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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Denúncia de estupro faz Cabo Verde ir de seleção mais legal à mais incômoda Julio Gomes Colunista do UOL, em Miami (EUA) 03/07/2026 05h30 Deixe seu comentário Ryan Mendes, capitão de Cabo Verde, sorri à frente de companheiros antes de treino para enfrentar a Argentina Imagem: Leonardo Fernandez / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× O mundo do futebol definitivamente passa um pano incrível para os casos de agressões e estupros. Por que? É porque é um universo masculino? Todo mundo tem culpa no cartório? A palavra de nenhuma mulher é confiável? Que raios acontece? É muita incômoda a falta de indignação com o caso de Ryan Mendes, de Cabo Verde. Basta bater os olhos para ver o esgoto a céu aberto que são as redes sociais. Quer dizer que agora se indignar com agressões sexuais é coisa de esquerdista? É militância? Relativizar estupro é coisa de que tipo de gente, então? Não era essa mesma turminha que pedia castração química e pena de morte para violadores? Ou eles são contra só o estupro de filme, aquele em que o cara arrasta uma moça para trás da moita e a violenta ali mesmo? Outros tipos de violações, invasões, forçações de barra, o desrespeito ao "não é não".... humm, aí já não são contra? Aí os machões veem seus "direitos" ameaçados e usurpados? O caso contra Ryan Mendes é muito grave. Sim, espanta que a Nova Zelândia, um país sério, esteja há tanto tempo (três meses) investigando os fatos e não tenha ainda aberto uma denúncia ou fechado o caso. A impressão é que a palavra da mulher nunca é suficiente - e neste caso parecem haver fartos indícios, não só palavras. Josias de Souza Zonzo, Flávio oscila entre autofagia e a trumpfobia PVC CR7 fica na Copa atrás de seus recordes Casagrande Como parar Haaland, um atacante 'muito cruel' Sakamoto Eleitores cruciais compram versão de Michelle Mas pior que a justiça da Nova Zelândia, que mais cedo ou mais tarde se pronunciará, é o silêncio ensurdecedor da Federação de Cabo Verde e dos integrantes desta seleção. E, claro, a passividade da Fifa. É bonito puxar coro de "no están solos" no estádio do México, em referência às vítimas dos terremotos da Venezuela. É bonito adotar discurso anti racista, discurso disso, discurso daquilo. Discursos são importantes. Mas ações são muito mais. A Fifa adota uma postura de "estou de mãos atadas" e não só não exigiu posicionamentos de Cabo Verde e do jogador acusado como ainda contribuiu com a censura imposta na entrevista coletiva de ontem, antes do jogo contra a Argentina. Cabo Verde impediu duas perguntas sobre o caso, com o assessor dizendo que "só se falaria do jogo". Quando perguntei "como estava Ryan Mendes para o jogo", fui igualmente censurado. Conversei com pessoas que acompanham a seleção de Cabo Verde de perto e também por dentro. São unânimes os depoimentos. Era um ambiente leve e amigável que se transformou desde que a notícia apareceu, no início da semana. Virou uma seleção acuada, que não sabe como lidar com algo com o qual... não soube lidar desde o início. Cabo Verde em nenhum momento iniciou uma investigação, em nenhum momento parece ter se preocupado minimamente com o crime que pode ter sido cometido debaixo dos narizes de oficiais da Federação, na Nova Zelândia - a brasileira que acusa o capitão do time estava trabalhando como intérprete e mostrou que fez as devidas denúncias de forma quase imediata. Se não fez nada na hora, como vai fazer agora? Assista aos jogos da Copa ao vivo no SBT pelo UOL Play. Assine agora a partir de R$ 14,90/mês Ryan Mendes pode ser inocente. Pode ser inocentado, sem ser inocente. Pode nunca mais poder entrar em um país com acordo de extradição com a Nova Zelândia. Ou pode continuar viajando para onde quiser. Isso tudo, só o tempo dirá. Mas fingir que não aconteceu nada? Agir como se não houvesse nada a ser falado ou explicado? Todos parecem ter vestido a carapuça. Até o jornalista local com quem conversei adotou o discurso do "há um aproveitamento midiático" pelo fato de Cabo Verde estar sob holofotes. Bem, se a moça não era ouvida em outros momentos - deveria -, então tem que trazer o tema à tona nessas horas mesmo, não é verdade? "Estão todos fechados com a seleção, já que a Federação não recebeu uma denúncia formal e não há nada que podia impedir o Ryan de jogar. Não é um caso único, tem outros jogadores de outras seleções acusados, não seria justo impedi-lo de jogar e realizar o sonho de criança". Não há decisões fáceis. Mas existe uma dívida com a opinião pública cabo-verdiana e ao universo de quem acompanha o futebol. Algum tipo de declaração, de atualização, de exposição sobre como vão lidar com tudo isso após o Mundial, por exemplo. Continua após a publicidade Cabo Verde era a "queridinha" de todo mundo, depois do jogo que Vozinha fez contra a Espanha, da heroica classificação e pelo fato de ser um país lusófono. Mas agora virou uma seleção incômoda e inadequada na Copa. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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