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De ex-jogador frustrado à melhor técnico do campeonato: Rafael Guanaes relembra trajetória Dez anos atrás, Rafael Guanaes conquistava o primeiro título da sua carreira, na quarta e última divisão do Campeonato Paulista. Chegamos a dezembro de 2025, e ele é o melhor técnico do Brasileirão. Desbancou Filipe Luís, Abel Ferreira e outros tantos, ao levar o Mirassol direto para a fase de grupos da Libertadores com os impressionantes 67 pontos que garantiram a quarta colocação na Série A. Assim como o clube da pequena cidade de 65 mil habitantes, ele também era um estreante na elite nacional. Nada que preocupasse quem foi muito além das quatro linhas numa trajetória tão surpreendente quanto corajosa. Veja também + Como o Mirassol planeja cumprir exigências da Conmebol para a Libertadores 1 de 10
Rafael Guanaes em entrevista ao Abre Aspas — Foto: André Durão / ge Rafael Guanaes em entrevista ao Abre Aspas — Foto: André Durão / ge + Leia outros Abre Aspas + Saiba quem é o cérebro anônimo da gestão do Mirassol Até ser o melhor treinador do Brasileirão, Guanaes poderia ser também o melhor engenheiro, o melhor vendedor, o melhor professor… Aos 44 anos, esse paulistano foi além da frustração dentro das quatro linhas para se reinventar e seguir envolvido com o futebol. Se eu só estudar sobre futebol, vou perder a oportunidade de desenvolver outras áreas do cérebro. Fui atrás de curso de comunicação, de vendas, fiz programação neolinguística, cursos de liderança, continuo fazendo espanhol, inglês. O cérebro é uma máquina extremamente poderosa". — Rafael Guanaes, técnico do Mirassol Entre tantos adjetivos, autoral é o que melhor define o trabalho de Guanaes. Em entrevista recente, o campeão Filipe Luís disse que é impossível copiar a metodologia do Mirassol por ser algo muito particular de seu treinador. Especificidade que dá ainda mais peso à capacidade de persuasão de quem assumiu o time com a missão de não ser rebaixado e sequer flertou com a Série B. Muito pelo contrário, em determinado momento o clube ousou sonhar com título. 2 de 10
Rafael Guanaes, técnico do Mirassol, é eleito o melhor treinador do Brasileirão — Foto: Staff Images/CBF Rafael Guanaes, técnico do Mirassol, é eleito o melhor treinador do Brasileirão — Foto: Staff Images/CBF Guanaes é daqueles que chegava ao pé do ouvido para mostrar aos seus comandados que sonhar era de graça e o modelo de jogo poderia levar o Mirassol aos primeiros lugares na tabela. Um bate-papo com Gabriel aqui, uma resenha com Reinaldo ali, uma troca de confidências com Yago Felipe e Danielzinho, e aos poucos a coragem do treinador se alastrou pelo elenco. O comandante do Leão é intenso não apenas na beira do gramado. Um bate-papo com o técnico se transforma em uma reflexão sobre os mais diversos temas. O combinado de uma entrevista com duração de uma hora, de repente, vira uma missão impossível. O plano não foi cumprido e a conversa para este Abre Aspas do ge ultrapassa a marca de uma hora e meia. Rafael Guanaes relembra vida como jogador de futebol e sua construção como treinador ✅ Clique aqui e siga o canal do ge Mirassol no WhastApp! Guanaes abriu os bastidores deste Mirassol tão marcante, se mostrou um pensador e revelou o lado crossfiteiro para aliviar a tensão. Uma entrevista surpreendente do criador tal qual sua criatura em campo. O ge Abre Aspas para Rafael Guanaes: 3 de 10
Rafael Guanaes em entrevista ao Abre Aspas — Foto: André Durão / ge Rafael Guanaes em entrevista ao Abre Aspas — Foto: André Durão / ge Ficha técnica Nome : Rafael Silva Guanaes Idade : 44 anos Carreira no futebol : Joseense, União São João, São Carlos, Monte Azul, Votuporanguense, Athletico Paranaense (profissional e sub-23), Sampaio Corrêa, Tombense, Cruzeiro (auxiliar técnico de Pezzolano), Novorizontino, Operário-PR, Atlético-GO e Mirassol. Títulos : Campeonato Paulista 4ª divisão (2015), Copa Paulista (2018), Campeonato Paranaense (2019) e Campeonato Maranhense (2021). Confira a íntegra da entrevista Ge: Para o Brasil inteiro, é uma grande surpresa a campanha do Mirassol. Vocês chegaram à fase de grupos da Libertadores. Para vocês, também chega a ser surpreendente? Como vocês internamente absorveram tudo o que aconteceu nesse Brasileirão? Rafael Guanaes: Pensando no começo da competição, é surpreendente. Por mais que a gente tenha convicção e muito trabalho, que o clube tenha direções muito claras, jogadores muito comprometidos, todo esse apanhado… Mas, ainda assim, a gente está jogando a primeira vez na principal competição nacional. Olhando lá no início, falava assim: ‘Cara, estar hoje em quarto por tanto tempo’. Ficamos muito tempo no quarto lugar. A maior colocação que a gente teve na competição foi o quarto lugar. Então, para o decorrer da competição, já deixou de ser surpresa. E eu não quero ter um tom de soberba em nenhum momento, mas fomos nos respaldando por desempenho. Esse sempre foi o ponto de partida para nós. — Tem alguns jogos emblemáticos na competição, mas o jogo do Cruzeiro talvez seja o primeiro por ser fora, na casa deles. Ali já foi uma primeira semente importante em relação à convicção de como poderíamos nos pautar: modelo de jogo, construção estratégica para o jogo, como a gente estava vendo o adversário. Foi um start para a competição. Rafael Guanaes fala sobre o Mirassol e analisa momento do clube — No começo, sim, estar aqui hoje, pensando naquilo que a gente imaginava… Eu lembro bem do começo. Eu lembro bem quando fui contratado e olhei a tabela. Foi um momento de muitas orações: Cruzeiro, Fortaleza — que estava na Libertadores —, Bahia do (Grupo) City, muito forte, trabalho consolidado do Rogério (Ceni), e Grêmio em casa. Falei: ‘Cara, é uma parada dura para o começo’. Mas, se você olha a tabela, é sempre parada dura. Então, precisávamos nos pautar em desempenho. Essa foi sempre a tônica. — E aí a gente foi conseguindo desempenho. Para o decorrer, já deixou de ter essa surpresa. Fechar em quarto lugar é um grande prêmio. Eu acredito que já é uma grande história, com certeza, dos pontos —corridos e do futebol brasileiro dos últimos anos, especialmente pensando nas divisões que o Mirassol foi galgando para chegar até aqui. A gente fica feliz e espera fechar bem essa competição. A gente fala de convicção, mas sabe que existe um trabalho do clube que já é longevo, escalando séries, conquistando acessos. Mas imagino que a convicção passa muito pela sua liderança também: de que é