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A intuição de uma mãe pode mudar o destino de um filho. A professora de alfabetização Giane Delfim nunca se esquecerá de quando não deixou que Gabriel Delfim se mudasse para o Rio de Janeiro para defender as categorias de base do Flamengo , em 2018.
A grande oportunidade da vida do garoto, com 15 anos à época, de trocar a Portuguesa Santista por um dos maiores clubes do país parecia escorrer pelos dedos. E sem nenhuma justificativa.
“Um empresário viu ele jogando e falou da possibilidade de ir para o Flamengo. O professor Élder Campos (técnico da Briosa) até veio conversar comigo: ‘Não, deixa ele ir’. Mas eu não quis. Alguma coisa trancou dentro de mim e eu falei: ‘Não, para o Flamengo ele não vai’”, declarou Giane, à ESPN .
Meses depois, no dia 8 de fevereiro de 2019, aconteceu o incêndio nos contêineres usados como alojamento para a base rubro-negra no Ninho do Urubu. Ao saber da notícia, Giane sentiu uma mistura de alívio - por não ter liberado o filho - e uma profunda tristeza. Um dos dez garotos que faleceram no incêndio era Rykelmo de Souza Vianna, que havia jogado com Delfim na Portuguesa Santista.
“A gente não imagina que o menino que você conhece vai morrer num incidente desse. Fico imaginando se o meu filho estivesse lá, acho que eu não sei que sentimento eu teria. Foi muito angustiante essa espera de uma notícia e me coloco no lugar da mãe dele”, acrescentou.
Pouco tempo após o interesse do Flamengo, o técnico Leandro Zago, do time sub-17 do Atlético-MG à época, viu por acaso um vídeo no YouTube com os melhores lances de Gabriel Delfim pela Portuguesa Santista. Logo em seguida, o Galo chamou o adolescente para fazer testes.
Giane sentiu que ali seria o lugar certo para o filho dar o salto na carreira e não criou qualquer obstáculo para a mudança de casa. A atuação de gala contra o Santos pelas quartas de final da CONMEBOL Sul-Americana , quando defendeu três penalidades, mostrou que ela estava certa...
Incentivado por Giane, Gabriel começou a carreira no futsal do Aymoré, em Santos, aos quatro anos. A ideia da mãe era que o filho deixasse de ser tímido e se soltasse um pouco com a prática esportiva.
Nos dois primeiros meses de treinos, porém, o efeito foi reverso. Delfim, que jogava na linha, chorava todos os dias e inventava dores. Mesmo assim, não queria largar as quadras. Depois de muita insistência da mãe, o garoto revelou que gostaria mesmo era de ser goleiro.
“O técnico Ná (Ivonaldo Aluísio) achou que o Gabriel tinha jeito e foi nesse momento que ele começou a jogar no gol”, revelou Giane.
Além das defesas, Delfim se destacava no futsal pelo jogo com pés, sendo utilizado muitas vezes como goleiro-linha. Artilheiro, ele marcou dois gols numa mesma partida pelas quartas de final do Estadual contra o time de Mogi das Cruzes no ginásio Presidente Ciro II, em São Paulo.
Outra característica que a torcida do Galo conheceu sobre Delfim já estava presente. “Teve um campeonato que ele pegou quatro pênaltis em um jogo de mata-mata”, contou Giane.
O jovem passou depois pelo futsal do Santos , onde treinou com nomes como Rodrygo ( Real Madrid ) e Yuri Alberto ( Corinthians ). Como não era muito aproveitado na equipe alvinegra, foi para o Ocian Praia Clube, de Praia Grande, quando começou a transição para o campo.
Ele ainda jogou pela Portuguesa Santista antes de voltar à base do Peixe, porém, foi dispensado após quatro meses.
“A justificativa que deram é que ele não era tão alto quanto os outros meninos”, afirmou Giane. “Ele sempre foi um dos mais altos da turma. Mas eu comecei a ficar preocupada, porque ele não estava crescendo e eu media toda semana”.
Depois de levar Gabriel na médica endocrinologista para fazer exames, a mãe soube que o filho ainda teria outro “estirão” aos 15 anos e chegaria a 1,92m.
Em 2015, o goleiro jogou por uma temporada no Santo André. De duas a três vezes por semana, Giane levava o filho de carro para o ABC Paulista logo após as aulas no período da manhã.
“Era difícil porque ele ia comendo a marmita no caminho. Era muito trânsito e passávamos perrengue quando tinha neblina e a operação comboio”.
Com o fim da categoria sub-13 no Ramalhão, o jovem ficou desanimado e pensou até em parar com o futebol. Alguns meses depois, retomou a carreia em um time de Cubatão antes de retornar à Briosa e ser descoberto pelo Atlético-MG.
Na base do Galo, Delfim começou na reserva, mas com o passar do tempo assumiu a titularidade. Entre os títulos que venceu na base, o principal foi o Brasileirão sub-20 de 2020 contra o Athletico-PR , quando pegou uma cobrança na decisão por pênaltis.
Após subir aos profissionais, virou reserva do ídolo Éverson , um dos seus melhores amigos no elenco. Desde então, fez 13 partidas com a equipe principal.
Além de defender penalidades, Gabriel Delfim tem outras habilidades - pouco conhecidas - com as mãos. Ele aprendeu com a mãe a cozinhar diversos pratos e tem como especialidade o escondidinho de fraldinha. Fã de música, principalmente de pagode, o goleiro está aprendendo a tocar gaita.
“Ele sempre acha que pode tocar tudo. Já teve a época do pandeiro, do tam-tam, reco-reco. Então, aqui em casa estamos prontos para construir uma banda”, declarou Luiza, esposa de Delfim, ao ESPN.com.br .
Torcedora atleticana, ela conta que o marido é bastante apegado aos familiares e aos amigos. “O Gabriel tem um coração enorme. Todo mundo que convive com ele todo dia consegue falar. Ele é uma pessoa muito calma, é muito resiliente”, finalizou.