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Só para assinantes Assine UOL Opinião A Espanha bicampeã mundial de futebol tem um tratado com o tempo Juca Kfouri Colunista do UOL 20/07/2026 13h32 Deixe seu comentário Marc Cucurella comemora título da Espanha na Copa do Mundo de 2026 Imagem: CARL RECINE / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP Resumo Ouvir na voz do colunista 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× POR GUDRYAN NEUFERT* Na abertura de "O 18 de Brumário de Luís Bonaparte", Marx começa dizendo que Hegel observou que todos os grandes fatos e personagens da história mundial ocorrem, por assim dizer, duas vezes. Marx completa, ironicamente, acrescentando que Hegel esqueceu de mencionar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. Quando se trata de futebol, Hegel tinha razão. Se em 2010 a Espanha foi pela primeira vez campeã mundial após uma expulsão de um jogador holandês e com um gol na prorrogação, agora, em 2026, a história se repetiu. Mauro Cezar Copa no Qatar foi muito melhor em vários aspectos Juca Kfouri Copa machucou o futebol por interesses econômicos Arnaldo Ribeiro Argentina sem Messi é uma interrogação para o futuro Ricky Hiraoka Copa: quem se deu bem e quem se deu mal na TV O gol do título, de Ferran Torres, também veio na parte final da prorrogação e após a Argentina de Messi ficar com menos um jogador em campo. Ambos os gols demoraram, mas os espanhóis jogam como se soubessem que, mais hora menos hora, ele iria aparecer. Assim tinha sido dezesseis anos atrás, e assim foi agora, outra vez, nos Estados Unidos. A Espanha deu 720 passes, 700 deles certos, durante 120 minutos. Mais do que o dobro da Argentina. Os passes lembram o barulho de um relógio batendo. O tique-taque é uma onomatopeia que representa o mecanismo interno marcando os segundos, tipo "tic, tac, tic, tac… E não podemos dizer que a Argentina não gosta da bola, não sabe tratar a bola. Pelo contrário, talvez seja o país que melhor tratou a bola depois do Brasil. Ninguém tem dúvida de que a Espanha dominou a Argentina desde o primeiro minuto da grande decisão. O jeito de jogar espanhol faz parte de uma identidade esportiva que começou nos anos 80, com a redemocratização do país. Nas Olimpíadas de 1992, esse estilo espanhol começou a aparecer. No basquete, a valorização da bola revelou dezenas de bons jogadores e fez da Espanha campeã mundial também. No tênis, Nadal fazia os adversários cansarem num eterno tique-taque no saibro. Foram 14 títulos só em Roland Garros. Continua após a publicidade Para quem gosta de apostar no contra-ataque, de emoção, por vezes esse estilo pode cansar. Pode ser chato. Não à toa a talentosa França não consegue encaixar seu jogo contra os espanhóis. Se a França desfila craques, a Espanha domina o cronômetro. Na mitologia, Cronos (Kronos), titã, pai de Zeus, associado ao tempo na tradição mais popular, é o deus da colheita, da agricultura. Chega a "devorar" os filhos para não ser destronado. A Espanha de 2026 devorou um a um seus adversários. Só não saiu do zero contra a surpresa Cabo Verde. Mas também não sofreu gol. Aliás, sofreu apenas um gol em oito jogos. Um recorde. De la Fuente, que é o treinador da Espanha desde 2013, tem 23 carpinteiros, sendo Rodri o melhor de todos, e esculpiu o título mundial durante 13 anos. O historiador E.P. Thompson lembrava que as sociedades camponesas e artesanais viviam num "tempo orientado pela tarefa" (task-oriented time). O trabalho seguia o ritmo das atividades em si: ordenhar a vaca, colher, esperar a maré, não o relógio. Assim é a Espanha de De la Fuente. A contradição é que essa postura "moderna" vai na contramão do futebol atual e da vida cotidiana em 2026. Onde falta tempo para tudo. Nunca um técnico permaneceu seguidamente no cargo por tanto tempo na seleção brasileira, nem em um clube do Brasil. Privilegiamos a cultura do imediato. Acreditamos na mudança e no improviso. O oposto da Espanha. Quando aparecem gênios individuais, conquistamos algo, seja no futebol, no tênis, na ginástica, em diversas áreas. Não faz parte de um projeto coletivo. Baseia-se mais na força do talento individual. E o que menos mostramos, nos Estados Unidos, em 2026, foi justamente talento. De volta à Espanha. O time de 2026 tem suas idiossincrasias, mas, na forma como tratou o tempo, lembrou muito o time de 2010. Parecem iguais. Parados no tempo. Entre eles, houve a Alemanha de 2014, a França de 2018 e a Argentina de 2022, e nada parece ter alterado a proposta da Espanha. Continua após a publicidade Hoje, um jovem dificilmente fica longe do celular por mais de meia hora. Uma geração inteira que aposta no imediatismo, no sucesso rápido, no dinheiro fácil, e que tem dificuldade de manter o foco. E.P. Thompson dizia ainda, num clássico sobre o tempo e a cultura, que a noção moderna de tempo medido, fragmentado, sincronizado pelo relógio não é natural nem universal, mas uma construção histórica ligada à ascensão do capitalismo industrial. A Espanha mostrou ao mundo que um trabalho quase que "manual" com planejamento, dedicação, coletivismo e foco no fim pode ser recompensado. Donald Trump entregou o troféu ao capitão espanhol em Nova Jersey. Tentou tirar uma casquinha na foto dos campeões mundiais, mas, desta vez, ficou isolado no canto do quadro. O time que controla o tempo também domina os espaços. * Gudryan Neufert é jornalista e historiador. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. 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