possível encarar do nosso jeito, manter o nosso modelo de jogo. Como foi esse processo de a sua convicção se alastrar e tomar conta do clube e do elenco? — Eu cheguei num momento muito propício para implementação. Era pós-Paulista, quase meio de ano, mas já era uma intertemporada. O Mirassol começou muito bem o estadual, depois teve uma queda abrupta e, quando você vem de um trabalho longevo — do Mozart por um ano e meio, praticamente duas Séries B —, depois do (Eduardo) Barroca, você chega num momento de transformação da identidade para 2025, com muitos gigantes pela frente. — Cheguei num momento propício para implementação. A minha história, minha visão de jogo, bate muito com a cultura de jogo do clube. — Já trabalhei em clubes maiores e em clubes do interior. Eu já conhecia o Mirassol de antes. Então, estava bem embasado sobre o que poderia funcionar, dentro da cultura, conhecendo quem estava aqui dentro. Isso me ajudou a encurtar alguns caminhos, especialmente sobre o elenco, jogadores, momentos individuais. — Minha vida é pautada em várias Séries A, em todas as divisões que joguei. Eu sempre fui underdog (azarão). Até no Athletico Paranaense, porque disputamos o estadual com aspirantes. A proporção (de jogar na Série A) é infinitamente maior, mas é uma situação que eu me acostumei a enfrentar na minha vida. Sempre tive claro o que é inegociável na minha gestão e no meu relacionamento com os jogadores, e aquilo que tenho como convicção tática. Guanaes projeta 2026 do Mirassol e analisa o assédio do mercado com os jogadores da equipe — Para estar num lugar, preciso que o lugar compactue com isso. E, ao mesmo tempo, preciso de uma página em branco para, com o elenco que tenho, construir. A mensagem sempre foi clara para os jogadores: eu tinha convicção do “como”. Do resultado, não. Cada sessão de treino tem conteúdo e expectativa. Cada situação de jogo tem o que esperamos como jogar bem. — Nós perdemos para o Vitória jogando muito bem. Sempre passei essa mensagem. No começo da competição usamos muito o Bahia do ano passado como exemplo: ganhou 15, perdeu 15. Falávamos que iríamos perder muito. Como vamos lidar com momentos adversos? Se não, a gente vai para todo lado. Eu quero saber como quero perder. Ganhar é sempre bonito, mas como quero perder? — Os jogadores sentiram essa clareza. Eles precisavam disso: “Eu gosto assim. Defensivamente quero assim. Se vai dar certo ou errado, não sei, mas eu tenho minha convicção, quero assim. Vamos assim”. Contra o Cruzeiro, fomos assim: pressionar aqui, fazer isso, tiro de meta assim. Funcionou, mesmo perdendo. A partir daí fomos dando passos, jogando bem, ganhando credibilidade com os jogadores — o mais importante naquele primeiro momento. Analisando o Mirassol, vemos carreiras de jogadores que nunca haviam jogado Série A ou não tinham destaque como agora. Como foi o convencimento? Você citou o Cruzeiro. Eu lembro muito do jogo contra o Bahia na Fonte Nova. O Bahia não conseguia sair, vocês pressionando, e vocês escapando da pressão com facilidade. Como foi esse convencimento? Teve alguma conversa especial com algum jogador ou com o clube? — Que memória boa, hein. Os primeiros 30 minutos (contra o Bahia) foram talvez um dos melhores tempos da competição. Depois aceleramos muito o jogo, perdemos um pouco do controle. — Quando cheguei ao Mirassol, entendi que estava sendo contratado pelo meu perfil, não pela minha experiência de Série A — que também era minha primeira. Eles me contrataram porque eu pregava o que eles compactuam. Com a direção e comissão técnica, foi algo muito bem construído. Tenho certeza de que o Ivan (Baitello, auxiliar) foi consultado, o Rafael Tamarindo (preparador físico), o Juninho (Antunes, gestor do Mirassol), que já me conhecia. Isso foi importante para a diretoria. Para os jogadores, eu tinha jogado contra eles pelo Operário — dois jogos muito bons. Quase atrapalhamos o acesso, ainda bem que não atrapalhamos (risos). A espinha dorsal da equipe já tinham referências. Eles buscam muita informação. Já sabiam mais ou menos o que eu ia implementar. — E teve conversas-chave, sim. Fiz curso até de vendas para vender meu peixe. Conversei com o Danielzinho, com o Gabriel, com o Neto (Moura). O Yago (Felipe), quando chegou, foi um cara com quem me aproximei muito. Chamei alguns que tinham permanecido para unir quem já estava com quem estava chegando. Conversei com jogadores mais velhos: Walter, (Alex) Muralha. Marcelo e Rainer, meus auxiliares, também têm papel enorme nisso — nos coaches individuais e no relacionamento. Muitas vezes estou envolvido em estudo de jogo, montagem de treino, conteúdo da semana. A comissão garante que tudo esteja alinhado. Rafael Guanaes analisa cenário dos treinadores no Brasil e fala sobre a sua identidade — O ambiente é fundamental. Num clube menor como o Mirassol, é imprescindível. Lembro de uma conversa no meio do campo com alguns deles: falei sem filtro, sem medo de mostrar qualquer fragilidade, dizendo como eu enxergava a equipe e a capacidade que tínhamos. Relembra como foi o momento da sua vinda ao Mirassol. Você fala que, quando o telefone tocou, não teve dúvida. Como foi esse momento? — Falava com a minha esposa e o meu empresário (Neto): Será que eles não perceberam ainda que sou o cara certo para estar ali (no Mirassol)? E eu entendia completamente o receio. Ano do centenário, competição mais importante do clube e você ter um treinador que não tem experiência no Brasileirão? A decisão foi fora da curva e para quebrar paradigma. — Depois descobri que existia um debate: ‘Será que vamos conseguir manter a cultura de jogo na Série A ou vamos jogar por uma bola?’