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Futebol Como Coronel Nunes, que morreu aos 87, foi usado em tempos de crise na CBF Igor Siqueira Do UOL, no Rio de Janeiro 14/09/2026 12h56 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Coronel Nunes durante tour de imprensa na Granja Comary em maio Imagem: Mauro Pimentel/AFP Um já septuagenário dirigente do Pará fazia, em 25 de janeiro de 2016, sua primeira viagem internacional como presidente da CBF. Eleito cerca de um mês antes como vice, o Coronel Nunes acabou se assentado na cadeira mais importante do futebol brasileiro em um momento até previsível. Afinal, foi para isso que ele fora colocado ali, na primeira das vezes que serviu de instrumento em momentos de caos na CBF durante o mandato de Marco Polo Del Nero. Assim que pisou no hotel da Conmebol, em Luque, no Paraguai — porque no dia seguinte haveria eleição na entidade —, o Coronel recitou três palavras como cartão de visita, usando uma entonação militar: Matheus Pichonelli Flávio tira Moraes da TV e ganha reforço de Michelle A Hora Teto e piso se encontram para Flávio e Lula PVC Fla segue líder? Meus palpites sobre a rodada Rodrigo Ratier Importar megaprisão de Bukele é 'perigo', diz estudo Nunes. CBF. Brasil. Só faltou bater continência. Foi uma das cenas inusitadas à frente da CBF do cartola que morreu no último domingo, aos 87 anos. Ele não mandava, nem tomava decisões. Mas virou a representação oficial da entidade. E mesmo assim, estava sujeito a chuvas, trovoadas e incidentes diplomáticos. No lado pitoresco, veio a declaração, pouco após a eleição como VP da CBF, de que Dado Cavalcanti era o melhor treinador do Brasil. O motivo? Treinava seu amado Paysandu. Também no Paraguai, já chamou o presidente da Fifa, Gianni Infantino, de Giannini, e errou o clube de origem do presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez. Disse que era o Cerro Porteño, mas se trata do rival, Olimpia. Coronel Antônio Carlos Nunes de Lima concede entrevista após ser eleito novo vice-presidente da CBF Imagem: Pedro Ivo Almeida/UOL Continua após a publicidade Já o incidente político veio de forma mais marcante em 2018, na eleição para a sede da Copa do Mundo 2026. O Coronel votou no Marrocos e não na candidatura vencedora de Estados Unidos, México e Canadá. Furou o combinado com a Conmebol e enfureceu o presidente Alejandro Domínguez. Nunes não sabia que o voto tinha deixado de ser secreto, como ficou claro no diálogo com jornalistas que estavam naquele Congresso da Fifa, em Moscou: "O que o senhor achou da eleição dos Estados Unidos?" "Rapaz, eles já fizeram Copa, não é? Era bom que fosse no Marrocos. Porque nunca teve lá." "O senhor votou no Marrocos?" Continua após a publicidade "É segredo." "A Fifa divulgou seu voto, coronel." "Divulgou? Não sei como estava lá. Dei para meu colega votar." Mas por que ele? A frase do Coronel no primeiro dia que pisou na Conmebol como presidente da CBF não precisava de conectivos para resumir o quão desconexo estava o contexto da entidade naquele momento. A posse dele foi em substituição a Marco Polo Del Nero, que assumira o mandato em março de 2015 e estava às voltas com denúncias de corrupção e envolvimento no FifaGate. Continua após a publicidade O escândalo chacoalhou as estruturas do futebol mundial e afetou, especialmente, a América do Sul. A CBF não saiu ilesa. O grupo comandado por Del Nero precisava usar as regras do estatuto para não perder o poder. A busca por alguém que virasse o vice mais velho — e, portanto, o presidente em caso de vacância — desaguou na Federação do Pará. Foi aí que Nunes virou candidato e, depois, eleito. Antes de Nunes, a CBF chegou a ter