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Atenção: esta reportagem contém dados sensíveis sobre violência sexual. Brasileira denuncia capitão de Cabo Verde por estupro A Fifa se pronunciou na noite deste sábado sobre a denúncia de estupro contra o capitão de Cabo Verde, Ryan Mendes, feita por uma brasileira e sob investigação da polícia da Nova Zelândia, onde o caso ocorreu, desde o dia 10 de abril. A entidade afirmou que está em contato com as autoridades do país da Oceania e explicou o processo para lidar com casos do tipo. – A Fifa leva qualquer alegação de má conduta extremamente a sério e possui um processo claro para qualquer pessoa no futebol que queira denunciar um incidente – inicia a nota enviada ao ge , que publicou a reportagem sobre a denúncia da brasileira na tarde deste sábado. – Como regra geral, é importante compreender que os órgãos judiciais independentes não comentam alegações que possam ou não ter recebido, nem se há ou não investigações em andamento sobre os casos alegados. Qualquer informação que desejem compartilhar será comunicada a seu critério. – A Fifa está em contato com as autoridades da Nova Zelândia. Por favor, compreenda que não podemos fazer mais comentários neste momento. Na nota, a Fifa não detalhou com quais autoridades da Nova Zelândia está em contato. O ge apurou, contudo, que se trata da polícia no país. Veja a tabela da Copa do Mundo Simule os resultados da Copa do Mundo 1 de 8 Ryan Mendes, capitão de Cabo Verde, em jogo contra a Arábia Saudita na Copa do Mundo — Foto: Rico Brouwer/Getty Images Ryan Mendes, capitão de Cabo Verde, em jogo contra a Arábia Saudita na Copa do Mundo — Foto: Rico Brouwer/Getty Images O caso aconteceu em março, no hotel onde a equipe cabo-verdiana estava hospedada para a disputa de amistosos na Oceania, e está sob investigação da polícia desde 10 de abril. A brasileira estava no local contratada pela Federação Neozelandesa de Futebol como intérprete para a delegação de Cabo Verde, cujo idioma oficial é o português, e apoio operacional da seleção durante o Fifa Series. Depois de ser atendida por uma clínica que presta auxilio a sobreviventes de violência sexual e abrir a denúncia na polícia, a brasileira e seu marido enviaram, no dia 10 de maio, notificações extrajudiciais à Federação de Cabo Verde e à Fifa, com o relato, provas e um pedido de punição: a não participação do jogador na Copa. No dia 20, preencheram o formulário de Safeguarding da Fifa, usado para denúncias. Calendário da Copa do Mundo 2026: veja datas e horários de todos os jogos Entenda o caso Segundo a denúncia, o caso ocorreu em 27 de março deste ano, no hotel onde a delegação de Cabo Verde estava hospedada em Auckland, na Nova Zelândia. A equipe participava do Fifa Series, que são amistosos disputados por seleções de diferentes confederações. Em março, houve jogos do Fifa Series em oito países diferentes. A seleção de Cabo Verde atuou na Nova Zelândia e disputou duas partidas: derrota para o Chile por 4 a 2, no dia 27, e empate com a Nova Zelândia por 1 a 1 (com vitória nos pênaltis por 4 a 2), no dia 30. A brasileira, que vive na Nova Zelândia com visto de residência e trabalho, fez parte do evento contratada pela Federação Neozelandesa como intérprete e apoio operacional da seleção de Cabo Verde. Ficou, por isso, hospedada no hotel da delegação, de plantão 24 horas à disposição da equipe. Ela relatou à polícia que após o primeiro jogo, contra o Chile, foi convidada para uma reunião em uma das salas reservadas à seleção no hotel e compareceu imaginando que seria necessário atuar como intérprete. Observou, porém, que se tratava de uma confraternização e voltou para o seu quarto ao se sentir fisicamente mal. Relata que pouco depois ouviu batidas na porta do quarto e abriu, pensando se tratar de uma solicitação de apoio do trabalho. Foi neste momento, segundo a denúncia, que Ryan Mendes entrou no quarto, agrediu-a fisicamente, com esganaduras, socos e mordidas, à medida que ela tentou se defender, e a estuprou. A brasileira, ainda no hotel, fotografou lesões visíveis, como cortes na boca, hematomas no pescoço, na perna e na lateral do corpo, que foram vistas pelo ge . As imagens que a identificavam foram preservadas pela reportagem. 2 de 8 Mancha roxa no pescoço da brasileira que apresentou denúncia contra Ryan Mendes — Foto: Arquivo Pessoal Mancha roxa no pescoço da brasileira que apresentou denúncia contra Ryan Mendes — Foto: Arquivo Pessoal Atendida em uma clínica que auxilia sobreviventes de violência sexual, a brasileira foi submetida a exame forense. O relatório médico identificou múltiplas esquemoses (ou manchas roxas) nas mamas, no pescoço e nos lábios, além de áreas de sensibilidade no couro cabeludo e nas nádegas. No exame genital, há o registro de "duas lesões circulares, dolorosas à palpação, na base dos pequenos lábios". Após a assistência da clínica, que ainda presta atendimento psicológico a ela, a brasileira fez o registro de ocorrência policial e passou por uma perícia na delegacia. Ela relata que procurou a Federação Cabo-Verdiana de Futebol, mas não obteve apoio. 