. Eu ouço isso desde que comecei minha carreira. Mas eu tinha certeza de que tinha tudo a ver: meu relacionamento com o jogo, minha forma de pensar, a maneira do clube ser e o que o clube esperava. — Foram uns dois ou três dias da minha saída do Atlético-GO até a ligação. O Mirassol ainda não tinha definido o treinador. E eu pensava: “Cara, eu tenho convicção de que é um casamento que vai dar certo. Se vamos nos manter na divisão, não sei, mas vai fluir”. Estudava o elenco. Vivi dias de sonho, imaginando o que poderia ser . "A ligação (para chegar no Mirassol) é de 47 segundos. Vamos? Vamos! Comprou passagem? Estou indo!" — Coisa rápida, porque já tinha essa expectativa de trabalhar no Mirassol. Nem fiquei sabendo do salário. Sabia que meu salário não diminuiria e que batendo igual estava ótimo. Têm muitos valores que são muito mais importantes que o dinheiro. E isso também tem muito a ver com a renovação. A gente vive num país muito resultadista. As pessoas discutem pouco o jogo e falam muito do próximo passo, seja guilhotina ou consagração. Para colocar em prática sua convicção, depende da capacidade do elenco executar. Você chega com elenco montado, pede na janela. Como funciona esse convencimento, considerando que o instintivo de um time recém-promovido é se retrair? Como você lidou com isso? — Eu concordo com você. Precisamos de mais pessoas que analisam o jogo. Existem aspectos mentais e emocionais. Cada um lida de um jeito. Às vezes vemos uma formiguinha como um gigante. É muito de como se encara. Contra o Vasco, ganhando 2 a 0, entramos em modo de sobrevivência, instintivo. O adversário empurra. — Na Europa, o estado do jogo muda menos com os gols. Aqui muda muito. Alguns times reativos seguem reativos até em casa. Respeito isso: é o que se preparou para fazer. Por isso digo aos jogadores: o que é jogar bem? Como trazer objetividade para algo subjetivo? O jogo contra o Vitória teve poucos apontamentos. Erros e acertos sempre existirão, mas como avaliar jogar bem dentro do planejado? No Brasil, perdeu, está tudo errado. — É cultural, mas é raso. Depois do Flamengo, bati um papo grande com o Filipe (Luís). No Bahia, com o Rogério (Ceni). Para mim, futebol é entretenimento. Precisa ser encarado assim. Traz emoção para o torcedor e para o país. Todo mundo fala do Mirassol, da forma de jogar. Um time que não ganhou todos os jogos, mas passou emoção. — Eu tenho uma frase no meu LinkedIn: muita gente acredita que sabe do jogo. Mas será que sabe mesmo? Eu me policio o tempo todo: ‘Estou avaliando bem?’. Consulto a comissão. “Estamos vendo igual?”. Senão caímos no modus operandis de achar que sabemos tudo. O futebol é complexo. São muitas tomadas decisões. O jogo está mais rápido. — Precisamos entender mais de contexto. Dependendo da qualidade do gramado afeta dimensões estratégicas. Contra o Inter, o (Fernando) Diniz propôs um jogo mais vertical porque trocaram a grama de São Januário. Não firmou. Isso é estratégia. Gostando ou não de jogo bem jogado, seremos julgados pelo resultado. Guanaes revela treinador que mais o exigiu no Brasileirão e aponta suas referências — Se eu pensasse só no resultado, não estaria aqui. Desde o começo da carreira, quis construir equipes que eu gostasse de ver jogar, que se identificassem com minha identidade, caráter e personalidade. A partir disso, construir a personalidade coletiva da equipe. — O negativo sempre tem mais apelo, vende mais. A gente enriquece lentamente, justamente porque damos pouco valor às coisas boas. O jogo contra o Corinthians na Arena, por exemplo, foi um baita jogo nosso, mas tomamos três. A imprensa reconheceu. Saímos chateados, mas nossos valores estavam ali. — O (Mario Celso) Petraglia sempre falou muito isso no Athletico: avaliação é um dos grandes pontos do futebol. Pode ser na vida também. Seria um bom caminho para enriquecer a análise do jogo, preparar melhores profissionais, melhores análises. Por consequência de tudo isso, os treinadores também ganhariam mais com isso. Ganhariam mais avaliação em relação aos métodos, não só pelo resultado. Hoje avaliamos muito pelo resultado. — Avaliar melhor enriqueceria a análise, formaria melhores profissionais e, por consequência, treinadores seriam avaliados pelo método, não só pelo resultado. Avaliamos muito pelo resultado. De onde vêm essas convicções? Analisando sua vida: base em clube grande, Estados Unidos, futebol universitário, curso da AFA… Como tudo isso soma para formar sua identidade? E o que pode mudar conforme o elenco? — Acredito que o principal é: uma vez vi um vídeo do Mourinho sobre treinamento e preguiça mental. Hoje você encontra qualquer treino de zona pressionante na internet. Mas para se desenvolver como profissional, é importante criar. Meus auxiliares participam, mas gosto de criar treino e de dar treino. Minhas preleções sou eu que monto. — O que é inegociável nos aspectos táticos sempre esteve claro, pelas experiências que tive. Foi uma bênção de Deus ter começado na última divisão de São Paulo. Passei por diversas situações que aumentaram meu repertório e solidificaram minhas crenças, tanto no jogo quanto no relacionamento com os jogadores. — Mas sempre com a perspectiva do Mourinho: a receita não está pronta. No Atlético-GO estava pronta — aí eu saí. Fui para o Sampaio Corrêa, aí é outra receita. Posso trazer o inegociável, mas o resto da página precisa estar em branco. Cultura diferente exige adaptações. Fizemos até 3-4-3 sem lateral no Operário-PR. O torcedor queria me matar: “Cadê o lateral?”. — E aí era jogo, por exemplo, do Campeonato Estadual: jogo de 80% de posse para nós e mais de 20 finalizações. Só que você vai tomar determinados contra-ataques e pode se desequilibrar em alguns momentos. O campo vai estar pequeno para você jogar e grande para você voltar. E aí, uma bola nas costas do corredor direito, onde o lateral não estaria. A cobertura, nesse momento, é do zagueiro. ‘Mas o gol é onde não tem o lateral’. Então, justamente, a gente volta para a análise do jogo e para entender um pouco mais sobre os momentos. Guanaes fala sobre seus hobbies e a vida fora dos gramados — Lá, você está fazendo mal para o ambiente, então dá um passo para trás. Cada experiência foi solidificando, principalmente na minha época de torcedor e estudo. Eu assisti a muito jogo, então fui bebendo em muitas fontes — não só em livros, mas aspectos visuais também. Aquilo que eu gostava, aquilo que eu preferia fazer de determinada maneira. Sempre ter pautas, mas fomentar a criatividade. Quero continuar assim e melhorar o que funciona bem, criando novas situações. Isso me aguça muito: manter estudando, manter focado naquilo que quero que as minhas equipes tenham como produção. Você acha que o ambiente do futebol brasileiro é propício a esse tipo de coisa? Porque, enquanto você falava, eu lembrava de alguns treinadores consagrados hoje. Lembro que o Cuca fez no Botafogo, uns 15 anos atrás, que talvez tenha sido o primeiro do Brasil em que o lateral não atacava aberto; ele ficava formando uma saída de três com os dois zagueiros. Era até o Luciano, que jogou no Criciúma, o Luciano Almeida. Aí o Diniz, por exemplo, que venceu uma Libertadores, mas é chamado de “professor Pardal” em cada clube que passa, porque as pessoas não entendem exatamente o tipo de jogo, as substituições, o