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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Espanha não é sobre jogo chato ou legal, é sobre coletivo acima de heróis Julio Gomes Colunista do UOL 13/07/2026 05h30 Deixe seu comentário Jogadores da Espanha comemoram gol de Fabián Ruiz contra a Bélgica na Copa do Mundo Imagem: PATRICK T. FALLON / AFP Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Eu noto há anos, décadas até, um debate bastante simplista sobre o que é o futebol da seleção espanhola. "Chato" é uma das palavras mais ouvidas. Curiosamente, "legal", para o brasileiro, é ganhar. Apenas isso. O conceito de "jogo bonito" já nem se sabe mais do que se trata. O debate sobre a seleção espanhola, que pode perder ou ganhar da França na semifinal desta terça, não deveria ser sobre ser chato ou não jogar como os espanhóis jogam nas últimas duas décadas. Gosto todo mundo pode ter. Pode-se gostar de um futebol de velocidade, de ataque, de comprometimento tático, tem realmente para todos os apetites. O ponto é outro. A Espanha criou método no futebol. Não interessa o debate sobre se o método é bacana ou chato, o que interessa é o fato de haver um método e ele passar essencialmente pelo espírito coletivo em um esporte... coletivo! Há um grande campo de estudos sobre futebol na Espanha hoje e não é à toa que são os técnicos espanhóis e portugueses - e não mais os brasileiros - que viraram produtos de exportação, espalhados pelos quatro cantos do mundo para ensinar o jogo, desenvolver métodos de treinamento e efetivamente dirigir ligas grandes, clubes grandes. Luiz Henrique Matos Por que devemos ensinar a ler notícias Milly Lacombe Pintou o improvável herói dessa Copa Casagrande Quem pode ser mais decisivo nas semifinais? Joildo Santos Pequenas operam 56% da banda larga do Brasil É claro que, no esporte, todo mundo quer ganhar. E, qualquer que seja o modelo escolhido, sempre será avaliado pelos resultados, antes de qualquer outra coisa. Mas convido a todos que chegaram até aqui a refletir sobre uma das características deste modelo ibérico, que é a força do coletivo se sobrepondo à busca do talento pelo talento. Um time de futebol não pode ser criado e treinado para jogar em função do aleatório, por mais benefícios que um extra-classe possa gerar no resultado final. A formação de jogadores precisa passar, antes de mais nada, pela formação de cidadãos e cidadãs, de pessoas qualificadas para o convívio coletivo, que respeitem o colega e o rival, a vitória e a derrota, e que possam sobreviver às sociedades atuais se as coisas derem errado no esporte de competição. No Brasil, é claro que o buraco social está bem abaixo dos países europeus. Mas o que o universo do futebol está fazendo para melhorar este ambiente especificamente? Clubes e empresários têm algum comprometimento com o todo ou somente com o próprio bolso? São cada vez mais raros os espaços que permitam a crianças desenvolverem o jogo, tudo funciona em função da monetização do talento - que é lapidado para a venda apenas, sem mais. A sociedade brasileira de uma forma geral trabalha pouco com planejamento e muito no "matar um leão por dia" e torcer para que algo ou alguém a salve - não à toa, a religiosidade, seja lá qual for, é muito mais presente em ambientes de desesperança. Para o futebol, isso é traduzido na busca pelo talento bruto, não na construção de projetos que tenham algum tipo de profundidade e preocupação com legados. Claro que há exceções, mas são raríssimas. A Alemanha não tem feito nada de bom em Copas do Mundo, e ainda assim tem um universo extremamente saudável no futebol, que passa por formação de pessoas, integração e, no nível profissional, estádios lotados, ingressos baratos e leis restritivas para combater a gastança e a lavagem de dinheiro. A Espanha talvez tenha um mundo do futebol menos organizado e positivo que a Alemanha, mas desenvolveu no lado esportivo uma escola que dá resultados no campo e é bacana fora dele. Há um monte de exemplos a serem seguidos, em vários países. A Noruega, que nos derrotou, mas poderia ter perdido, é outro bom exemplo de futebol trabalhado com outra intenção. Talvez não nos sirva mais a espera por uma mudança de cultura para que o futebol se adapte a ela. É o futebol que tem que puxar o carro. Continua após a publicidade Nossa cultura individualista está cada vez mais aflorada, o brasileiro cada vez mais vive no "cada um por si" e o futebol vai no mesmo caminho. Não à toa, em um jogo coletivo, o individualismo costuma fracassar. Deu certo um dia, em outro contexto, em outro cenário e ainda assim o sucesso brasileiro sempre teve o talento como cereja do bolo de um trabalho que de alguma maneira era coletivo. Empírico, pouco documentado, mas coletivo. A Espanha acaba de ganhar o Europeu sub-19 de forma invicta, sem sofrer um gol sequer. É a geração de 2007, que já tem Lamine Yamal e Pau Cubarsí na seleção absoluta. Não é sorte. É procedimento. É mentalidade. Talvez o futebol seja um grande campo para trabalharmos de outra maneira, priorizar o que tem que ser priorizado, gerar ganho a partir do todo, cessar a busca por heróis e iniciar a refundação da nossa escola. Passa por todas as esferas, inclusive o meu universo, o da crônica esportiva. Por que não sonhar com o futebol como mobilizador de uma nova cultura social, como vemos a Espanha fazer? Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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