3 de 8 Trecho do relatório médico cita lesão genital e múltiplos hematomas em braços, nádegas, mamas, pescoço e lábios — Foto: Arquivo Pessoal Trecho do relatório médico cita lesão genital e múltiplos hematomas em braços, nádegas, mamas, pescoço e lábios — Foto: Arquivo Pessoal Procurada pelo ge , a polícia da Nova Zelândia confirma o inquérito em andamento. Por leis rigorosas de privacidade do país, não se posiciona sobre nomes de acusados. – A Polícia da Nova Zelândia confirma que uma denúncia está sendo investigada, registrada em 10 de abril de 2026 na região central de Auckland. Não podemos fornecer mais informações neste momento. O ge apurou que a polícia colheu imagens das câmeras de segurança do hotel e aguarda o laudo pericial dos exames de corpo de delito, realizados há três meses, para fechar o inquérito. Ao fim dessa investigação, a polícia vai decidir se oferecerá a denúncia à justiça. Uma advogada criminal consultada pela família diz que esse procedimento, de análise dos exames, pode durar até seis meses. 4 de 8 Em conversa com brasileira, funcionário da Federação Cabo-Verdiana diz que denúncia é "problema pessoal de Ryan" — Foto: Arquivo Pessoal Em conversa com brasileira, funcionário da Federação Cabo-Verdiana diz que denúncia é "problema pessoal de Ryan" — Foto: Arquivo Pessoal Ryan Mendes, de 36 anos, atua no Igdir FK, da Segunda Divisão da Turquia, e foi titular de Cabo Verde nas três partidas da fase de grupos na Copa de 2026. A seleção africana ficou em segundo lugar no Grupo H e se classificou à segunda fase. A adversária será a Argentina, na sexta-feira, em Miami. 5 de 8 Comprovante de pagamento do trabalho feito pela brasileira como "Team Liasion" no Fifa Series — Foto: Arquivo Pessoal Comprovante de pagamento do trabalho feito pela brasileira como "Team Liasion" no Fifa Series — Foto: Arquivo Pessoal A Federação Neozelandesa de Futebol, que sediou o Fifa Series de março com a participação da seleção cabo-verdiana, limitou-se a dizer: – Entendemos que este assunto está com a Polícia da Nova Zelândia, então eles seriam mais apropriados para comentar a situação. Veja imagens de Ryan Mendes no jogo contra a Arábia Saudita A Federação Cabo-Verdiana de Futebol não se posicionou até o momento desta publicação. O ge enviou cinco e-mails para os três endereços disponíveis no sistema da Fifa e no site da Federação Cabo-Verdiana, sem nenhuma resposta. O assessor de imprensa disse não ter informações e afirmou que a resposta precisaria vir dos e-mails institucionais. O ge procurou mais três funcionários que estavam cientes do caso, segundo prints de conversas com a brasileira após o ocorrido. Só um deles respondeu: Gerson Melo, então Diretor de Desenvolvimento, para dizer que não faz mais parte da federação e que não esteve na Nova Zelândia na comitiva. A reportagem também procurou pessoalmente o assessor da federação em Houston, depois do jogo contra a Arábia Saudita. Ele informou que a entidade não comentaria a denúncia. O ge procurou ainda o empresário do atacante e ainda não teve resposta. Em caso de retorno, esta reportagem será atualizada. 6 de 8 Ryan Mendes, capitão de Cabo Verde, em campo contra a Espanha na Copa do Mundo — Foto: Pat Scaasi/MI News/NurPhoto via Getty Images Ryan Mendes, capitão de Cabo Verde, em campo contra a Espanha na Copa do Mundo — Foto: Pat Scaasi/MI News/NurPhoto via Getty Images O trâmite jurídico O ge consultou o guia do Ministério da Justiça da Nova Zelândia e o advogado especialista em direito internacional Mauricio Ejcher para explicar o trâmite jurídico no país da Oceania. Segundo a lei neozelandesa, uma condenação por violência sexual pode resultar em prisão de até 20 anos, de acordo com a gravidade do caso. 🔍 Adicione o ge nas suas fontes favoritas do Google 7 de 8 Trecho da legislação da Nova Zelândia cita que condenação por violência sexual pode chegar a 20 anos — Foto: Reprodução Trecho da legislação da Nova Zelândia cita que condenação por violência sexual pode chegar a 20 anos — Foto: Reprodução Na ordem cronológica, a polícia investiga, decide se tem provas suficientes para apresentar acusação e, se sim, o caso vai a julgamento na Corte Distrital. Os casos criminais, na Nova Zelândia, são julgados por um juiz singular ou por um grupo de júri. O advogado de acusação, por sua vez, representa a Coroa do país, o público, e as informações que apresenta são baseadas no caso preparado pela polícia. Quem denuncia participa como testemunha. – O processo judicial tem quatro partes: a administração, para juntar e organizar documentos, a revisão prévia com participação do juiz, o julgamento e a sentença. Cabe uma apelação só, na corte superior, que é regional – explica Mauricio Ejcher. 8 de 8 Ryan Mendes e Cáceres disputam a bola em Uruguai x Cabo Verde — Foto: Craig Williamson/SNS Group via Getty Images Ryan Mendes e Cáceres disputam a bola em Uruguai x Cabo Verde — Foto: Craig Williamson/SNS Group via Getty Images Em um caso que precise envolver extradição do acusado, caso a polícia ofereça denúncia e decrete prisão, há duas possibilidades: colocar o nome na Interpol, e a pessoa pode ser parada em qualquer fronteira ou país, ou solicitar a extradição através de pedido de cooperação. A Nova Zelândia não tem acordo de extradição com Cabo Verde. Quem é Ryan Mendes Ryan Mendes é atacante, tem 36 anos e atua pelo Igdir FK, da Segunda Divisão da Turquia Antes, passou por Batuque, de Cabo Verde, Le Havre e Lille, da França, Nottingham Forest, da Inglaterra, Al-Nasr e Al Saharjah, dos Emirados Árabes, e outros três clubes da Turquia. Ele está na Copa do Mundo pela estreante seleção de Cabo Verde e antes do Mundial disputou quatro edições da Copa Africana de Nações (2013, 2015, 2022 e 2024).