que ele deseja. Você acha que está num clube que tem pressão local — dá para ver que a torcida é muito participativa e há cobrança. Você acha que esse tipo de proposta sua de trabalho, como você veria dentro desse ambiente do futebol brasileiro em um clube grande, com maior ascensão nacional? — Essa é uma ótima questão. Os clubes que contratam o (Fernando) Diniz precisam entender o que isso vai gerar. O gestor muitas vezes sabe, mas o torcedor não necessariamente vai compactuar com isso, de início. Dentro das proporções, cada lugar que passa é ter esse entendimento, sem perder o que é inegociável. O que é producente, eficiente para o jogo e para o ambiente? E se eu tiver, dentro do que é inegociável, o que eu consigo fazer de ajuste. Para poder ter o resultado. Em clube grande você precisa ganhar jogo toda hora. Eu vivenciei isso, de forma secundária, com o (Paulo) Pezzolano no Cruzeiro, no estadual e na Série B. Vi um pouco no Athletico com o Tiago (Nunes). Acredito que essa é a pauta, a questão de ter mais entendimento do jogo, de forma geral. — Cada jogo pede uma situação diferente nas trocas de posição, nas funções executadas. Penso muito no jogo dessa forma, pelas características dos jogadores para determinadas funções. É algo que precisa ser avaliado mesmo. Esse é um dos pontos, por exemplo, para a gente seguir, porque é o momento de se solidificar nesse posicionamento de treinamento de Série A, com oportunidade de Libertadores em relação ao Mirassol. "Já fui chamado de “professor Pardal”, disso, daquilo, mas sempre dentro da preparação: treinamento para levar para o jogo". — É algo que penso muito (treinar um time grande). Nesse determinado lugar, eu vou conseguir implementar minhas ideias? O grupo de jogadores ainda tem fome? Como eles vão assimilar essas ideias de jogo? Eles têm características para isso? Pensam desta forma ou vão querer se preservar? Tudo isso carece de bastante avaliação para qualquer tipo de escolha em relação ao futuro. "Aqui no Mirassol, não é questão de comodismo, porque o desafio é extremamente desconfortável, mas as ideias de jogo eu vou conseguir implementar". Guanaes, você é apontado como o melhor técnico do Campeonato Brasileiro. Seu nome foi ventilado por outros clubes. Houve alguma negociação real ou foi só sondagem antes da renovação? — Vou ser muito sincero: eu não fico sabendo (das sondagens) . E, para mim, o aspecto ético e moral é fundamental. O São Paulo, por exemplo: o São Paulo tem treinador. Qualquer outro clube com treinador, não tem conversa. Porque já fizeram isso comigo e é muito ruim, um desrespeito tremendo . Em uma situação bem determinada — “não estamos contando contigo” — tudo bem, mas eu sei que já aconteceu. Fico feliz com o reconhecimento. É o trabalho de todo o Mirassol: muitas mãos, muitos pés, muitas mentes. Fico feliz de estar sendo reconhecido e valorizado. Quando o momento ruim é desproporcional, o negativo pesa mais, mas o nosso momento é bom. Isso está sendo muito valorizado, e isso traz muita gratidão para mim: a forma de jogar. O jogar. É isso que a gente se apega demais. Como falei do (jogo do) Cruzeiro: nos apegamos muito ao jogar. — Peço foco total nessa vaga da Libertadores, que se transformou no campeonato que passamos a disputar. E o restante, mais importante, é que eu tinha muita paz no coração de que o caminho era permanecer no Mirassol. Você falou brevemente do curso de vendas que fez. Fala sobre essa construção de repertório que você tem fora do futebol. Sei que você também é fã de neurociência. Como você constrói esse repertório fora do futebol e traz isso para o dia a dia? — Nosso cérebro tem uma função de plasticidade e ele vai se modificando, na medida que você vai agregando qualquer tipo de conhecimento, e as experiências da vida. E eu quero atingir meu potencial máximo. Se eu só estudar sobre futebol, vou perder a oportunidade de desenvolver outras áreas do cérebro . Fui atrás de curso de comunicação, de vendas, fiz programação neolinguística, cursos de liderança, continuo fazendo espanhol, inglês. Leio determinados livros. Estou lendo o livro do Soriano (A bola não entra por acaso). A questão é aumentar meu repertório. O cérebro é uma máquina extremamente poderosa. Tem o momento de sentar e ver série, mas eu procuro estar desenvolvendo. Uma coisa que preciso fazer é dormir mais. É algo que preciso desenvolver e conseguir fazer para explorar o potencial máximo. Como foi esse curso de vendas? "Fiz o curso online de vendas, profissionalizante e aprofundado. É importante para convencer o jogador e ter determinadas ferramentas para vender o peixe". — Eu recebi até o email de um empresário de uma loja de calçados. Eu trabalhei lá, nunca tinha vendido nada na minha vida. Eu entrei e vendia para caramba. Ou era um bom vendedor, ou um bom mentiroso. A gente entrevistou o Danilo aqui e agora te conhece melhor. Você, como ele, é um grande pensador, de várias áreas. E a gente fala sobre como o futebol, às vezes, parece fazer questão de se limitar. Você acabou de falar da importância de se expandir. Como você, como líder, tenta colocar isso na cabeça da nova geração, que se reduz a um ambiente digital e não busca conhecimento mais amplo, embora isso seja importante até para a sociedade? — Com certeza. Educação é fundamental. Eu sempre digo a eles que ser treinador é um privilégio, e um líder que não tem liderados não exerce liderança alguma. Isso parte de construção de relacionamento. É uma oportunidade muito rica. — Algumas circunstâncias são oportunidades enormes para exercer influência — e influência é um dos maiores poderes que podemos ter. É preciso usar isso com responsabilidade. O futebol extrapola muito o jogo: são oportunidades ricas na vida das pessoas. Rafael Guanaes projeta a carreira e aponta seus principais sonhos — Às vezes, por exemplo, um jogador estava com o filho no hospital. Como ele vai performar bem? Tem jovens que já têm filhos muito cedo; eu, como pai, muitas vezes consigo direcioná-los, recomendar uma leitura, pedir para assistir a um jogo específico pela saída de bola, conversar no campo ou sentar na sala só para trocar uma ideia — não só quando há problema. Quero contribuir para que, quando o ano terminar, o jogador pense: ‘Eu aprendi com esse cara. Com esse trabalho, eu me desenvolvi dentro e fora de campo’. "Acredito que essa é uma responsabilidade de todos os líderes, no nível de influência que exercem". Sobre mercado, muitas vezes, quando você está começando e