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Só para assinantes Assine UOL Reportagem Árbitros de futebol enfrentam formação precária e ingerência das federações Juca Kfouri Colunista do UOL 12/01/2026 16h59 Deixe seu comentário Imagem: Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP Carregando player de áudio Ler resumo da notícia POR ENRICO DI GREGÓRIO/ Revista Pesquisa FAPESP Estudos evidenciam também a instabilidade profissional e a dificuldade de acesso para profissionais negros Em 2025, 65% dos espectadores do Campeonato Brasileiro rejeitaram a arbitragem dos jogos. Eles apontaram problemas como falta de critérios (51%), de preparo técnico (34%) e de transparência nas decisões tomadas pelos juízes (32%), além de favorecimento de clubes (50%), segundo levantamento do instituto de pesquisa Atlas Intel divulgado em outubro. Daniela Lima Trump tenta naturalizar postura de imperador Reinaldo Azevedo Regime do Irã é detestável, mas Trump é a solução? Luciana Bugni Reconhecimento a Wagner Moura é para poucos José Trajano Luciano revela tamanho do drama do São Paulo A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) cancelou em 2023 a construção de um centro de treinamento exclusivo para árbitros alegando restrições orçamentárias, embora tenha arrecadado mais de R$ 1 bilhão naquele ano. A obra era uma reivindicação da comissão de arbitragem da própria confederação, na época chefiada pelo ex-árbitro Wilson Luiz Seneme. Agora, a CBF volta a se movimentar, tendo criado um Grupo de Trabalho (GT) de Arbitragem em novembro para treinar, capacitar e contratar árbitros até o início de 2026 - uma antecipação do plano original, que tinha como prazo 2027. Revisar as condições de formação e profissionalização dos árbitros no Brasil é uma demanda antiga, segundo Gabriel Correia, professor da Faculdade de Administração da Universidade Federal Fluminense (UFF), campus de Macaé. Ele é o primeiro autor de um artigo publicado em 2024, na revista Organizações & Sociedade , da Universidade Federal da Bahia (UFBA), sobre a questão. O trabalho traz entrevistas realizadas por Correia com 21 ex-árbitros - 19 homens e duas mulheres - que atuaram entre os anos de 1960 e 2000 vinculados à Federação Mineira de Futebol (FMF). No artigo, os pesquisadores destacam que a falta de preparo, a desarticulação da classe, a hegemonia de entidades, a falta de estrutura, a dupla jornada, a retaliação e a vulnerabilidade à violência estão entre os principais problemas da profissão. "O árbitro é muito exigido do ponto de vista profissional, físico e mental, mas não tem suporte profissional para isso. Alguns precisam pagar do próprio bolso a academia de ginástica, o nutricionista, os médicos e os psicólogos, por exemplo, para que se mantenham no nível de atletas de elite", diz o pesquisador. O artigo "The mental health of sporting officials: A systematic review and meta-analysis", publicado em setembro na revista Sports Medicine , mostra que os problemas de saúde enfrentados por árbitros não são circunscritos ao Brasil. Vinculados a universidades australianas, os autores analisaram 26 estudos sobre saúde mental com um total de 11.618 árbitros, sobretudo de futebol, de vários países da Europa, Ásia, América do Norte, América do Sul e Oceania. Segundo o levantamento, 19% deles têm sintomas elevados de ansiedade e 21% de depressão. O estudo identifica como principal fator de risco a pressão de torcedores e atletas, que afeta de forma mais pronunciada árbitros em início de carreira. A pesquisa mostra ainda que ligas e federações oferecem pouco apoio estruturado, contribuindo para o desgaste psicológico e a evasão da categoria, com uma média de 20% a 35% de árbitros que interrompem ou abandonam a profissão após uma temporada. Para Correia, é fundamental que os árbitros tenham contrato profissional estabelecido com as federações ou a CBF. "Esse documento oferece estabilidade do ponto de vista financeiro e uma proteção a mais contra a ingerência política e contra o autoritarismo das entidades de organização do futebol, embora nenhum contrato proteja totalmente o trabalhador dessas questões." Continua após a publicidade Atualmente, os árbitros da série A recebem entre R$ 3 mil a R$ 7 mil por jogo, a depender da categoria e da função exercida, mas esse valor se reduz de forma significativa em outras séries e campeonatos amadores. "Na série C e a depender da categoria, um árbitro recebe em torno de R$ 