Marcus Vicente como presidente. Mas isso durou um mês. Del Nero voltou de licença por um dia só para destituí-lo em razão de discordâncias e colocar o Coronel. Del Nero teve outro retorno, em abril de 2016, mas a suspensão aplicada pela Fifa em dezembro de 2017 deixou Nunes na cadeira até passar o bastão para Rogério Caboclo em abril de 2019. Edu Gaspar, Tite, Zagallo, Coronel Nunes e Rogério Caboclo na Granja Comary, em Teresópolis Imagem: Lucas Figueiredo/CBF Continua após a publicidade Caboclo e o então secretário-geral Walter Feldman tocavam a CBF, com a mão (pouco) invisível de Del Nero por trás. Isso só acabou quando Caboclo, já presidente de fato, foi afastado pela Comissão de Ética do Futebol Brasileiro, em 6 de junho de 2021. Quem virou o presidente da CBF de novo? Nunes. Mas isso durou até 25 de agosto, quando os vices da CBF na ocasião se reuniram e decidiram colocar Ednaldo Rodrigues como interino. A medida foi para apaziguar as federações. Para elas, o Coronel não servia mais e havia um risco de ruptura entre as entidades estaduais. A situação de saúde do Coronel já tinha se agravado. Em dezembro de 2018, ele passou por uma cirurgia para retirada de um tumor no cérebro. Ao longo dos anos, a mobilidade e a cognição foram piorando. O Coronel Nunes só volta a aparecer na história da república da CBF de forma indireta. Como um protagonista involuntário da implosão mais recente do sistema. Assinatura da queda É impossível contar como Ednaldo Rodrigues perdeu a presidência da CBF sem mencionar o Coronel Nunes. Continua após a publicidade A discussão sobre uma suposta assinatura do dirigente do Pará serviu como um catalisador da decisão da Justiça de tirar o dirigente do poder. O nome dele apareceu como parte de um acordo apresentado por Ednaldo em janeiro de 2025 que encerraria uma disputa jurídica sobre a própria eleição. Ednaldo Rodrigues ao lado do Coronel Nunes na eleição da CBF em 2018 Imagem: Lucas Figueiredo/CBF Quem mais assinou? Parte dos vices que perderam o mandato quando Rogério Caboclo foi afastado: Ednaldo, Castellar Neto, Fernando Sarney e Gustavo Feijó, além de Adriano Aro, presidente da Federação Mineira, que tinha virado parte do processo. O documento era importante porque as partes reconheciam a validade da eleição de 2022 e dariam fim ao processo que gerou o afastamento temporário de Ednaldo em dezembro de 2023. Continua após a publicidade O acordo, então, traria uma suposta calmaria ao ambiente político da CBF. Só que isso não durou cinco meses, já que a dúvida suscitada sobre o estado cognitivo do Coronel Nunes falou mais alto. Havia suspeita de fraude na assinatura, reforçada por um laudo médico que apontava "déficit cognitivo". A CBF contestou as acusações, mas Nunes jamais compareceu à Justiça para esclarecer toda a história e colocar um ponto final na polêmica. A Justiça não desvendou completamente se houve fraude ou não. Mas levou em conta a suspeita e juntou a isso a má condição de saúde para cancelar o acordo de janeiro daquele ano. O desfecho foi o afastamento definitivo de Ednaldo, em decisão tomada pela Justiça do Rio. Aí, veio a brecha para nova eleição e a entrada de Samir Xaud na cadeira que um dia foi do Coronel Nunes. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash As mais lidas agora Eleição já sofre cerco dos EUA. Resta saber alcance da mão peluda de Trump Dono de ONG bancada pelo governo mobiliza campanha paralela de Lula com aval de Janja CBF divulga áudio do VAR em gol anulado do Grêmio por 1 cm ante o Botafogo Cleitinho diz se arrepender de foto com Virginia na CPI: 'Não era momento' Qual exercício ajuda a aliviar gases e 'destravar' o intestino mais rápido?