buscando chegar a um grande clube, deixa que o mercado te direcione. Falo muito sobre como é preciso inteligência na hora de fazer o movimento. Não tenho dúvida de que você tem claro qual será sua construção profissional. Temos exemplos recentes — Carpini, Tiago Nunes — que se precipitaram e depois precisaram dar passos para trás. Como você projeta sua carreira no médio prazo? E como lida com o mercado? Você tem isso em mente? — Essa parte fica muito com o Neto (empresário), que é muito estrategista. Mas existe um aspecto muito importante para mim: a fé. Ter paz. Esses são valores pessoais. Antes mesmo de receber a proposta de renovação do Mirassol, isso já estava claro para mim — por isso não depende do que vem, mas do ritmo que você dita. — Tudo é cíclico na vida, e no futebol também será. Em algum momento, vai acabar nossa parceria com o Mirassol. Mas isso precisa acontecer no tempo e da forma certos. Para mim é fundamental que o clube — representado principalmente pelo Juninho Antunes — sinta confiança em mim para gerir os processos de campo. E, como falamos, sem experiência nessa competição (Série A). Tenho 14 anos dirigindo equipes, montando elencos, fazendo gestão, mas não tive neste nível. Ter essa primeira oportunidade foi a premissa da construção. — E eu não vejo que essa construção tenha terminado. Estamos em processo de amadurecimento — como clube, como jogo, individualmente, como profissionais. Muitas coisas se relacionam a vaidades e valores. E, como já disse, o aspecto financeiro é fundamental para todos, mas não é o ponto mais importante. Hoje visto uma camisa que conquistou muito respeito no cenário nacional e com ideais que eu compactuo. A reciprocidade no Mirassol é real, comigo e com todos os profissionais. Trabalhamos muito pelo Mirassol, e o Mirassol nos dá muito. É um ciclo vitorioso que faz muito sentido para este momento. — Quando vai mudar? Não sei. O importante é viver cada dia com bons alinhamentos, construindo o clube no mesmo sentido para que todos possamos subir nossos patamares. Penso muito nesses valores, nessa paz para trabalhar — e não falo de não ter pressão, porque ela existe em qualquer nível do jogo. E na fé de que este é um tempo de propósito e construção aqui, com essas pessoas, para os próximos passos e para o legado que vamos deixar. Teve algum momento da competição em que você percebeu: “Sou um técnico de Série A”? Você se preparou muito, estudou, mas isso acontece em qualquer profissão: em algum momento a pessoa se vê dentro daquele cenário: Mineirão lotado na estreia, Leonardo Jardim do outro lado, depois Maracanã contra o Flamengo, empatar com o Palmeiras fora, enfrentar times gigantes. Teve algum momento em que você pensou: “Cara, eu sou técnico de Série A”? Ou você chegou ao Mirassol já com essa convicção? — Eu cheguei pensando que conseguiríamos fazer um grande trabalho. Mas nunca parei para pensar em “me classificar” como algo. Nunca duvidei do caminho — sabia que seria difícil, mas não duvidei. Ao mesmo tempo, não fiquei pensando nisso. — O que houve foram marcos do clube. Eu me conecto muito com clube, cidade, pessoas. Por exemplo: o Mirassol nunca tinha vencido o Corinthians. Vencemos o Corinthians em casa, sei que isso é marcante para o torcedor e para as pessoas do clube. Bater 46 pontos contra o Fluminense: ali é meta batida. Fazer um grande jogo contra o Palmeiras, no Allianz. — Eu não fico pensando em mim, em “cheguei nesse nível”, “estou fazendo isso”. Não tenho isso. Talvez, depois eu faça uma autoavaliação e veja que foi um ano de consolidação. Aí é momento de agradecer a tantas pessoas que constroem isso. É muito conjunto. 4 de 10
Rafael Guanaes em entrevista ao Abre Aspas — Foto: André Durão / ge Rafael Guanaes em entrevista ao Abre Aspas — Foto: André Durão / ge — Eu me conectei muito com aspectos coletivos e isso influencia muito como minhas equipes jogam. Uma coisa é falar; outra é sentir. Se eu pensasse diferente disso, não conseguiria transmitir o que precisa ser feito. Quando você não vivencia, não tem autoridade para falar. — Por isso gasto muita energia com ambiente, planejamento, cuidado, conversas. O conceito de equipe é muito importante para mim. — Teve uma vez no Athletico Paranaense: eu estava na expectativa de assumir o time no lugar do Tiago Nunes, que foi para o Corinthians. Não aconteceu. Pelo contrário: fui campeão estadual e caí, fui para o sub-20. Estava passando um momento difícil emocionalmente, tentando entender. Em determinado treino, com o Alessandro, tive uma clareza: meu propósito não dependia de categoria ou de clube. Meu propósito era ser treinador de futebol e liderar. — Eu fui para o Cruzeiro como auxiliar, mas meu propósito nunca se afastou de mim em relação à vida das pessoas, à contribuição possível através do jogo. Independente da divisão, da camisa. Se eu precisasse começar tudo de novo, começaria. Se esse fosse o propósito do lugar por onde eu tivesse que passar. — É isso que me mantém firme e com os pés no chão. Vim de baixo; hoje vivemos algo lindo e grande. Mas a bola é redonda: podemos viver tudo de novo. Meu propósito é imutável. Quando eu perder isso, será hora de reavaliar. Aproveitando que o calor do momento está grande: você passa serenidade e pés no chão. Dá um “flashback” do Guanaes que tentou ser jogador e em algum momento decidiu usar o talento para estudar fora e seguir outra direção. Como foi essa construção da sua relação com o futebol de ser atleta, morar fora, estudar? — Eu sempre fui apaixonado pelo futebol. Desde pequeno, jogando, passando pelos clubes, indo a estádio, assistindo a jogos. Tive a oportunidade de ir aos EUA para jogar e estudar. Lá percebi a importância do treinamento. Convivi com pessoas de várias nacionalidades; meu treinador era inglês. Isso me aguçou muito sobre preparação. — Voltei para tentar jogar a Copa São Paulo. Fiquei nesse “pinga aqui, pinga ali”. Até que desisti: “Não vou mexer com futebol. Preciso dar uma direção para a minha vida.” Fiz vestibular para Engenharia Civil. Meu pai tinha uma empresa de tratamento de água. Pensei: “A empresa está indo bem, vou estudar para ajudar meu pai.” "Uma honra estar aqui", diz Rafael Guanaes, eleito melhor técnico do Brasileirão 2025 — Mas pensa num homem agoniado no escritório, durou muito pouco. A participação do meu pai foi fundamental. Surgiu uma situação nova fora de campo: parceria com clubes, pensar formação de jogador. Ele me perguntou se isso não me daria novamente vontade de estar