1.120 por jogo e em torneios amadores o valor fica entre R$ 300 e R$ 800", comenta Correia. Os pagamentos sofrem descontos de impostos de renda e previdência social, fora os custos da profissão, mencionados acima. E, como não há contrato, o rendimento depende da frequência de jogos. Mesmo entre os árbitros famosos, a remuneração pode cair em mais de 50% de um mês para o outro. A proteção contra a ingerência e a perseguição também são aspectos importantes. "Durante a pesquisa, alguns dos entrevistados só aceitaram apontar problemas da profissão porque estavam aposentados", diz Correia. Uma retaliação comum é o ato de "colocar na geladeira" - punição silenciosa que consiste em não convocar mais o árbitro para partidas de determinados times e campeonatos sem nenhuma justificativa, prejudicando a carreira e a remuneração. No universo da arbitragem, as dificuldades são mais pronunciadas para pessoas negras, segundo a tese de doutorado do antropólogo João Benedeti Morales, defendida em 2025 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A começar pelo acesso. O pesquisador verificou que, dentre 352 profissionais analisados no banco de cadastros da CBF, 113 eram negros e 240 brancos, uma média de 32%. Dos 43 árbitros do estado de São Paulo, somente 8 eram negros. "No futebol, os negros são muito valorizados enquanto jogadores, mas não em posições de comando como árbitros, dirigentes e técnicos", diz Morales. Em 2023, 57% dos jogadores da elite do futebol brasileiro eram pardos ou pretos. As federações não disponibilizam dados sobre a proporção de árbitros negros, brancos e pardos. Durante a pesquisa, após ligar para várias entidades em busca de dados, Morales precisou acessar o portal on-line de árbitros da CBF, selecionar a imagem de cada um dos juízes e submetê-las a uma análise de heteroidentificação - para verificação racial - e concluir o trabalho. A tese de Morales também mostra que a formação de árbitros é desigual e que há mais negros em ligas amadoras, o que também pode estar relacionado com as desigualdades sociais. Correia concorda. "Uma das grandes questões relacionadas é a dupla função, que afeta os árbitros desde a formação", diz o pesquisador da UFF. "Já nos cursos de capacitação, cada candidato precisa comprovar para as federações que tem outra profissão." Segundo as federações, o intuito dessa comprovação é que os árbitros demonstrem a inexistência de dependência da remuneração dos jogos, mesmo que, na realidade, muitos sobrevivam da atividade. "Nesse modelo de formação fica bem claro que os árbitros que têm melhores condições financeiras e estrutura familiar vão ter mais chance de despontar na formação e na carreira", prossegue Correia. "Alguns candidatos até dizem no formulário que têm alguma profissão liberal, mas na verdade não têm. Só conseguem se dedicar exclusivamente à formação com apoio da família." Continua após a publicidade Ciente dessa realidade, o cientista social e ex-árbitro Álvaro Quelhas, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), criou o projeto Apito Jovem em 2019. "A ideia era dar oportunidade para jovens em situação de vulnerabilidade social e mostrar que existem alternativas no mundo do futebol para além da carreira de jogador", comenta. O projeto funcionou até 2023, formou alunos e colocou-os para apitar jogos em torneios na UFJF e campeonatos locais. A inspiração veio da Inglaterra, que é referência na profissionalização de árbitros. Naquele país, qualquer pessoa a partir dos 14 anos pode iniciar esse processo, fazendo testes de aptidão física, cursos on-line e presenciais e atividades de mentoria. Depois, os alunos passam por uma qualificação inicial para serem classificados em um sistema de 13 níveis - do 10 (considerado o mais básico) ao 1 e os níveis "elite" - e progridem a partir de mérito, exames, treinamento contínuo e observações controladas pelas associações de árbitros. "Precisamos investir em ideias como essas no Brasil", defende Quelhas. Artigos científicos CORREIA, G. et al . O árbitro não é empregado, mas ele tem todas as relações de subordinação: O trabalho precarizado do árbitro no futebol brasileiro . Revista Organizações e Saúde . v. 31, n. 110. 2024. LINDSAY, R. et al . The mental health of sporting officials: A systematic review and meta-analysis . Sports Medicine . v. 55, n. 12. 2025 Reportagem Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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