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Visita de Garrincha para plantar a muda de grama do estádio Ademir Cunha, em Paulista-PE Entre lendas e promessas, o estádio Ademir Cunha, em Paulista, município da Região Metropolitana do Recife, abriga capítulos peculiares do futebol brasileiro. Foi lá que Garrincha, já consagrado como um dos maiores jogadores de todos os tempos, e que faria 92 anos em 2025, plantou a primeira muda de grama do campo. Foi um gesto simbólico que selou sua breve, mas marcante passagem pela cidade de 342.167 habitantes, a sexta mais populosa de Pernambuco. 1 de 5
Garrincha com o ex-prefeito de Paulista Ademir Cunha no estádio — Foto: Reprodução/Arquivo pessoal Garrincha com o ex-prefeito de Paulista Ademir Cunha no estádio — Foto: Reprodução/Arquivo pessoal No dia 23 de julho de 1981, Mané Garrincha esteve no estádio para a cerimônia que marcou o município. A retribuição foi em forma de carinho da população. “Faz tempo que eu não me sentia tão importante em um campo de futebol", disse. Em entrevista à TV Globo, concedida no estádio ainda em construção, Garrincha falou sobre a seleção brasileira e expressou a satisfação em participar do evento, destacando o carinho do povo pernambucano. Arquivo N: Garrincha, um dos maiores artistas em campo do Brasil A presença do bicampeão mundial pela seleção brasileira por si só já seria marcante, mas os bastidores desta visita tornam o fato ainda mais curioso. A começar pelo cachê pedido, como relembra Ademir Cunha, ex-prefeito de Paulista e que dá nome ao estádio. "O radialista Jayme Cysneiros, da Rádio Clube, me ajudou a trazê-lo. Foi ao Rio de Janeiro e acertou tudo. Em uma ligação com Garrincha, ele me disse: "Quero apenas três coisas: ficar no hotel da ponte giratória, um pássaro curió e um cachê de dois mil cruzeiros" , contou. — Eu falei para ele que a ponte giratória não funcionava mais e ele lamentou: "Mas, prefeito, como acaba um negócio tão bonito daqueles?". Tirando essa parte, eu disse para ele vir que quando chegasse, eu resolveria o resto e assim foi feito — completou. O radialista Jayme Cysneiros recebeu o ex-jogador no aeroporto. No estádio, mais de duas mil pessoas aguardavam por ele. — Garrincha era uma pessoa muito humilde. Foi uma loucura, todo mundo foi para cima dele para abraçá-lo, beijá-lo. Ele conseguiu plantar a muda de grama e depois fomos almoçar em um galpão. Cada garfada que dava, chegava alguém para pedir autógrafo e ele não recusava — disse Ademir Cunha. O ex-prefeito ainda levou Garrincha para a casa do seu pai para tomar um café. Por lá, entregou a gaiola com o curió, pagou dez mil cruzeiros — mais do que o valor acertado — e o levou para o aeroporto. — Ele quis até lavar a xícara que tomou o café, mas não deixamos. Era um homem muito interessante e fiquei impressionado. Ele assinava contrato em branco apenas porque queria jogar e alegrar o povo. Foi uma pessoa que marcou muito a minha vida. Pessoa simples e de um valor incrível — resumiu o ex-prefeito. O estádio foi inaugurado em 9 de maio de 1982, ao custo de 300 milhões de cruzeiros. Inicialmente, tinha capacidade para 30 mil pessoas e foi o primeiro a ter um placar eletrônico em Pernambuco. No jogo de abertura, o Sport venceu o Paulistano por 2 a 0, com gols de Betinho e Bebeto. Apesar de o estádio ter seu nome, o ex-prefeito Ademir Cunha diz não ter participação na escolha. A ideia era homenagear um esportista da cidade chamado Antônio Amaro Bezerra, mas a família não permitiu. — Não consegui fazer a homenagem porque a família não autorizou. Em seguida, fui a Brasília e, quando voltei, o vereador Toninho Fotógrafo tinha apresentado uma moção na Câmara para colocar o meu nome no estádio. Os vereadores aprovaram. Quando cheguei, estava a polêmica na cidade, mas já estava decidido. Fiquei grato, mas não sou dono do estádio. É do município e fiquei feliz com a homenagem — contou. 2 de 5