no futebol. — Começamos a preparar algo em São José dos Campos, fizemos parceria com o Fluminense de Feira de Santana e disputamos uma Copa São Paulo — Depois, ali no Joseense, disputamos a primeira Série B. E foi depois disso que fui pensar em ser treinador; até então, eu não tinha essa ideia de forma alguma. A única coisa que eu queria era jogar futebol. Ainda tentei voltar a jogar em 2011. Durou três jogos e pensei: “É melhor eu me preparar para fazer alguma coisa fora do campo.” Sempre estive muito envolvido com o futebol, de alguma forma. — Aí comecei com os cursos, curso na Argentina, licenças. Na licença da CBF, por exemplo, eu poderia iniciar na A, mas quis iniciar na B justamente para ter mais capacitação e conhecimento. Foi muito essa situação dentro e fora do campo, quase uma ruptura. Por isso falo de propósito: isso mexe muito comigo e com a minha família também. — Minha família participa demais de todos os meus processos. Minha esposa fica muito na retaguarda. Hoje minha filha teve uma apresentação de balé e eu não consegui ver. São sacrifícios que vamos tendo no futebol, como família e como profissional. Por isso, na minha concepção, tudo é muito abrangente. Extrapola resultados, vitórias e tudo aquilo com que temos que lidar. 5 de 10
Rafael Guanaes em entrevista ao Abre Aspas — Foto: André Durão / ge Rafael Guanaes em entrevista ao Abre Aspas — Foto: André Durão / ge — Principalmente nessa parte acadêmica, de formação, não foi algo planejado; foi algo que foi se desenvolvendo até eu encontrar meu caminho. A partir do momento em que encontrei, caminhei sempre na mesma direção. Essa dificuldade como jogador te gerou alguma frustração? — Quando parei, foi pela frustração de não ter sequência como jogador. Muitos passam por isso: disputam um campeonato estadual, e na metade do ano o clube não tem competição, e isso desemprega muita gente. É uma realidade quase semiprofissional. A nossa realidade hoje, de Mirassol, Série A, é vivida por 4%. A imensa maioria precisa optar por outras profissões ou se aposentar mais cedo para preparar a carreira fora do campo. Comigo foi com 28, 29 anos, como acontece com muitos. — Falei com o Hilton no último jogo, sobre um lance de pênalti no Vitória e a visão dele sobre marcar falta dentro e fora da área. Disse: “Esse tipo de mensagem precisa ser pregada, porque não depende de outros fatores além da regra.” O futebol, para mim, extrapola muito. A mensagem que deixamos é muito importante. Por isso falo da influência. — Muita coisa passa na minha cabeça para eu simplesmente me preocupar comigo mesmo. O que quero deixar também é importante. E outra: treinador de futebol… os que têm mais de 60 anos trabalhando, que me perdoem, mas é duro. É uma profissão desgastante. Quero aproveitar ao máximo, de forma intensa, para depois ter outra visão da vida. Este é o momento de aproveitar e caminhar para essa sequência de carreira. Você talvez seja um dos únicos técnicos brasileiros bem destacados neste ano. Além do Filipe Luís, são poucos brasileiros; a maioria dos que estão se destacando são estrangeiros. Como você vê isso? — Vejo que o principal, independente da nacionalidade, é a competência. Já falamos um pouco sobre como avaliar o trabalho do treinador, é sempre multifatorial. Muitas vezes, os treinadores são avaliados só por resultados. O jogo é a principal ferramenta para avaliar; entendo isso. Mas é preciso enriquecer essas avaliações. — Acredito que há muitos treinadores brasileiros de qualidade. Generalizar é errado e perigoso. Há muita gente boa no Brasil. A Série A destaca demais, mas muitos trabalham em outras divisões. Tenho 14 anos de trabalho, agora o Mirassol me deu oportunidade na Série A, que a gente abraçou de todas as formas. Mas eu já jogava assim lá na Bezinha de 2012, no meu primeiro acesso com o Joseense. Na última divisão de São Paulo, eu já tinha muito claro como queria que minhas equipes jogassem. E há muitos treinadores brasileiros assim, em todas as divisões. Ao mesmo tempo, há estrangeiros muito bons. O intercâmbio é bom e necessário. 6 de 10
Rafael Guanaes em entrevista ao Abre Aspas — Foto: André Durão / ge Rafael Guanaes em entrevista ao Abre Aspas — Foto: André Durão / ge — Quando trabalhei no São Carlos em 2015 e fomos campeões paulistas, fizemos intertemporada em Antalya, na Turquia. Os clubes vão para lá entre dezembro e janeiro porque o clima é mais ameno. Fiquei num hotel com times da Alemanha, Turquia, Polônia e vários outros. Ali, da varanda, fazia minhas anotações observando treinamentos; ia a estádios buscar informação. Ver jogo em loco é diferente a velocidade, a análise. Diversos lugares, nacionalidades, treinadores, formas de atuar. As convicções são o mais importante: do clube, do gestor, do treinador, aquilo que se quer produzir dentro de campo. — Fico tranquilo em dizer que o futebol brasileiro tem muito profissional bom, jovens, experientes, todos contribuíram e contribuem. E há estrangeiros muito bons também, assim como em qualquer lugar do mundo. O trabalho do treinador é muito autoral, cada um vê à sua maneira e constrói do seu jeito. Há espaço para todos. — Aproveito para dizer algo sobre as licenças: quem tem licença de fora vem trabalhar no Brasil e está sempre credenciado. Mas, se formos trabalhar fora, encontramos muita burocracia. Essa equivalência seria importante para que o treinador brasileiro também tenha espaço fora do país e possa levar nosso intercâmbio para fora. É meu comentário importante para o treinador brasileiro de modo geral, sem rivalidade com estrangeiros. — Tive bom contato com Sampaoli; Crespo é um cara excelente, super educado. O Abel esteve no Mirassol, tivemos uma boa conversa. Falo muito com Rogério, com Filipe. A classe poderia ser mais próxima, especialmente nos aspectos éticos e morais. Acho importante nos posicionarmos em determinados momentos. Não é por intenção de rivalidade, mas também é uma demonstração. Por falar nisso, o Mirassol é o único time que não tem estrangeiro no elenco na Série A. Isso também é algo que pode servir de exemplo? — Não é preconceito. O Mirassol tem muito claro o que espera do jogador: características de jogo e aspectos comportamentais. Se o Mirassol não consegue ter base suficiente de informação, não contrata. Mesmo assim, vamos errar, mas buscamos minimizar o erro com ferramentas de análise técnica, tática e física. O comportamental é sempre mais difícil. No Brasil, conseguimos ter mais acesso; de jogadores de fora, é