Uma das mensagens que recebi dizia: "Eu sou a favor do futebol feminino, só não entendo por que a Copa precisa parar o calendário masculino". Ser a favor do futebol feminino é uma opinião que não tem relevância e que carrega, em si, machismos. Não se trata de ser a favor ou contra. Esse tipo de opinião coloca toda a atenção no homem que a emite e nenhuma no que de fato está acontecendo. Não é sinal de caráter ser a favor do futebol feminino. É como dizer que é a favor do amor e sair por aí cometendo violências. Ninguém diz: sou a favor do futebol masculino. O futebol masculino é uma realidade. Podemos gostar ou não do jogo, mas fazer o recorte de gênero para tecer comentários excludentes contém machismo. A Copa do Mundo das mulheres chega ao Brasil e qualquer pessoa minimamente interessada em justiça social deveria defender que tudo pare. É chegada a hora da reparação histórica. Adriana Negreiros Homoerotismo e a relação entre poder e Vorcaro A Hora Teto e piso se encontram para Flávio e Lula PVC Fla segue líder? Meus palpites sobre a rodada Rodrigo Ratier Importar megaprisão de Bukele é 'perigo', diz estudo O futebol masculino se desenvolveu nas costas do feminino. Foram seguidas decisões políticas tomadas por homens em todas as instâncias que decidiram que o feminino seria eclipsado para que o masculino prosperasse. No começo de tudo, mulheres e homens jogavam. Jogos femininos levavam multidões aos estádios. O livro "futebol Feminino no Brasil: entre festas circos e subúrbios. Uma história social", da pesquisadora Aira Bonfim, conta em detalhes, com documentos e imagens, a história do que aconteceu entre 1915 a 1941, quando o esporte foi proibido por lei para as mulheres no Brasil. Enquanto isso, uma Copa Feminina era realizada no México em 1971 com absurdos índices de sucesso. Logo depois, a FIFA decidiu que bastava. Chega de mulher jogando bola, não faremos mais isso, vamos nos concentrar nos machos. Tudo contado no documentário "1971", que você pode ver na Netflix. Quem se opõe à paralisação dos campeonatos masculinos para que as mulheres fiquem com toda a atenção está dizendo que essa história de apagamentos não importa. Que o sequestro do direito das mulheres jogarem bola não importa. Que o masculino não precisa ser prejudicado em nome do feminino. Que os departamentos de futebol dos clubes não precisam bancar o feminino com a grana do masculino. Vocês chatas que lutem. Queremos ver nossos machos correndo atrás da bola o ano inteiro. Vão brincar pra lá. A infantilização do futebol feminino é ferramenta machista, usada por ditos "aliados" que falam entre sorrisos, cometendo violências passivo-agressivas, a fim de explicar usando de suposta razoabilidade o pensamento preconceituoso vestido de falsa lógica. O futebol masculino deve tudo às mulheres. São elas que apoiam emocionalmente os tais craques que encantam tantos homens. Elas que fornecem a eles um lar, amparo, filhos, cuidado. É sobre o corpo delas que alguns descontam suas frustrações. São as mães desses atletas que fizeram a maior parte dos sacrifícios para que eles hoje pudessem brilhar - e acho que nenhum deles teria a ousadia de desmentir esse fato. Vai parar tudo sim. Vai parar indústria, comércio, trânsito, escola, universidade. Ninguém é obrigado a assistir mulher jogar bola, mas, sendo visitado por um pingo de justiça social, o incentivo irrestrito à Copa do Mundo no Brasil, com apoio à paralisação de todos os demais torneios, seria a única alternativa decente. Mas a atitude parece ser esforço demasiado para alguns, que seguem chorando pelo sagrado direito de continuar torcendo por seus homens. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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