Conteúdo Original
Enquanto Azteca do México abre a Copa do Mundo, Asteka de Manaus mantém viva sua história Nesta quinta-feira (11), o mundo está de olho no lendário Estádio Azteca, na Cidade do México. O palco que recebeu Pelé, Maradona e duas finais de Copa do Mundo será o primeiro da história a sediar três jogos de abertura do Mundial. Copa do Mundo começa nesta quinta com recorde de seleções, novas regras e tensões políticas A mais de cinco mil quilômetros dali, no bairro do Coroado, na Zona Leste de Manaus, outro Azteca (escrito com "s" e "k") também terá futebol. Não haverá cerimônia, chefes de Estado nem mais de 80 mil torcedores nas arquibancadas. Como acontece praticamente todos os dias, a bola vai rolar no campo Asteka, espaço criado pelos próprios moradores no início dos anos 1980 e transformado em um dos pontos de encontro mais tradicionais da comunidade. 1 de 9
Asteka de Manaus foi criado no início da década de 1980 — Foto: Reprodução/Larry Wilcox Asteka de Manaus foi criado no início da década de 1980 — Foto: Reprodução/Larry Wilcox Sem dúvida, a diferença entre os dois é evidente. Um está entre os estádios mais famosos do planeta. O outro é um campo de terra cercado por casas, construído a partir de mutirões e mantido pelos próprios frequentadores. Mas existe algo que aproxima os dois. Além do nome, o Asteka de Manaus guarda histórias que ajudam a conectar ao tricampeonato conquistado pela seleção brasileira no México, em 1970. Terreno virou patrimônio da comunidade Antes de se tornar referência para o futebol amador da Zona Leste, o Asteka era apenas uma área aberta dentro do conjunto Jardim Asteka. O campo não surgiu por meio de um projeto público ou investimento privado. A transformação aconteceu aos poucos, a partir da iniciativa dos próprios moradores. O músico Marquinhos Negritude foi um deles e relembra o início. — Na década de 80 procurávamos um lugar e, com os amigos, criamos. A força do futebol venceu. Hoje é um lugar de encontro. Todo mundo se encontra. Mas no início não era fácil. Eu ia em casa e quando chegava, o campo estava cheio de caco de garrafa. Tinha morador que não queria o espaço. A gente limpava tudo de novo — lembra. 2 de 9
Campo foi criado pelos frequentadores e teve resistência de alguns vizinhos no início — Foto: Reprodução/Larry Wilcox Campo foi criado pelos frequentadores e teve resistência de alguns vizinhos no início — Foto: Reprodução/Larry Wilcox Mas a insistência venceu e, segundo Marquinhos, as melhorias vieram aos poucos e sempe com a ajuda dos próprios frequentadores. — Todo mundo paga uma taxa. Quem não tem também participa. A arquibancada foi feita com dinheiro da comunidade. Só dinheiro da comunidade. A democracia impera aqui. Resistência dentro e fora das quatro linhas Quem acompanha a história do Asteka há décadas é Valter Filho, que hoje é presidente da Liga Esportiva do Asteka. Nascido em 27 de julho de 1970, apenas 36 dias após o Brasil conquistar o tricampeonato mundial, ele cresceu vendo o campo se tornar parte da identidade do bairro. Hoje é um dos responsáveis por sua preservação. — Por várias vezes tentaram acabar com o campo. A comunidade teve que reagir. Criamos uma liga esportiva para defender esse espaço. Um camarada entrou aqui e fez até uma fossa dentro do campo. A comunidade teve que intervir e hoje tem escolinha, tem funcional, tem jogo todos os dias. Virou um movimento social da comunidade — destaca. 3 de 9