mais difícil. Pergunta ao empresário se o jogador é gente boa, ele sempre é. Para o Mirassol, isso é fundamental; senão, não funciona. Precisamos proteger nosso ambiente, nossa cultura de trabalho, produção, relacionamento, respeito, a relação com o torcedor em cidade pequena. Tudo isso é importante para uma parceria de sucesso. O Mirassol teve algo raro no Brasil nesta temporada: foram 38 partidas de março ao início de dezembro. No ano que vem, isso não vai acontecer, terá Libertadores, Copa do Brasil e Brasileiro. Até que ponto esse calendário mais tranquilo influenciou no ótimo desempenho? E como será a atuação no mercado, considerando perfis tão distintos de jogadores? — O tempo influenciou diretamente. Mas não é só ter tempo, é saber aproveitar bem o tempo. Planejamento e qualidade de execução. Tivemos esse privilégio e usamos bem. E nos momentos de intervalo curto, foi mais uma demonstração de que o clube se preparou para estar na Série A: comer, dormir e treinar. O clube faz isso: investe. Está investindo em tecnologia agora para o fim do ano, inovando, pensando em logística. Quando surgiu Libertadores, Juninho e Paulinho já estavam pensando no que seria necessário ajustar. Eles têm visão, sabem como caminhar. O clube não tem muitas pessoas, mas tem pessoas muito competentes e concentradas no que precisa ser feito para trabalharmos bem. 7 de 10
Rafael Guanaes como técnico do Clube Atlético Joseense em 2012 — Foto: Danilo Sardinha/ge Rafael Guanaes como técnico do Clube Atlético Joseense em 2012 — Foto: Danilo Sardinha/ge — O resultado vem depois. Não sei como será 2026, mas sei qual será a pauta. Esse foi um dos motivos da minha renovação: sei como o clube estará pautado. — Sobre contratações: o que o Mirassol fez em 2025 não será suficiente para 2026. Começo por mim: eu preciso melhorar, porque o desafio é maior. Há um ponto que não controlamos: a expectativa. A expectativa de 2025 era uma; a de 2026 será outra. O recado começa por mim e passa por todo mundo. A cabeça do nosso chefe é essa: evolução contínua. Primeiro melhorar o clube, para que nós possamos melhorar como profissionais e, assim, melhorar nossa produção que, por consequência, melhora resultados. — O 2026 será mais desafiador que 2025. Em termos de elenco: se perdermos um jogador, a reposição precisa ter as mesmas características, o mesmo perfil comportamental e o nível necessário para disputar uma Libertadores. Não falo de nome; falo de desempenho. Isso precisa estar claro. Avaliar bem para minimizar erro. — O calendário mudou, Brasileiro começando com Estadual. Pouco tempo de férias, pouco tempo de preparação, mas já estamos pensando firme no planejamento. Muitos times têm estrutura, gestão, organização financeira, como o Mirassol. Mas nem todos chegam à Série A. E, chegando, não terminam em quarto, mantendo rendimento o ano inteiro. O que o Mirassol tem além da estrutura e da gestão? — Essa é boa. E por isso digo: não é o Guanaes. Isso vem da cultura do clube. É o que trouxe o clube até aqui. A forma de jogar e como funcionam os processos diários. A direção para onde se quer ir. Se você não sabe aonde quer chegar, qualquer caminho serve. O Mirassol sempre soube aonde queria chegar e segue dando passos para continuar evoluindo. — Sempre vi isso no clube de fora e agora de dentro. É uma confirmação. É cultura de jogo e cultura das pessoas com quem vamos trabalhar, construir, como pensamos. Se não pensarmos semelhante, não funciona. Parecido, igual ninguém pensa, mas alinhado o suficiente para funcionar como equipe. 8 de 10
Rafael Guanaes em entrevista ao Abre Aspas — Foto: André Durão / ge Rafael Guanaes em entrevista ao Abre Aspas — Foto: André Durão / ge — O clube, como todas as instituições e pessoas, tem suas particularidades. É importante para quem chega entender como é o Mirassol. Aí, funciona, e funciona muito bem. Acredito que esse é um dos caminhos que torna o clube sustentável. O “como” a trajetória, a construção da jornada. — Tenho certeza de que continuaremos buscando uma versão aprimorada de nós mesmos, como clube e como profissionais. E sobre inspirações? Você falou sobre criar seus treinos, sobre ser autoral, citou livros do Mourinho. Quem te inspira? Algum time histórico? Algum treinador? Você falou dos dois livros do Mourinho que leu. E, para emendar, qual foi o treinador que mais te exigiu “queimar a mente” nesse Campeonato Brasileiro? O mais difícil de enfrentar? — No Brasileiro foi, com certeza, o Diniz. O jogo aposicional vai te colocar situações no campo que os jogadores não estão acostumados. Principalmente para a gente implementar a nossa ideia de jogo. Você pode dar a bola para eles. Só que, quando o adversário consegue fazer isso com você porque é melhor, aí tudo bem: vamos sofrer na trincheira, faz parte. Agora, no que cabe a nós, é tentar aqui, tentar ali, para também termos nossos momentos de posse, seja através da pressão, seja neutralizando determinadas situações. Sempre penso em equilíbrio. Para podermos implementar nossa forma de jogar e não simplesmente reagir ao que o adversário propõe. O Vasco foi uma dessas equipes que mais exigiu e mais dificultou. Lembro da primeira. E um time histórico que te inspira? — Com certeza, o Barcelona do Guardiola. Mas eu via vídeos da Holanda de 1974, aquela pressão maluca que faziam. Eu pensava: “Cara, que loucura.” Será que dá para fazer algo mais organizado e conceitualmente melhor estabelecido? Gostava das pressões pós-perda do Klopp também. Gosto muito dos aspectos emocionais dos times do Simeone. O Diniz é outro que veio do interior de São Paulo e tem isso muito firme em relação às convicções dele. — E sempre fui construindo a partir disso. A seleção de 1982 também, uma seleção muito legal. Meu pai sempre foi apaixonado pela seleção de 1970, então eu assistia muito também. Tudo que é seleção brasileira… acho o futebol brasileiro gostoso de ver. Marca muito o improviso, a capacidade individual e a construção coletiva dentro disso. 9 de 10
