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Ítalo-brasileiro-libanês. Faixa marrom de kung fu. Praticante de yoga e xadrez. Fluente em quatro idiomas. Jogador de futebol.
Todas as descrições cabem em João Gabriel Cardozo, zagueiro das categorias de base do Como , da Itália. O atleta, que chama atenção pelo perfil inusitado, conversou com a ESPN , nesta semana, em uma das poucas horas livres entre hobbies e treinos da seleção do Líbano, país que defende profissionalmente pela primeira vez nesta Data Fifa.
O defensor, de 19 anos, estará em campo pelo país do Oriente Médio neste domingo (4), contra o Quirguistão, em amistoso. Com passagens pela base do Corinthians e da Roma , o jovem, que também poderia defender as seleções de Brasil e Itália, embarcou em uma aventura diferente.
"A cidadania italiana vem da parte da minha mãe. A cidadania libanesa vem por parte do meu avô paterno. No mês passado, quando fui para o Líbano pela primeira vez, aprendi um pouco as histórias e descobri que ele foi para o Brasil, com apenas 19 anos, fugindo da guerra do Líbano", contou.
"A sobrinha do meu avô conhecia uma das pessoas que trabalham na Federação Libanesa, que faz uma procura pela diáspora libanesa no mundo todo, para captar jogadores bons e fortalecer a seleção. Ela entrou em contato e se interessaram, falaram com o Como, analisaram meus jogos... Estou tendo a minha primeira experiência em uma seleção profissional. Eu só realizei treinos como profissional do Como e da Roma, mas nunca fui convocado para um jogo. Então é uma excelente experiência para mim", acrescentou.
A opção por defender a seleção do Líbano veio acompanhada, também, de um desejo de conhecer melhor a história de seus familiares.
"Conhecimento, para mim, é uma bênção. Poder evoluir, poder crescer, não somente no mundo do futebol, mas também mentalmente, é uma coisa muito importante. Saber a história da minha família me interessa muito, porque eu posso entender a forma como, hoje, o meu pai pensa, como a minha mãe pensa, porque nós somos programados, desde pequenos, pelos nossos pais. Acho muito interessante você entender os padrões familiares. Muitas coisas que aconteceram no passado se repetem no futuro e se repetem hoje em dia".
"A própria história do futebol já repetiu várias vezes, seja a nível de competição, mas principalmente com os jogadores. A gente vê muitas vezes, infelizmente, jogadores que ganham muita fortuna e acabam perdendo depois, porque não têm essa gestão, não têm uma pessoa por trás que consiga dar suporte. Existem essas histórias e a gente precisa aprender com isso".
João Gabriel não gosta de se limitar ao que acontece dentro de campo. A rotina de treinos no Como, clube ao qual chegou em setembro de 2024, é conciliada com hobbies, esportes e estudos.
"Eu sou [faixa] marrom ponta preta de kung fu. Treino desde os seis anos de idade. É uma parte de mim, eu sempre digo isso porque realmente é como o futebol. Comecei a jogar futebol com seis anos também. Meus dois pilares esportivos são esses. É um esporte que eu amo fazer e não pretendo deixar de fazer".
"O kung fu me ensinou disciplina desde muito cedo. É um esporte que requer isso, porque você precisa treinar os mesmos movimentos sempre. Pretendo fazer o exame da faixa preta e tenho treinado todas as semanas. São várias matérias, você precisa estar com a memória em dia, então é muita disciplina para poder lembrar todos os movimentos, muita memória muscular. Também me ajuda muito no futebol, porque é muito ágil, precisa ter essa maleabilidade corporal, precisa ser rápido, também ajuda no ritmo, além da concentração".
Outras atividades que não faltam na rotina do jogador são a yoga e o xadrez.
"A yoga eu comecei faz uns dois anos. Me ajuda muito, principalmente nesses processos de mentalização, meditação, que eu acho que é tão importante para um jogador hoje em dia. E não somente para um jogador, mas para todas as pessoas no geral. Além de melhorar a forma física, melhora o que é mais importante, que é a parte mental. Consegue ter um controle a mais sobre o corpo e um controle a mais sobre a mente. Você consegue clarear mais os pensamentos e estar mais presente, ter mais foco, mais concentração".
"O xadrez eu comecei a jogar em 2020, mas teve pausas, não consegui manter esse hobby tão frequente quanto eu gostaria. Agora eu voltei a jogar mais. Já tem uns cinco, seis meses que eu voltei a jogar, tenho jogado bastante, quase todos os dias. É uma coisa que eu gostaria de estudar mais, melhorar, porque gosto muito e também trabalha estratégia. A gente precisa treinar o cérebro cada vez mais. O xadrez ajuda nisso, nesse pensamento rápido, estratégico. Ajuda a evoluir em todos os sentidos".
João Gabriel fala quatro idiomas. Além do português, é fluente em espanhol, inglês e italiano.
"Eu vou ter que aprender o árabe libanês, estou com vontade de aprender. Agora é conciliar com as outras coisas e ter o tempo de poder fazer essas aulas, até porque tenho certeza que é uma língua muito empenhativa, é bem difícil, é uma língua muito rica, é muito bonita".
A falta de tempo também é, segundo ele, um entrave para iniciar curso em uma faculdade.
"Gostaria muito de ir para a parte de gestão esportiva no futuro, talvez uma administração. Eu também gosto muito de economia, acho bem interessante. Vamos ver ainda o que vai me beneficiar mais, até porque não dá para fazer tudo ao mesmo tempo. Então, passo por passo".
"Geralmente, acordo por volta das sete ou oito horas da manhã. Não é nem muito cedo, é bem tranquilo, já teve dias que eu acordei às 5h para treinar. Vou para a academia pela manhã. À tarde, treino com o Como por umas duas horas e meia, um treino bem puxado. Faço as minhas coisas na parte da noite, após a janta".
"A yoga faço duas vezes por semana, na segunda e na quinta-feira, uma hora e meia de treino cada. O kung fu eu faço uma hora, uma vez por semana, na quarta-feira. O xadrez, geralmente, jogo na parte da manhã, depois da academia, antes do almoço. Dá para conciliar tudo, claro, é uma rotina bem cheia, mas eu já estou acostumado".
O zagueiro, apesar de estar na seleção profissional do Líbano, segue aguardado uma oportunidade no time principal do Como. Ele, porém, já fez treinos com a equipe, que é comandada por Fàbregas.
"Conversei com ele (Fàbregas) em espanhol. Foi muito bom, é um cara que tem essa gestão de grupo, isso já deu para perceber desde o primeiro contato. É muito inteligente. Revolucionou a forma como muitos times jogam na Itália, também taticamente, defensivamente".
"É um pedido do Fàbregas de treinar os jogadores da base como se joga no profissional. É muito rápido o jogo, é muito técnico, precisa de refinamento para poder jogar hoje em dia no profissional. Precisa ser muito técnico, precisa conseguir sair de todas as situações e também criar opções para os seus companheiros, além de ter entendimento tático, de achar o espaço livre".
"A curto prazo, [meu objetivo] é tentar estrear no profissional do Como. É continuar trabalhando, em algum momento a minha oportunidade vai chegar", afirmou.