Asteka tem futebol praticamente todos os dias — Foto: Reprodução/Larry Wilcox Asteka tem futebol praticamente todos os dias — Foto: Reprodução/Larry Wilcox Nome que veio da Copa de 1970 A relação entre o Asteka e o histórico Azteca mexicano também passa pela família de Valter. Apaixonado pela campanha brasileira de 1970, o pai dele queria homenagear um dos grandes nomes daquela seleção. A intenção era registrar o filho mais velho como Roberto Rivelino. Mas não conseguiu. — Meu pai foi fazer o registro de nascimento e o amigo dele, que era escrivão, convenceu ele a trocar o nome. A ideia, porém, não foi esquecida. Seis anos depois, nasceu o segundo filho. Dessa vez, a homenagem saiu do papel. Roberto Rivelino Nascimento da Silveira, irmão de Valter Filho, recebeu o nome do camisa 11 da Seleção Brasileira que encantou o mundo no México. 4 de 9
Irmãos Valter (esquerda) e Rivelino e a relação com o tri de 1970 — Foto: Reprodução/Larry Wilcox Irmãos Valter (esquerda) e Rivelino e a relação com o tri de 1970 — Foto: Reprodução/Larry Wilcox Rivelino cresceu frequentando o Asteka e ouvindo histórias sobre a seleção que inspirou seu nome. Hoje, leva a situação com bom humor. — Nome de craque, sim. Já joguei. Já passou um bom tempo, mas joguei — diz Rivelino, aos risos. Onde todo mundo tem um apelido No Asteka, os nomes contam histórias. E os apelidos também. O Francisco Paulo dos Santos Gonçalves é um exemplo. Pouca gente conhece seu nome de batismo. Para a comunidade, ele é simplesmente Garrincha, com referência ao craque que brilhou no título do Brasl de 1962. — Quando eu tinha sete anos, meu pai colocou esse apelido. Ele se baseou no jogador e também porque eu brincava muito pela lateral. 5 de 9
Garrincha é um dos personagens do Asteka de Manaus — Foto: Reprodução/Larry Wilcox Garrincha é um dos personagens do Asteka de Manaus — Foto: Reprodução/Larry Wilcox Décadas depois, o apelido continua vivo. Assim como a relação de Garrincha com o campo. O aposentado diz que a união construída ao longo dos anos é o principal legado do local. — O Asteka é uma família. Uma família mesmo. Você leva um baque, não pode jogar e a primeira coisa que a diretoria faz é ajudar. Procura remédio, procura uma forma de ajudar. 6 de 9
Asteka de Manaus é sinônimo de família para os frequentadores — Foto: Reprodução/Larry Wilcox Asteka de Manaus é sinônimo de família para os frequentadores — Foto: Reprodução/Larry Wilcox Muito além do futebol Embora a bola seja a razão da existência do campo, os frequentadores acreditam que o Asteka ultrapassou o papel de simples espaço esportivo. Para Marquinhos Negritude, o maior patrimônio construído ali não é físico. — O grande gol daqui é a união das pessoas. É fazer com que esse local sirva além do futebol, para a parte social. 7 de 9
Asteka de Manaus também atende a comunicade com escolinhas e funcional — Foto: Reprodução/Larry Wilcox Asteka de Manaus também atende a comunicade com escolinhas e funcional — Foto: Reprodução/Larry Wilcox Essa sensação ajuda a explicar por que tantas pessoas permanecem ligadas ao campo por décadas. Muitos dos que ajudaram a limpar o terreno nos anos 1980 continuam frequentando o espaço atualmente. Outros já levaram filhos, netos e amigos para fazer parte da rotina do lugar. Do Azteca ao Asteka Inaugurado em 1966, o Estádio Azteca se tornou um dos maiores símbolos do futebol mundial. Foi palco do tricampeonato do Brasil em 1970, da conquista da Argentina de Maradona em 1986 e dos famosos lances da "Mão de Deus" e do "Gol do Século". 8 de 9
Estádio Azteca, no México, ecebe abertura e jogos de Copa do Mundo pela terceira vez — Foto: Getty Images - Hector Vivas Estádio Azteca, no México, ecebe abertura e jogos de Copa do Mundo pela terceira vez — Foto: Getty Images - Hector Vivas Nesta quinta-feira, o estádio mexicano voltará a fazer história ao receber mais uma abertura de Copa do Mundo. No mesmo dia, o Asteka de Manaus seguirá sua rotina. Sem transmissão internacional, sem holofotes, mas com a certeza de que, quando o jogo terminar, os amigos estarão novamente reunidos à beira do campo. 9 de 9
Asteka de Manaus continua sua história de mais de 40 anos — Foto: Reprodução/Larry Wilcox Asteka de Manaus continua sua história de mais de 40 anos — Foto: Reprodução/Larry Wilcox