Rafael Guanaes, técnico do Mirassol — Foto: Pedro Zacchi/Agência Mirassol Rafael Guanaes, técnico do Mirassol — Foto: Pedro Zacchi/Agência Mirassol — O Guardiola fala, num dos livros dele, sobre “falar o mesmo idioma”, não só jogar. Trazer esse aspecto coletivo dentro de tanta capacidade individual. Esse é um dos meus grandes valores pensando em equipe: dar sentido à coletividade. E, com certeza, o Barça do Guardiola foi o que mais me marcou, principalmente porque eu estava nessa época de transição entre parar de jogar e começar a construir fora do campo. — Mas busquei muitas equipes, muitas fontes. Citei alguns que me marcaram mais. Gosto do Tite, gosto de como ele lidera. Li o livro do Ancelotti e gostei bastante. São caras que lideram muito dentro dos aspectos humanos e têm suas particularidades táticas. Há muita coisa que dá para fazer. E são caras que influenciam demais. Mas, com certeza, o Guardiola é o treinador mais influente, talvez de todos os tempos, um dos, com certeza. Em 2025 você dirigiu dois times totalmente opostos: o Mirassol, que demitiu dois técnicos nos últimos 15 anos, e o Atlético-GO, que talvez seja o time que mais troca de treinador no Brasil. Esse 2025, com extremos tão diferentes, deixa alguma lição? Algum pensamento para o futuro? Algo do tipo: “Não sei se trabalharia novamente em um time que troca tanto”? — Sempre é importante tirar algum aprendizado. Não tenho nenhum arrependimento de ter ido para o Atlético-GO, pelo contrário. Mando um abraço para o Adson: só falava bem de mim nas coletivas pós-jogo. Agradeço mais uma vez a oportunidade de ter dirigido uma grande camisa do futebol brasileiro. Foi um aprendizado muito grande. O Shaylon é fruto dessa parceria também. E conheci outros jogadores ali. Sempre existem frutos. Por isso falei de propósitos: muitas vezes nem sabemos que forma vamos participar. Mas é amadurecimento, sempre aprendizado em relação à cultura de jogo, ao momento que o clube está passando. O Atlético vinha de descenso, então você lida com determinados tipos de pressão e gestão. — Acredito muito que foi um estágio. E tive paz para ir lá mesmo sabendo de tudo isso. O Atlético foi um estágio final de preparação para estar disponível hoje. A gente nunca esquece das pancadas que leva, elas fortalecem muito. Não só pensando em exposição ou resultado, mas na construção, em estar em um lugar em que compactuamos ideias e construímos juntos. Lembro bem da paz que senti quando fui para o Atlético, mesmo sabendo. E, na saída, para vir ao Mirassol, tudo fez sentido quando veio o convite. Vivemos um país de muitos rótulos. No futebol, sempre teve isso: um era o “paizão”, outro o “tático”. Você termina um ano com um trabalho de sucesso e ninguém te colocou carimbo nenhum ainda. Isso é bom? — Pode ser. Legal. Porque rotular é perigoso. Por isso tem que pisar em ovos. Eu me preocupo muito com a mensagem que deixamos dentro de campo e com a responsabilidade de falar com vocês, estar preparado para uma conversa como essa. Que mensagem vai ficar, quem ela atinge, o que fica depois. Não sei como eu me rotularia. Prefiro assim. — É importante ter repertório e ter facetas para continuar aprendendo e lidar com os desafios do futebol, liderança, comunicação. Isso é muito sério. O futebol envolve muitas pessoas, muita emoção. Para mim, é muito sério. É uma oportunidade que recebi e que vou lidar com responsabilidade e diligência. Não temos controle sobre alguns rótulos, mas quero estar preparado para os passos e desafios para os quais me dedico. Volto ao propósito: para cumprir meu propósito. Se eu tiver competência e parceria para continuar sendo abençoado com resultados, no nível que for… Estou sonhando com essa Libertadores faz tempo. É um sonho de adolescente e de Football Manager . — Eu encaro tudo com muita responsabilidade. Cada preleção é uma oportunidade muito grande para falar com os jogadores. Cada entrevista com vocês é uma mensagem importante. Sobre as férias: o que você gosta de fazer quando não está envolvido com futebol? 10 de 10
Rafael Guanaes em jogo entre Mirassol e Palmeiras no Brasileirão — Foto: Pedro Zacchi Rafael Guanaes em jogo entre Mirassol e Palmeiras no Brasileirão — Foto: Pedro Zacchi — Gosto muito de me cuidar, saúde, academia. A atividade física, para mim, é principalmente um treino mental: concentração, desafio. Gosto de crossfit, sou viciado. Sou nível intermediário, mas gosto muito. Jogo futebol com caras muito bons de bola, dos quais aprendo muito. Em Mirassol tem umas feras, alguns amigos na Athleta, que se se tornou minha parceira e tem muito significado. O que a marca representa e, principalmente, as pessoas. Estamos no fim da temporada; quando começo a falar de pessoas, bate emoção. Criamos muita amizade e vínculo. Ter uma parceria como essa para representar uma marca é uma vitória muito grande, que também veio por meio do Mirassol. — Pratico musculação, corrida, preciso estar ativo. Mas aí vem minha família, e aí é ponto fraco. Gosto de ver filme com eles, passear com meu pequenininho; ele gosta de ficar no carro sozinho às vezes. A Sarinha gosta do balé. A Lira e o Ben estão se preparando para estudar fora do país. Minha super guerreira, minha esposa, me aguenta desde sempre. Quando me conheceu desempregado, Deus falou para ela que o marido dela teria um chamado especial e que ela seria importante nessa trajetória de sustentação e intercessão. — A gente gosta muito de falar de Deus, de se fortalecer espiritualmente, conviver com pessoas, ir à igreja, comer fora, tomar café. Coisas simples. Somos pessoas simples, com gostos específicos, mas gostamos de estar juntos. E de ser uma família que serve a Deus. Em todas as cidades por que passamos, gostamos de entender que deixamos legados. Um beijo para minha família. Poderia dizer —que faço por eles, mas não faço não. Faço por realização de criança, de sonho, e por esse senso de propósito. Cada lugar, cada clube, cada competição, cada pessoa. Existem propósitos que Deus me capacita para cumprir. Para encerrar: sobre seus sonhos, você que é um cara do Football Manager, que já fez carreira lá em grandes times europeus. Quais são seus grandes sonhos além da Libertadores do ano que vem? Onde sua carreira real pode chegar? — Quero ser campeão. Quero ser campeão brasileiro, campeão paulista, campeão da Libertadores, campeão do mundo. Porque sonhar é grande e é de graça. Sonho grande. Sonhei em manter o time na primeira divisão e participar disso. Tinha uma dívida com o clube que apostou em mim e precisava devolver. E continuo em dívida, porque é um privilégio muito grande. Tenho sonho de trabalhar fora do país, não só para conhecer culturas, lugares, competições, Espanha, Japão, Inglaterra, etc. Mas também porque é importante que o treinador brasileiro volte a ter espaço em outros mercados. E por que não sonhar com seleção brasileira? Eu sonho em terminar minha carreira entendendo que atingi meu potencial máximo. Essa seria uma das grandes realizações.