Garrincha pela Seleção em 1962 — Foto: Agência Estado Garrincha pela Seleção em 1962 — Foto: Agência Estado Garrincha em Pernambuco Apesar de ter nascido em Magé, no Rio de Janeiro, Garrincha tinha ligação com Pernambuco. Seu pai, Amaro de Souza Santos, era indígena da tribo Fulni-ô, que vive na cidade de Águas Belas, no Agreste do estado. Em campo, o craque enfrentou equipes pernambucanas em diferentes oportunidades. Em uma delas, pela Seleção do Rio de Janeiro, perdeu para o Náutico por 2 a 1, na Ilha do Retiro, no dia 6 de março de 1955. Após a partida, Mané Garrincha cumprimentou o lateral Jaiminho, do Timbu, e o elogiou. "Tu joga tanto quanto o compadre Nilton (Santos). Hoje eu fui o João", brincou. Depois de pendurar as chuteiras, Garrincha ainda participou de amistosos comemorativos. Em 1974, defendeu o Santa Cruz de Belo Jardim, cidade do Agreste pernambucano, em um amistoso contra o Comercial de Pesqueira. Mané participou das jogadas dos dois gols na vitória por 2 a 1. 3 de 5
Garrincha pelo Santa Cruz de Belo Jardim em amistoso — Foto: Reprodução/Arquivo pessoal Garrincha pelo Santa Cruz de Belo Jardim em amistoso — Foto: Reprodução/Arquivo pessoal Primeiros passos de Rivaldo e seleção brasileira de master Anos depois, aquele mesmo gramado veria surgir, ainda garoto, um tímido Rivaldo, que começaria ali a trajetória que o levaria a conquistar o mundo. O craque pernambucano iniciou a carreira no Paulistano, em 1989, ainda nas categorias de base. O meia ficou até o ano seguinte, quando foi contratado pelo Santa Cruz para dar início a uma carreira vitoriosa por clubes como Corinthians, Palmeiras, Deportivo La Coruña, Barcelona, Milan, Cruzeiro, São Paulo, entre outros. — Eu vi os primeiros treinos dele e já impressionava. Quando o vi, perguntei: "Quem é esse maguinho aí?". Me disseram que era de Jardim Paulista. Ele era novo e já se mostrava diferenciado — relembrou Ademir Cunha. 4 de 5
Rivaldo pelo Paulistano no Estádio Ademir Cunha — Foto: Reprodução/Arquivo pessoal Rivaldo pelo Paulistano no Estádio Ademir Cunha — Foto: Reprodução/Arquivo pessoal Após uma reforma, em 1990, o estádio ainda recebeu a seleção brasileira master, que goleou a seleção de Paulista master por 14 a 0. O cachê foi pago com um sorteio. — Comprei um Fiat 147 e sorteei na hora. Assim conseguimos trazer craques como Rivelino, Wladimir, Zenon e tantos outros — afirmou o ex-prefeito. 5 de 5
Ex-jogador Rivelino em partida da seleção brasileira master no Ademir Cunha — Foto: Reprodução/Arquivo pessoal Ex-jogador Rivelino em partida da seleção brasileira master no Ademir Cunha — Foto: Reprodução/Arquivo pessoal Atualmente, o Estádio Ademir Cunha está longe dos holofotes e com uma estrutura modesta. Em 2025, o local recebeu quatro jogos do Vera Cruz na Série A2 do Campeonato Pernambucano. A equipe foi eliminada na primeira fase com apenas dois pontos e sem vencer na competição. 🎙️ Ouça o podcast Embolada 🎧 Assista: tudo sobre o Náutico no ge , na Globo e no sportv 50 vídeos